Desde que a presença de técnicos portugueses se tornou corriqueira no futebol brasileiro, ninguém aliou títulos à longevidade como Abel Ferreira. Há seis anos no comando do Palmeiras, o maior vencedor da história alviverde, que já colocou o clube na final da Libertadores deste ano, tenta a vaga numa segunda decisão, a da Copa do Brasil.
Hoje, às 16h, no Nubank Parque, encontrará na área técnica ao lado um conterrâneo que almeja uma trajetória semelhante. Pedro Emanuel vive, semana a semana, a complicada missão de estabilizar e evoluir um Vasco que ainda dá seus primeiros passos num possível ressurgimento e sonha com a disputa de uma segunda final consecutiva da competição.
As equipes fazem o primeiro jogo da semifinal hoje, e a volta acontece no próximo domingo, dia 8 de novembro, em São Januário. Ex-defensores no futebol português, Abel e Pedro se enfrentaram 11 vezes como jogadores.
Como treinadores, são dois encontros. Um em Portugal, quando o Braga de Abel fez 6 a 0 no Estoril de Pedro, em 2017, e outro já no futebol brasileiro, em agosto, quando o Palmeiras goleou o Vasco por 4 a 1, pelo Brasileirão.
Abel Ferreira, hoje treinador do Palmeiras, atuou pelo Sporting de 2006 até 2011 AFP
No país, os dois iniciaram seus trabalhos em contextos muito parecidos. Chegaram ao Brasil pouco conhecidos pelos torcedores e com carreiras tímidas em termos de conquistas de torneios importantes pelo mundo.
Ainda substituíram medalhões: Vanderlei Luxemburgo, no Palmeiras, e Renato Gaúcho, no Vasco. Hoje com 47 anos, Abel completou seis anos de clube na última sexta-feira.
Chegou ao país em meio à pandemia da Covid-19, em novembro de 2020, e estreou com arquibancadas vazias, com a pressão da torcida limitada ao ambiente virtual e ao contexto interno do clube, presidido à época por Maurício Galiotte. O alviverde ajustava as contas e era um projeto promissor.
Havia sido campeão brasileiro em 2016 e em 2018, além de ter faturado a Copa do Brasil de 2015. Em seus primeiros meses, Abel mostrou que estava destinado a liderá-lo: começou a aplicar um futebol pragmaticamente vertical, de trato rápido com a bola, para conquistar a Libertadores e a Copa do Brasil daquela temporada.
Ainda assim, sofreu forte pressão em 2021, apesar de mais um título da Libertadores, quando perdeu as finais da Supercopa, da Recopa, do Paulista, foi o terceiro do Brasileiro 18 pontos atrás do campeão Atlético-MG, e eliminado na Copa do Brasil pelo CRB. Mesmo hoje, com 11 títulos no currículo, segue navegando por bons e maus momentos, reconstruções de elencos e reinvenções de propostas.
A seu favor, conta com uma estrutura de ponta, um projeto sólido e vencedor e uma estabilidade que poucos treinadores têm no país. Não à toa, o alviverde chega como favorito: o esquema com três zagueiros permite ao Palmeiras se defender bem e produzir um alto volume de jogo, principalmente dos corredores para o meio.
Impulsionado pelos 23 gols de Flaco López e pelos 13 de Maurício, soma 105 marcados na temporada e apenas 46 sofridos. Como mandante, perdeu apenas três vezes no ano, nenhuma por mais de um gol de diferença.
Hoje, pode ter a volta de Vitor Roque ao time titular. Promissor e organizado
No Vasco, Pedro Emanuel conquistou a confiança da torcida e da diretoria ao revigorar o futebol cruz-maltino, transformado após a sua chegada e a de reforços como Sosa, Lescano e Colidio. Hoje, o Vasco é uma equipe mais organizada defensivamente, que gosta de trabalhar a bola pelo meio e tem paciência para isso.
Consegue agredir bem pelos corredores e tem rápidos gatilhos de transição quando recupera a posse. Perto de completar quatro meses de clube, o técnico de 51 anos vive o que pode ser a maior chance da carreira: se consolidar como o comandante de um projeto que promete ser ambicioso.
A partir da temporada que vem, o Vasco passa a ter a força financeira da Almirante Participações, que adquiriu a SAF do clube. Pedro Emanuel, hoje treinador do Vasco, atuou pelo Porto de 2002 até 2009
AFP Para isso, precisa estancar as várias sangrias de um time em construção.
O elenco curto e com grande variação de desempenho entre titulares e reservas tem esgotado fisicamente seus principais jogadores num segundo semestre que chegou a ter três competições simultâneas. Os erros técnicos, principalmente defensivos e em grandes partidas, são outro problema que voltou a atormentar o cruz-maltino às vésperas da semifinal.
São dez gols sofridos nos últimos cinco jogos. O desempenho ofensivo também não é o ideal: o artilheiro da temporada segue sendo um defensor, o lateral Pumita Rodríguez, autor de nove gols.
Os primeiros meses de trabalho mostram que o treinador tem convicção para defender suas ideias, ainda que os resultados variem. Rodando o elenco, levou o clube da repescagem à semifinal da Sul-Americana, bem como à semifinal de hoje.
Essa boa gestão, porém, passou a apresentar deslizes: a equipe ainda não conseguiu deixar a luta contra o rebaixamento no Brasileirão e vem de derrota elástica para o rival Flamengo após o treinador optar por um time misto, o que aumentou a pressão para o jogo de hoje. Para conquistar um lugar ao sol como o de Abel num futebol brasileiro intenso em cobranças, emoções e competitividade, é preciso transformar convicção em resultados constantemente.
Nada melhor para isso, afinal, que sonhar com um Vasco novamente finalista e de volta à Libertadores.
O Globo