O senador republicano Bill Cassidy, que preside o Comitê de Saúde do Senado dos Estados Unidos, culpou nesta quarta-feira a abordagem do governo do presidente Donald Trump em relação às vacinas pelas recentes mortes por sarampo na Pensilvânia. Cassidy também pressionou a indicada pelo presidente para o principal cargo de saúde pública dos EUA, Nicole Saphier, a afirmar claramente que vacinas não causam autismo. Leia também: Cortes de gastos e de funcionários afetam serviços essenciais nos EUA Trump assina decreto que flexibiliza aplicação de vacinas para crianças Pensilvânia registra primeiras mortes por sarampo nos EUA neste ano
O republicano, que é médico da Louisiana, fez as críticas em seu discurso de abertura de uma audiência do Senado, em um momento em que o país enfrenta seu pior surto de sarampo em mais de 35 anos. Ele afirmou que três pessoas morreram de sarampo na Pensilvânia, enquanto uma quarta morte está sob investigação, devido à desinformação e a políticas equivocadas.
“Sofrer de qualquer doença é terrível, mas sofrer de uma doença que pode ser evitada é ainda pior”, disse Cassidy.
O comitê analisa as indicações de Chris Klomp, para vice-secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS); da médica Nicole Saphier, para ser conselheira de Saúde dos EUA; e do médico Timothy Westlake, para comandar a Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias. Cassidy afirmou que o país precisa de autoridades de saúde “que tomem decisões com base na ciência, e não na política ou na ideologia”. A médica Jessica Early segura um frasco da vacina combinada contra sarampo, caxumba e rubéola na Prisma Health Pediatrics, em Greer, Carolina do Sul, em 18 de março de 2026 AP Foto/Mary Conlon/Arquivo
Saphier é pressionada sobre relação entre vacinas e autismo Cassidy dirigiu sua advertência mais contundente a Saphier, pressionando-a repetidamente a afirmar que a vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, não causa autismo. Inicialmente, Saphier evitou uma resposta categórica, dizendo que “não viu evidências confiáveis” de que vacinas causem autismo.
“Isso é um pouco evasivo”, disse Cassidy, alertando que outros já haviam usado esse tipo de “brecha” para posteriormente agir contra as evidências científicas.
Saphier acabou afirmando que não acredita que a vacina tríplice viral seja letal, classificando-a como “nossa principal ferramenta para combater o sarampo”, e declarou: “Não acredito que as vacinas infantis causem autismo.”
O secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., há muito defende uma relação já refutada entre vacinas e autismo, contrariando as evidências científicas — tese que Trump também abraçou.
Cassidy também pressionou Saphier sobre a vacina contra a hepatite B aplicada ao nascer, recomendada há décadas e que Kennedy quer deixar de recomendar. Saphier classificou a aplicação universal ao nascimento como uma prática “testada e comprovada”, mas não chegou a dizer que deveria continuar sendo recomendada, acrescentando estar “aberta a futuras discussões”.
Cassidy afirmou que as vacinas são “extremamente seguras e eficazes e não causam autismo”. Ele também criticou uma ordem executiva que desmembrou o calendário de vacinação infantil, afirmando que ela exige mais aplicações e torna as crianças menos seguras.
O senador republicano tem se tornado mais abertamente crítico aos esforços de Kennedy para reformular a política de vacinação dos EUA, apesar de ter dado o voto decisivo para confirmar o secretário de Saúde no cargo, ciente do histórico de ativismo público de Kennedy contra vacinas.
O político de Louisiana não disputará a reeleição depois de perder as primárias republicanas em maio. Trump fez campanha contra Cassidy e apoiou um adversário devido ao voto do senador, em 2021, pela condenação de Trump em seu segundo julgamento de impeachment, o que tornou politicamente mais fácil para Cassidy desafiar o presidente.
“Aparentemente, o CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças] está trabalhando em uma definição de morte por sarampo. Alguém disse que não precisávamos trabalhar nisso havia décadas porque ninguém morria de sarampo, e agora temos pessoas morrendo de sarampo. Esse será um legado terrível para este governo”, disse Cassidy.
Tanto Saphier quanto Westlake disseram à senadora democrata Maggie Hassan, de New Hampshire, que seguiriam a lei, e não as ordens de Trump, caso houvesse conflito entre ambas. Hassan fez a mesma pergunta a Klomp durante uma audiência na terça-feira. A médica Nicole Saphier afirmou em depoimento perante o Comitê de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões do Senado que 'não viu evidências confiáveis' de que vacinas causem autismo. REUTERS/Evan Vucci
Órgãos de saúde enfrentam lacunas na liderança Saphier, radiologista e ex-colaboradora da Fox News, é a terceira escolha de Trump para o cargo de conselheira de Saúde dos EUA, depois que a indicação da influenciadora de bem-estar Casey Means ficou paralisada no Senado, e Trump retirou a indicação da médica Janette Nesheiwat diante de questionamentos sobre suas credenciais. O posto está vago desde janeiro de 2025.
Klomp, ex-executivo de tecnologia na área da saúde, tem comandado grande parte das operações cotidianas do HHS, tendo passado de diretor do Medicare a principal conselheiro de Kennedy no departamento. O Comitê de Finanças realizou na terça-feira a audiência formal sobre sua indicação. A sessão desta quarta-feira é uma audiência de cortesia.
A audiência busca tratar do acúmulo de cargos vagos na área da saúde no governo. O Senado confirmou a médica Erica Schwartz para comandar os CDC em 5 de agosto, enquanto a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) está sem um chefe permanente desde maio.
Valor