Senadora conservadora diz que foi ameaçada com fotos do filho trans e escancara o pânico que a própria direita fabrica contra pessoas trans

Senadora conservadora diz que foi ameaçada com fotos do filho trans e escancara o pânico que a própria direita fabrica contra pessoas trans - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

A senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul, afirmou na noite de domingo, 18 de outubro, durante entrevista ao podcast Três Irmãos, sediado em Araguari, Minas Gerais, que, durante o primeiro turno da campanha presidencial de 2022, quando disputava o Planalto pelo União Brasil, soube que o então presidente Jair Bolsonaro ameaçava divulgar à imprensa fotografias e informações sobre a transição de gênero de seu filho, um homem trans. Segundo o relato, ela recebeu, por cerca de um ano, arquivos anônimos com imagens de antes e depois do rapaz, e o alerta de que o material poderia vazar chegou pela campanha de Lula, então candidato, que lhe teria telefonado para avisar que jornalistas das campanhas haviam participado de um jantar, que o pessoal de Bolsonaro fora chamado e que dali saíra a promessa de estourar o antes e depois do filho da Soraya, a conservadora.

Ela contou que, nos 45 dias de campanha, tirou o filho de onde moravam e o levou para o interior, porque já bastava a Abin, e que entrou em pânico, pois quem tem um problema desses dentro de casa teme que a pessoa não consiga segurar a onda. Soraya disse ainda que teve crises de pânico depois de saber da ameaça e que não sabia como lidar com a situação. Vale registrar, por rigor, que a origem da ameaça chega à senadora de segunda mão, por um telefonema atribuído à campanha de Lula, que a reportagem não conseguiu confirmar de forma independente, e que, até a publicação deste texto, não houve manifestação de Jair Bolsonaro sobre o que ela disse.

O fato social que esta matéria põe em primeiro plano, no entanto, sobrevive à checagem de cada elo da cadeia, e é o de uma mulher que é mãe, senadora e conservadora, que tem um filho trans e que diz não saber lidar com isso, enquanto pessoas trans como eu, como tantas outras pelo Brasil afora, precisam lidar com isso todos os dias sem nenhuma proteção, porque foram convertidas em fantoche de pânico moral, em espantalho, figura de que o conservadorismo organizado precisa para ter um inimigo em comum e assim endereçar a sua base. É por isso que a fala de Soraya revela tanto: ela mesma foi colocada no cerco justamente por ocupar o lugar de conservadora e mãe de um menino trans, ou seja, por encarnar a contradição que o discurso do campo de onde ela veio jura não existir, já que, na gramática do pânico, a pessoa trans é sempre o estranho que ameaça a família de fora, nunca o filho que mora dentro de casa.

Convém lembrar, a propósito, que nem toda pessoa trans lida bem com o antigo nome ou com as imagens anteriores à transição, e isso é completamente compreensível, bastando pensarmos em qualquer fase de mudança profunda da vida, quando precisamos nos distanciar por algum tempo do que fomos, não por vergonha nem por negação, mas porque a travessia exige um chão novo para que o corpo e o nome recém-conquistados se firmem sem a interferência de um passado que, por vezes, foi vivido sob dor. Para nós, pessoas trans e travestis, esse distanciamento faz todo sentido, e, muitas vezes, é condição de sobrevivência psíquica, ao passo que, para os nossos responsáveis, sobretudo quando a transição se dá na adolescência, essa lógica nem sempre é evidente, pois o álbum de família, a fotografia de aniversário e o nome escolhido com tanto carinho na maternidade guardam para quem cuidou uma memória afetiva que não coincide com a nossa, e é possível que o antes, para eles, seja lembrança de amor, enquanto, para o filho ou a filha, é lugar de que se precisa descansar. Entre uma coisa e outra abre-se uma assimetria delicada, que só o tempo e a escuta costumam atravessar, e que se agrava de maneira cruel quando um terceiro, de fora, decide que essas imagens podem ser entregues ao público como prova de algo, tomando para si o direito de decidir quando e como a história de uma pessoa trans será contada.

Quando a exposição do corpo de um rapaz serve de arma entre adultos que disputam o poder, a pessoa trans deixa de ser sujeito e passa a ser munição, uma mercadoria de escândalo cujo valor está em ser exibida, antes e depois, como prova de uma ameaça que os próprios fabricantes do espantalho se encarregam de produzir, e o dano recai sobre alguém que nem estava na disputa, enquanto o sistema político segue tratando como lance de estratégia eleitoral aquilo que, para quem vive na pele, é questão de segurança e de vida. Que uma senadora, com a proteção de um mandato, uma rede de contatos e acesso a quem lhe telefonasse de dentro de uma campanha presidencial, tenha entrado em pânico diante da hipótese do vazamento dá a medida do que acontece com as famílias que não têm nada disso, e é essa desproporção entre quem pode se proteger e quem não pode que o depoimento deixa à mostra, talvez sem pretender.

Há ainda uma ironia que a matéria não pode deixar passar, e é que o espantalho só funciona enquanto a vida real que ele caricatura permanece escondida, de modo que a ameaça de expor um filho trans só tem força porque a comunidade que o rodeia foi treinada a reagir com horror àquilo que o espantalho representa, e é esse treinamento coletivo, anos de discurso sobre ideologia, doutrinação e perigo às crianças, que transforma uma fotografia de família em arma. Quem alimentou esse discurso colhe agora, dentro da própria casa, o medo que ajudou a semear, e a pergunta que fica, para a senadora e para o seu antigo campo, é se o pânico que ela descreve sentir diante do vazamento não é o mesmo que milhares de famílias trans sentem diariamente diante de uma política que as usa como inimigo de ocasião.

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