O Brasil reelegeu Lula e ficou fora da onda de direita na América do Sul. Com dívida de 83% do PIB, recorde de feminicídios em 2025 e população de rua quase dobrada, o voto foi na contramão.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito neste domingo (25) com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% (59.826.041) de Flávio Bolsonaro, uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos. O comparecimento foi de 80,78%.
Com isso, o maior país da América do Sul ficou fora de uma onda que, nos últimos 18 meses, passou por quase todos os vizinhos. Segundo levantamento do New York Times, nos 18 meses anteriores todas as sete eleições presidenciais na América Latina foram vencidas pela direita.
Na América do Sul, o mapa mudou assim: Chile: José Antonio Kast foi eleito em 14 de dezembro de 2025 com 59,1% dos votos, a maior votação da história do país.
Bolívia: Rodrigo Paz venceu o segundo turno e encerrou quase duas décadas de governos do MAS. Equador: Daniel Noboa foi reeleito.
Colômbia: Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno em 21 de junho de 2026. Peru: Keiko Fujimori venceu por margem estreita.
Argentina e Paraguai: seguem com Javier Milei e Santiago Peña. Com Lula, a conta regional, segundo a Gazeta do Povo, é de sete governos de direita ou centro-direita contra cinco de esquerda ou centro-esquerda.
Fora da América do Sul, México e Uruguai também ficam à esquerda. A reeleição, portanto, não é apenas um fato brasileiro, e sim a quebra de um padrão regional.
Não há uma explicação única, e a direita brasileira precisa olhar para todas elas. A oposição carregava uma bagagem que a dos vizinhos não carregava.
Nos países que viraram à direita, os vencedores se apresentaram como alternativa a governos desgastados. No Brasil, o candidato era filho de um ex-presidente condenado a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe e preso desde novembro de 2025.
Seu irmão Eduardo foi condenado pelo STF a 4 anos e 2 meses por articular o tarifaço dos EUA para pressionar o julgamento do pai, e tem prisão decretada desde 8 de outubro. Flávio prometeu indulto ao pai, chamou o julgamento de “farsa” e classificou o irmão de “perseguido político”.
O eleitor já via o problema: em janeiro, a Quaest mostrava que 43% achavam que um nome da oposição fora da família teria mais chance de derrotar Lula, contra 34% que apostavam em um Bolsonaro. Flávio terminou com 48,21%, menos que os 49,10% do pai em 2022.
O Peru mostra que bagagem familiar não é sentença, já que Keiko Fujimori se elegeu depois de três derrotas e contra um adversário de esquerda radical. Mas ela foi exceção.
O fator Trump funcionou ao contrário. Em países como Argentina, Equador e Bolívia, a proximidade com Washington foi vantagem ou neutra.
No Brasil, o tarifaço de 50% de 2025 foi associado pelo STF à ação de Eduardo, e a tarifa adicional de 25% da seção 301, em vigor desde 22 de julho, deu a Lula um discurso de soberania. Em 2025, a Reuters já registrava que a aprovação do presidente subiu depois do embate com Trump.
Na terça-feira anterior à votação, Trump disse que todos os candidatos que apoiou na região venceram, sem citar o Brasil. A mobilização decidiu.
A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,2%. Lula ganhou 10,4 milhões de votos a mais que em 4 de outubro, contra 3,7 milhões de Flávio.
Ele terminou o primeiro turno em segundo lugar, com 2,2 milhões de votos de desvantagem, e foi o primeiro candidato desde 1989 a vencer assim, segundo o Guardian. A apuração teve virada: Flávio liderou por cerca de 38 minutos, e Lula retomou a frente às 20h30.
O governo teve argumentos. As mortes violentas intencionais caíram 8,2% em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A Reuters registrou que Lula defendeu resultados em emprego, pobreza e desigualdade, apesar do desgaste com o custo de vida. Reeleição não é absolvição, e os indicadores continuam duros.
Contas públicas. A mediana do Prisma Fiscal projeta dívida bruta de 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027, e o Focus vê 95,1% em 2030.
O déficit primário projetado é de cerca de R$ 53 bilhões, contra meta de superávit de 0,25% do PIB, cumprida apenas com abatimentos. O governo projeta gasto primário de 19,55% do PIB, o maior do mandato.
A Selic está em 13,75%, e a inflação projetada de 5,22% está acima do teto de 4,5%. População de rua.
Pelo CadÚnico, o número de pessoas em situação de rua passou de 198,7 mil em dezembro de 2022 para 392,4 mil em junho de 2026, alta de 97,4%. O dado exige cautela: o CadÚnico não é um censo, e o observatório da UFMG lembra que parte do aumento pode refletir um cadastro mais eficiente.
Feminicídios. O Brasil registrou 1.571 vítimas em 2025, o maior número da série e o quarto recorde seguido, a uma taxa de 1,4 por 100 mil mulheres.
Os dados preliminares de 2026 mostram leve queda, com 741 casos no primeiro semestre contra 760 no mesmo período de 2025. Há um episódio que precisa ser tratado com rigor.
Às 17h03 de domingo, o ministro Cristiano Zanin, do STF, ex-advogado de Lula e indicado por ele, prorrogou a votação até as 19h em todo o país, atendendo a um pedido da coligação do presidente. Zanin afirmou depois que as duas campanhas alegaram problemas no transporte de eleitores.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, limitou a medida às seções ainda abertas. Ele disse que “nunca, na história do TSE, houve qualquer prorrogação”, que não havia norma que a autorizasse e que a decisão “gerou dificuldades”.
Mas ele também afirmou que não houve nenhuma alteração no resultado e telefonou aos dois candidatos para confirmá-lo. A crítica à decisão de Zanin é legítima, mesmo para quem votou em Lula.
Já a reação de Flávio, que disse que “é impossível reconhecer o resultado” e que vai pedir a anulação da eleição, tem de ser julgada pelas provas. Ele afirmou, sem provas, que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre.
A diferença de 4,4 milhões de votos é grande demais para ser explicada por uma prorrogação de duas horas, e a missão da OEA não apontou interferência externa. A via correta é a judicial, e o caminho de 2022 já mostrou que recusar o resultado afasta o eleitor de centro.
A direita democrática precisa distinguir contestação de negação. Lula passa a ser o líder de esquerda mais importante de uma região cada vez mais conservadora.
No Mercosul, ele terá de lidar com Milei, Peña, Paz e Kast. O presidente paraguaio já o parabenizou, mas o atrito com a Argentina é antigo: em janeiro, o Brasil deixou de representar a embaixada argentina em Caracas, depois de uma publicação de Milei sobre a captura de Maduro.
Há mais perguntas que respostas sobre os EUA: a tarifa de 25%, o embaixador Daniel Perez sem agrément e um Departamento de Estado que o governo diz não ter diálogo. Internamente, Lula precisará ceder ainda mais à direita para ter governabilidade no Congresso, segundo a CNN Brasil, e poderá indicar quatro ministros do STF, segundo o NYT.
O Brasil foi exceção, mas não por ser de esquerda. A direita sul-americana venceu onde ofereceu uma alternativa a governos desgastados.
No Brasil, ofereceu uma continuidade familiar, com processos e condenações. O eleitor não rejeitou a direita, rejeitou aquele pacote, e a lição vale para 2030: quem quiser vencer terá de apresentar credibilidade fiscal, nomes novos e distância da agenda jurídica da família Bolsonaro.
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