Durante décadas, atletas ouviram que era melhor evitar sexo antes de uma competição. A ideia de que a atividade sexual poderia “tirar força”, reduzir a disposição ou prejudicar o desempenho atravessou gerações e ainda aparece no esporte.
SIGA O OTD NO WHATSAPP, YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK Mas será que é preciso mesmo passar dias em abstinência antes de treinar ou competir?
A resposta mais atual da ciência é não há evidência suficiente para recomendar isso como regra. Uma revisão de estudos publicada em 2022 concluiu que a atividade sexual realizada entre 30 minutos e 24 horas antes do exercício não parece alterar de maneira significativa a capacidade aeróbica, a resistência muscular ou a força e potência.
Uma revisão de escopo publicada mais recentemente chegou a uma conclusão semelhante: os estudos disponíveis não identificam prejuízo consistente quando a atividade sexual ocorre pelo menos 10 a 12 horas antes do teste ou competição. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que a literatura ainda é pequena e apresenta importantes limitações.
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O estudo mais recente mudou alguma coisa? Um trabalho publicado em 2026 trouxe um dado interessante porque avaliou 21 homens altamente treinados, todos com cerca de 22 anos.
Os participantes realizaram testes de ciclismo e de força de pegada em duas situações: depois de masturbação com orgasmo e depois de abstinência. A atividade sexual aconteceu 30 minutos antes dos testes.
O resultado não mostrou prejuízo no desempenho. Na condição após a masturbação, os participantes chegaram a permanecer 3,2% mais tempo no teste de ciclismo e apresentaram uma pequena melhora na força média de pegada.
Também tiveram frequência cardíaca mais elevada durante o exercício. Os pesquisadores concluíram que a atividade sexual não prejudicou a capacidade física dos participantes e não provocou sinais de maior dano muscular.
Mas existe uma ressalva importante: 21 pessoas é uma amostra pequena, todos eram homens jovens e treinados e o estudo avaliou masturbação, não relação sexual com parceiro ou parceira. Portanto, o resultado não deve ser interpretado como “sexo melhora o treino”.
A conclusão mais segura é que, nesse grupo e nessas condições, não houve evidência de prejuízo. De onde veio a ideia de que sexo tira força?
A explicação tradicional está ligada à hipótese de que a atividade sexual provocaria perda de energia ou alterações hormonais capazes de prejudicar o desempenho. Só que a quantidade de energia gasta durante a atividade sexual é relativamente pequena quando comparada a uma sessão de exercício.
A revisão de escopo mais recente estima o gasto energético da atividade sexual em aproximadamente 1,8 a 2,8 equivalentes metabólicos (METs), embora exista bastante variação entre situações e pessoas. Também não há evidência consistente de que uma relação sexual na noite anterior produza uma queda relevante de testosterona capaz de comprometer força ou desempenho no dia seguinte.
A questão é mais complexa do que simplesmente “perder energia”. E se a atividade sexual acontecer poucas horas antes?
É justamente aqui que a literatura ainda apresenta alguma incerteza. A revisão de 2022 não encontrou diferença significativa entre abstinência e atividade sexual realizada entre 30 minutos e 24 horas antes dos testes.
Por outro lado, a revisão mais recente identificou que a recuperação cardiovascular pode ser diferente quando o intervalo entre atividade sexual e exercício é muito curto, especialmente em períodos inferiores a duas horas. Isso não significa que o exercício será prejudicado.
Significa apenas que o tempo entre uma atividade e outra pode importar para algumas respostas fisiológicas, principalmente quando o exercício começa logo depois. Para alguém que pretende fazer um treino muito intenso imediatamente após atividade sexual, vale mais observar a própria disposição do que seguir uma regra universal.
Sexo na noite anterior a uma competição faz diferença? As evidências disponíveis apontam que, para a maioria dos indicadores avaliados, provavelmente não.
Um estudo com jogadores profissionais de futebol acompanhou 88 partidas e comparou o desempenho dos atletas depois de relações sexuais na noite anterior. Houve uma associação com menor velocidade média nas partidas em que os jogadores relataram relação sexual na noite anterior.
Porém, outros parâmetros de desempenho não apresentaram a mesma relação, e o estudo envolveu apenas 14 jogadores. Esse resultado é importante justamente porque mostra por que não dá para resumir toda a literatura a “sexo não faz diferença”.
Existem estudos que encontram efeitos específicos. O problema é que as pesquisas são pequenas, usam métodos diferentes e avaliam populações e exercícios distintos.
