Por que a incerteza da eleição pode ser mais angustiante do que o próprio voto?

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Escolher um candidato e apertar a tecla “confirma” pode levar poucos segundos. A espera pelo resultado, porém, pode ocupar horas ou até dias na cabeça de algumas pessoas.

SIGA O OTD NO WHATSAPP, YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK Às vésperas do segundo turno das Eleições 2026, marcado para este domingo (25), a diferença entre esses dois momentos ganha importância para quem sente ansiedade diante da disputa.

O Tribunal Superior Eleitoral confirma o dia 25 de outubro como a data do segundo turno. Mas por que esperar pode ser tão difícil?

A resposta passa por uma característica bastante conhecida do funcionamento psicológico: a dificuldade de lidar com a incerteza. Leia tambémBem-Estar Todo DiaEleição pode acelerar o coração? Entenda a relação com o estresseBem-Estar Todo DiaPor que é difícil mudar a opinião após uma fake news?Bem-Estar Todo Dia3 parques para andar de skate em São Paulo e curtir o ar livreBem-Estar Todo DiaNa quadra, a criança aprende a viver em sociedade?

O problema não é apenas o resultado Durante a votação, existe uma tarefa concreta.

O eleitor vai até o local de votação, escolhe seus candidatos e registra sua decisão. Depois disso, a ação individual termina.

A espera é diferente. O resultado ainda não está definido para aquela pessoa, mas ela também não tem como controlá-lo.

É justamente essa combinação — algo importante ainda não resolvido e pouca possibilidade de interferência imediata — que pode alimentar a preocupação. Em entrevista à Universidade do Arizona durante a eleição americana de 2024, a psicóloga Ashley Huggins explicou que a incerteza tende a aumentar a ansiedade e que a espera pelo resultado pode intensificar essa sensação porque o momento está fora do controle individual.

Isso não é exclusivo de eleições. A incerteza aparece em diferentes situações da vida: esperar o resultado de um exame, uma resposta importante, uma decisão profissional ou a confirmação de uma viagem.

A eleição acrescenta uma característica particular: o resultado pode ser percebido como relevante para o futuro da própria pessoa, da família ou da sociedade. O cérebro começa a preencher o que ainda não sabe

Quando uma situação permanece indefinida, é comum que a mente tente antecipar o que pode acontecer. O problema é que imaginar possibilidades não significa ter informação suficiente para saber qual delas realmente acontecerá.

Uma revisão publicada em 2026 reuniu 115 estudos e mais de 28 mil participantes para analisar a relação entre intolerância à incerteza, preocupação e ansiedade. O trabalho encontrou uma associação robusta entre a dificuldade de lidar com a incerteza e a preocupação, além de mostrar que a preocupação funciona como um mecanismo importante na relação entre incerteza e sintomas de ansiedade.

Em outras palavras, não saber pode estimular a tentativa de descobrir mentalmente o que ainda não pode ser conhecido. É aí que podem surgir pensamentos como:

“E se acontecer isso?” “E se o resultado for diferente do que espero?”

“Como minha vida vai mudar?” “Será que algo ruim vai acontecer?”

A pessoa tenta resolver mentalmente uma situação que ainda não possui uma resposta. Quanto mais importante parece o resultado, maior pode ser a preocupação

A reação também depende do significado atribuído à eleição. Duas pessoas podem acompanhar exatamente o mesmo processo eleitoral e reagir de maneiras completamente diferentes.

Para uma, o resultado pode representar apenas uma decisão política que será conhecida no domingo. Para outra, pode estar associado a preocupações com trabalho, economia, segurança, saúde, direitos, família ou futuro.

Isso ajuda a explicar por que não existe uma medida única de “ansiedade eleitoral”. Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta semana ouviu especialistas que destacaram justamente a diferença entre uma preocupação normal com a eleição e uma situação em que pensamentos sobre o resultado passam a dominar a rotina e prejudicar sono, trabalho, descanso ou relações pessoais.

Sentir tensão antes de uma eleição não significa, por si só, ter um problema de saúde mental. A intensidade, a duração e o impacto sobre a vida cotidiana são mais importantes.

A busca por mais informação pode piorar a sensação de controle Existe uma armadilha particularmente comum durante a espera: tentar acabar com a incerteza consumindo cada vez mais informação.

A pessoa acompanha uma pesquisa. Depois outra.

Abre as redes sociais. Procura comentários.

Atualiza sites. Assiste a vídeos.

E volta novamente para conferir se apareceu alguma novidade. A sensação é de que mais informação permitirá descobrir antecipadamente o que vai acontecer.

