Com desempenho abaixo das expectativas em agosto, o volume total de serviços prestados no país mostra acomodação e perda de fôlego, embora ainda em patamar elevado. Algumas atividades ainda têm desempenho mais favorável, sustentadas por mercado de trabalho apertado, mas outras já sentem efeitos dos juros altos e também do aumento de custos imposto pela alta de preços de combustíveis. O indicador cheio de serviços, porém, vem mostrando estabilidade dentro de um cenário geral de esfriamento da economia no terceiro trimestre.
O volume de serviços prestados no país caiu 0,1% em agosto, ante julho, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em julho, o resultado foi mantido como estabilidade (0%). O recuo foi o maior para um mês de agosto desde 2024 (-0,4%).
O desempenho ficou abaixo da mediana das estimativas de 21 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo VALOR DATA, de crescimento de 0,4%. O intervalo das projeções ia de de recuo de 0,5% e alta de 1,3%.
Na comparação com agosto de 2025, o indicador houve alta de 0,6%, também abaixo do que era esperado. Neste caso, a expectativa mediana do mercado, pelo VALOR DATA, era de alta de 1,3%. O resultado em 12 meses até agosto é de aumento de 2,2%. Em 2026, no resultado acumulado até agosto, há expansão de 1,7% ante igual período de 2025.
A mensagem geral do desempenho do setor de serviços em agosto é de desaceleração da economia, diz Alexandre Maluf, economista da XP. “O setor não está mais compensando a fraqueza observada em outros setores. Um mercado de trabalho ainda apertado e a renda real elevada devem continuar apoiando os serviços relacionados às famílias no curto prazo, mas os juros altos e o crescente peso do serviço da dívida das famílias seguem como ventos contrários relevantes para o consumo.”
Com o resultado de agosto, diz Maluf, a herança estatística para o terceiro trimestre de 2026 ficou em estabilidade, ou 0%, o que significa desaceleração ante o ganho de 0,4% no segundo trimestre, na comparação com os três meses anteriores.
“O setor de serviços, que vinha crescendo ao longo dos últimos anos e até talvez o início desse ano de 2026, de fato perdeu um pouco do seu fôlego e começa o segundo semestre num ritmo mais fraco, um pouco mais moderado”, avalia Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Para Tobler, a desaceleração reflete a política monetária, que tardou a ter maior impacto nos serviços em razão de alguns estímulos que permitiram reações positivas da economia. Tobler destaca que o quadro não é de queda forte em serviços, mas de desaceleração ainda em patamar bastante alto.
Segundo a PMS, com o desempenho de agosto, os serviços estão em patamar 19,9% superior ao do pré-pandemia, em fevereiro de 2020, e 0,3% abaixo do patamar recorde da série histórica da pesquisa, alcançado em outubro de 2025.
Mas os dados da PMS, diz Tobler, já mostram um esfriamento da atividade econômica, o que pode trazer um pouco mais de conforto para a política monetária do Banco Central. Mesmo com continuidade da redução de juros, avalia, não deve haver retomada forte dos serviços tão cedo. “Devemos continuar no cenário atual de desaceleração no fim de 2026 e início de 2027. Talvez só a partir da metade do ano que vem poderemos começar a ver uma reação um pouquinho melhor.”
Três das cinco atividades acompanhadas pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) tiveram queda na passagem entre julho e agosto. O recuo mais intenso foi em outros serviços (1%), seguido por transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio (-0,2%) e serviços profissionais, administrativos e complementares. Os serviços de informação e comunicação permaneceram estáveis, com variação zero.
Dentre as cinco atividades da PMS, a única exceção no campo positivo foi a dos serviços prestados às famílias, com alta de 2,1%. Foi o segundo aumento consecutivo, com ganho acumulado de 2,9%. Esse grupo, destaca Maluf, foi puxado por serviços de alojamento e alimentação liderando o avanço, com alta de 2,6% em agosto, ante julho. Os serviços de alimentação ganharam tração pelo segundo mês consecutivo, nota, refletindo o mercado de trabalho apertado e o aumento da renda real, que sustentam as despesas das famílias com serviços.
Rodrigo Lobo, gerente do IBGE responsável pela PMS, explica que a acomodação do setor de serviços vem desde outubro do ano passado, com variação próxima de zero do índice agregado. Isso, porém, oculta um desequilíbrio entre as cinco atividades que compõem o indicador.
Nesse cenário, os segmentos de informação e comunicação, serviços profissionais, administrativos e complementares e serviços prestados às famílias aparecem no campo positivo, enquanto transportes e outros serviços vão na direção contrária.
“Tem uma conjuntura de desequilíbrio setorial, com três atividades mais positivas. Alguns com crescimento ainda sustentado, como serviços de informação e comunicação, que têm mantido protagonismo, e em menor escala os serviços profissionais e também os serviços prestados às famílias”, afirma Lobo.
Por outro lado, os transportes são influência negativa no resultado, segundo ele, ao lado de outros serviços. “O que mais puxa para baixo [o setor de serviços] são os transportes. Há uma pressão especialmente do transporte aéreo de passageiros, com maior volume de passageiros no ano passado, e o maior preço das passagens, que comprime a receita das empresas”.
No caso de transportes, a alta de preços de combustíveis depois da guerra no Oriente Médio afeta o resultado, tanto no transporte aéreo quanto no rodoviário. Neste último, também há impacto do aumento nos preços de pedágio.
“Temos visto, nos serviços, uma oscilação dentro dos segmentos da atividade e isso faz com que o resultado agregado dê sinais de desaceleração, mas com variações muito mais próximas a zero”, diz Tobler. Para o economista, a oscilação deve continuar nos próximos meses. “Não devemos voltar àquele ritmo de crescimento mais forte e disseminado observado em 2025.”
“Por qualquer ângulo que se veja vemos desaceleração, tanto do número agregado, quanto dos grandes grupos que os compõem”, avalia Luis Otávio Leal, economista-chefe do G5 Partners. Mesmo o ramo de serviços de tecnologia da informação, que vem sustentando não apenas a PMS, quanto o próprio PIB de serviços nos últimos trimestre, mostra perda de fôlego, diz. “Vai se configurando um cenário no qual o PIB do terceiro trimestre tende para o terreno negativo.”
Os dados disponíveis acompanhados pela G5, diz Leal, apontam para uma queda de 0,3% no PIB do terceiro trimestre ante os três meses anteriores, com ajuste sazonal. “Ainda temos os dados de setembro, mas a nossa projeção inicial de estabilidade no trimestre parece cada vez mais otimista.”
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