E a musculação? Aqui também não existe uma resposta absoluta.
Um estudo com 50 homens fisicamente ativos encontrou redução da força máxima no agachamento depois de relação sexual na noite anterior. Os participantes levantaram, em média, 107 kg depois da atividade sexual, contra 109,4 kg na condição de abstinência.
Esse resultado contrasta com a revisão sistemática de 2022, que, ao reunir nove estudos e 133 participantes, não encontrou diferença geral relevante em força, potência, resistência muscular ou capacidade aeróbica. É justamente por isso que uma matéria responsável não deve escolher apenas o estudo que confirma uma determinada opinião.
A melhor leitura do conjunto da evidência é que não existe um efeito consistente e universal da atividade sexual sobre o desempenho físico. E para mulheres?
Aqui existe uma grande lacuna. A revisão de escopo publicada recentemente mostrou que 99% dos participantes dos estudos disponíveis eram homens.
Além disso, a maior parte das pesquisas envolveu pessoas entre 20 e 40 anos. Isso significa que ainda sabemos muito menos sobre o efeito da atividade sexual antes do exercício em mulheres, pessoas mais velhas e diferentes grupos de atletas.
Portanto, não seria correto simplesmente pegar os resultados dos estudos com homens jovens e dizer que eles valem da mesma maneira para toda a população. O sono pode ser mais importante que o sexo
Existe outro detalhe que pode explicar parte das diferenças entre estudos. Uma relação sexual ou masturbação pode acontecer em horários diferentes e em condições diferentes.
Se a atividade fizer a pessoa dormir tarde e reduzir significativamente o tempo de sono, por exemplo, o problema pode estar mais relacionado à privação de sono do que à atividade sexual em si. A revisão mais recente aponta justamente a qualidade do sono como um dos mecanismos que ainda precisam ser melhor estudados.
Isso é particularmente relevante para atletas. Dormir mal na noite anterior a uma competição pode ter consequências muito mais importantes para disposição, concentração e recuperação do que a própria atividade sexual.
Então posso fazer sexo antes de treinar? Para uma pessoa saudável, não existe uma recomendação científica geral para evitar atividade sexual antes do exercício apenas por medo de perder desempenho.
A situação individual, porém, continua sendo importante. Se a atividade sexual acontece muito perto de um treino intenso e a pessoa se sente cansada, sonolenta ou simplesmente sem disposição, faz sentido ajustar o horário ou a intensidade da atividade.
Da mesma maneira, se a relação sexual faz parte da rotina e não interfere no sono, na recuperação ou na disposição, não há razão científica sólida para estabelecer uma abstinência automática antes de um treino. Para atletas profissionais, decisões específicas podem ser discutidas com a equipe médica, de preparação física e de psicologia esportiva, especialmente em períodos competitivos importantes.
E antes de uma prova importante? A melhor estratégia provavelmente é não testar mudanças radicais justamente no dia da competição.
Se o atleta está acostumado a manter determinada rotina e ela não interfere no sono ou na recuperação, não há evidência forte para dizer que precisa abandoná-la por medo de perder rendimento. Por outro lado, se uma atividade costuma alterar o horário de dormir, provocar cansaço ou modificar a rotina de recuperação, pode ser interessante evitá-la antes de uma competição — mas pelo conjunto desses fatores, e não pela ideia de que sexo automaticamente “rouba força”.
Afinal, sexo atrapalha o desempenho esportivo? Até o momento, a ciência não sustenta a velha regra de que atletas precisam evitar atividade sexual antes de treinar ou competir.
A revisão sistemática de 2022 não encontrou vantagem consistente nem para a abstinência nem para a atividade sexual. O estudo mais recente, realizado com atletas homens altamente treinados, também não encontrou prejuízo quando a atividade sexual ocorreu apenas 30 minutos antes dos testes.
Isso não significa que sexo melhore o desempenho, nem que todas as pessoas terão exatamente a mesma resposta. Significa algo mais simples:
não existe, até agora, uma boa base científica para dizer que atividade sexual antes do exercício necessariamente faz o atleta perder força ou rendimento. Para quem pratica esporte, talvez seja mais importante prestar atenção ao que realmente influencia a preparação: sono, alimentação, hidratação, recuperação, planejamento do treino e condições físicas e psicológicas no dia da atividade.
A velha história de que é preciso escolher entre sexo e desempenho esportivo parece ter muito mais tradição do que evidência científica.
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