Como você olha para os resíduos da sua empresa: como algo de que é preciso se livrar ou como uma possível fonte de receita? A resposta define quanto você paga, quanto poderia ganhar e o que acontece com o material depois que ele cruza o portão. O pano de fundo é animador porque parece que tem muito a ser ganhado.
Segundo o Circularity Gap Report 2025, só 6,9% dos materiais usados no mundo vêm de fontes recicladas, contra 9,1% em 2018. Cerca de 96% do conteúdo reciclado vem de resíduo industrial ou de demolição, ou seja, o mercado de materiais secundários depende de empresas, não de consumidores.
Mas o que as empresas podem fazer? Depende do como enxergam a questão de resíduos. Usando metodologias como a aprendizagem organizacional de Simon Zadek publicado na Harvard Business Review podemos distinguir as seguintes cinco estágios:
Estágio 1: descarte O resíduo é o que sobra, e se paga para alguém levar embora.
A pergunta-chave é "quanto pagamos para nos livrar disso?", e quanto mais barato, melhor. O assunto é de operações.
O problema não é só o custo: materiais com valor saem misturados e perdem esse valor. Aqui alguns exemplos de resíduos que podem ser valorizados: Orgânicos podem virar ração ou fertilizante, metais e vidro seguem para reciclagem, têxteis e couro podem virar isolantes.
No lixo eletrônico mundial de 2022 havia cerca de US$ 91 bilhões em metais, uma parte deles metais raros. A grife Burberry destruiu £ 28,6 milhões em produtos não vendidos no ano fiscal 2017/18, foi duramente criticada e encerrou a prática em 2018.
Estágio 2: conformidade A empresa passa a provar que descarta corretamente.
A pergunta-chave é "estamos operando dentro da lei?", e os responsáveis são operações e jurídico. Há inventário, rastreabilidade e destinador licenciado.
O custo do descarte sobe, e o foco é risco legal e passivo ambiental. O limite dessa lógica aparece quando o resíduo é tratado só como risco a ser contido.
O acordo de repactuação de Mariana soma R$ 170 bilhões, dos quais R$ 100 bilhões serão pagos ao longo dos próximos 20 anos por Samarco, Vale e BHP. O tempo e a atenção de quem decide vão para administrar as consequências, e não para pensar em crescimento.
Estágio 3: gestão ativa O resíduo passa a ser gerenciado como ativo.
Custo evitado e taxa de desvio de aterro entram na gestão. A pergunta-chave é "qual é o potencial de valor nos nossos resíduos?", com operações e sustentabilidade no comando.
A Unilever, em 2015, zerou o envio de resíduo não perigoso a aterro em mais de 240 fábricas em 67 países e evitou € 200 milhões em custos. O ganho veio cedo e sem investimento pesado: com 130 fábricas já na meta, a economia era de quase € 70 milhões.
Parte dos resíduos virou material de construção na Costa do Marfim, composto na Índia e tijolos na China. Estágio 4: co-produtos
O resíduo vira co-produto e fonte de receita, e a gestão se profissionaliza: eficiência do processo, reaproveitamento interno, pesquisa e desenvolvimento. A pergunta-chave é "quanto estamos ganhando com co-produtos e com a eficiência operacional?", e entram operações e comercial.
Na Votorantim Cimentos, a substituição térmica (resíduos no lugar de combustível fóssil nos fornos) passou de 26,5% em 2022 para 31% em 2023, com meta de 53% em 2030. A indústria brasileira de cimento coprocessou mais de 3 milhões de toneladas de resíduos em 2022, e a Verdera, da Votorantim, já abastece os fornos com mais de 1 milhão de toneladas.
A estratégia chega ao financiamento: uma emissão de R$ 450 milhões em títulos sustentáveis com custo de capital mais em conta, com condições ligadas ao cumprimento de metas. Estágio 5: ecossistema
O meu resíduo é o insumo do meu vizinho, e o mercado de materiais secundários começa a tomar forma. A visão é de território e de cadeia de valor.
A pergunta-chave é "que mercado ou arranjo coletivo valoriza ainda mais os nossos resíduos?" ou “quais resíduos dos vizinhos podem substituir insumos no nosso processo?”, com comercial e relações institucionais na liderança. A simbiose industrial de Kalundborg, na Dinamarca, funciona desde 1972 com nove parceiros públicos e privados.
Estima-se uma economia de cerca de € 24 milhões por ano no resultado dos parceiros, além de centenas de milhares de toneladas de CO₂ e milhões de metros cúbicos de água evitados. O valor é recorrente, repartido entre os participantes e só existe por causa do arranjo coletivo.
Os gatilhos para aprendizagem Do estágio 1 para o 2, a força vem de fora: fiscalização, incidente, cliente, legislação.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos criou a responsabilidade compartilhada, exige plano de gerenciamento e manifesto de transporte, e as multas podem chegar a R$ 50 milhões. O decreto de 2025 sobre embalagens plásticas fixa conteúdo reciclado mínimo de 22% em 2026, chegando a 40% em 2040.
A política nacional de economia circular foi aprovada na Câmara e segue em tramitação no Senado. Para quem exporta, o regulamento europeu de embalagens passou a valer em agosto de 2026.
Os saltos seguintes dependem menos da lei e mais de alguém empreendedor dentro da empresa. Do 2 para o 3, é uma área que se dá conta que resíduo influencia a margem: a segregação define o preço, e quem separa paga menos ou vende como co-produto.
Do 3 para o 4, é alguém que enxerga novas receitas e inovação, e consegue capital. O BNDES aprovou R$ 400 milhões para a Lwart ampliar o rerrefino de óleo usado.
Do 4 para o 5, é preciso um intraempreendedor se tornar um empreendedor de sistemas. O Grupo Moura é uma boa referência.
Recicla há mais de 30 anos as baterias que vende, e investiu R$ 850 milhões numa unidade em Belo Jardim (PE) que dobra sua capacidade de reciclar chumbo, para mais de 200 mil toneladas por ano. A pergunta para o próximo passo é a do estágio 5: o que ela pode fazer que também beneficie concorrentes, fornecedores e o setor?
Teste rápido: em que estágio está a sua empresa? Em cada linha, marque a coluna que melhor descreve a empresa hoje.
Como sua empresa lida com resíduos A coluna com mais marcas é o seu estágio predominante, e as marcas mais à esquerda mostram seus pontos cegos.
Faça o exercício por fluxo de resíduo e por planta: é comum ter uma fábrica no estágio 4 e outra no 1. O plano de ação sai automaticamente.
A mudança raramente começa no conselho. Começa quando alguém olha para o que sai pelo portão e enxerga margem.
Quem, na sua empresa, é essa pessoa? Mais Lidas
Epoca Negócios