Mas isso não necessariamente funciona. A psicóloga Ashley Huggins explicou à Universidade do Arizona que buscar continuamente novas informações pode dar uma sensação de controle sem realmente eliminar a incerteza.

Em redes sociais, a exposição contínua também pode aumentar sentimentos de ansiedade, raiva ou tristeza. É uma diferença importante:

estar informado é diferente de tentar eliminar a incerteza por meio de informação constante. A eleição também pode mexer com expectativas sobre o futuro

Outro estudo, publicado na revista Psychological Reports, acompanhou adultos antes e depois das eleições legislativas americanas de 2018. Os pesquisadores observaram que uma maior ruptura das crenças que os participantes tinham sobre o mundo esteve associada, no período imediatamente relacionado à eleição, a menor satisfação com a vida e alterações nas emoções positivas e negativas.

A descoberta ajuda a entender outro aspecto da espera. Uma eleição não é apenas uma escolha sobre o presente.

Para muitas pessoas, ela está ligada a uma imagem de como os próximos anos deveriam ser. Quando existe incerteza sobre qual futuro será construído, a mente pode antecipar diferentes cenários.

Isso pode tornar a espera emocionalmente mais intensa. Mas o resultado pode não produzir apenas alívio

Seria simplista imaginar que toda a tensão desaparece imediatamente depois da apuração. Pesquisas sobre eleições mostram que o bem-estar também pode variar depois que o resultado é conhecido, dependendo das expectativas e da relação que a pessoa tinha com aquele resultado.

Um estudo sobre a eleição americana de 2024, ainda em formato de working paper, encontrou mudanças no bem-estar subjetivo após a resolução da incerteza eleitoral. Como se trata de um trabalho preliminar e de outro país, seus resultados não devem ser generalizados automaticamente para os eleitores brasileiros.

Isso reforça uma ideia importante: o problema psicológico não está necessariamente apenas no resultado.

A expectativa, a incerteza e a interpretação que cada pessoa faz do que está acontecendo também entram na equação. Como atravessar a espera sem deixar a eleição dominar o dia?

Não é necessário ignorar a eleição. Uma estratégia mais realista é estabelecer limites para a forma como ela ocupa a rotina.

1. Escolha horários para se informar

Em vez de consultar notícias a cada poucos minutos, determine momentos específicos para acompanhar as informações. 2.

Prefira fontes confiáveis Mais conteúdo não significa necessariamente mais informação útil.

O excesso de mensagens, opiniões e previsões pode aumentar a sensação de confusão. 3.

Não tente descobrir antecipadamente o resultado Pesquisas, análises e previsões podem ajudar a compreender o cenário, mas não substituem a apuração oficial.

4. Continue fazendo atividades normais

Caminhar, praticar esporte, cozinhar, ler, ouvir música ou encontrar amigos não significa ignorar a realidade. São maneiras de impedir que a espera ocupe todos os espaços do dia.

5. Observe o próprio comportamento

Se a pessoa percebe que está dormindo pior, deixando de trabalhar, evitando pessoas ou verificando notícias de maneira repetitiva, vale reduzir a exposição e observar se isso melhora. Quando a preocupação deixa de ser apenas preocupação?

A preocupação com uma eleição pode ser uma reação perfeitamente compreensível a um acontecimento importante. O sinal de alerta aparece quando ela deixa de ser uma emoção passageira e começa a interferir de maneira significativa na vida cotidiana.

Especialistas ouvidos pela Folha apontaram como sinais relevantes a persistência dos sintomas, o sofrimento intenso e o prejuízo no trabalho, descanso, relacionamentos ou outras atividades. Nessas situações, procurar ajuda profissional pode ser apropriado.

Isso não significa abandonar posições políticas ou deixar de acompanhar a vida pública. O objetivo do cuidado em saúde mental é ajudar a pessoa a lidar melhor com a situação, sem precisar eliminar suas preocupações legítimas.

O voto termina. A incerteza também passa

A espera pode ser difícil justamente porque coloca a pessoa diante de algo que ela considera importante, mas que não consegue resolver imediatamente. O cérebro tenta antecipar cenários, procura informações e busca sinais de que aquilo que teme ou espera realmente acontecerá.

Mas nenhuma quantidade de atualização nas redes sociais consegue transformar uma situação ainda incerta em uma certeza. O resultado das Eleições 2026 será conhecido por meio da apuração oficial da Justiça Eleitoral.

Até lá, é possível acompanhar o processo sem permitir que a espera ocupe todos os momentos do dia. A eleição é um acontecimento coletivo, mas a maneira de atravessar a espera continua sendo individual.

E entender que a ansiedade diante do desconhecido faz parte de um mecanismo psicológico conhecido pode ser o primeiro passo para não deixar a incerteza controlar a rotina.

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