Gabriel de Alba precisou chegar ao Botafogo para avisar que existia. “Não sou IA”, brincou em um dos primeiros vídeos dirigidos à torcida, depois de meses com poucas fotos e entrevistas.
Quando desembarcou no Rio, em 18 de agosto, veio com os filhos e entrou num ambiente em que discrição vale pouco: foi ao treino, falou ao elenco, encontrou torcedores e viu de um camarote a eliminação para o Cienciano, do Peru, na Copa Sul-Americana. “Estarei aqui de coração e também muito presente fisicamente”, prometeu.
Era uma exposição inédita para quem passou três décadas em grandes negócios sem transformar a própria personalidade em parte deles. Até o futebol brasileiro entrar em sua vida, era mais fácil encontrar na internet suas empresas do que o próprio De Alba.
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Mais de dois meses depois, o empresário continua menos conhecido do que o negócio que está perto de assumir. O Botafogo social passou a deter 99,18% da SAF, depois da diluição da Eagle, e abriu caminho para transferir o controle à GDA Luma quando avançar a recuperação judicial.
Gabriel de Alba — cujas iniciais dão nome à gestora — ainda não é formalmente o dono, mas sua gestora já havia colocado cerca de US$ 50 milhões no clube até setembro, numa operação de US$ 105 milhões. Em campo, o time chegou ao fim de outubro em 12º, com 39 pontos, três acima da zona de rebaixamento.
O especialista em empresas em crise está perto de assumir um clube que voltou a viver sob pressão. Desde a primeira visita ao Rio, O GLOBO contatou 22 pessoas que conheceram De Alba antes do Botafogo, entre antigos parceiros, subordinados, executivos de empresas em que investiu e adversários em disputas empresariais.
Só oito responderam, a maioria apenas sob anonimato. Tolek Strukoff, presidente e CEO da Gateway Casinos, companhia canadense na qual De Alba exerce papel de liderança no conselho, foi o único que aceitou falar publicamente.
A dificuldade de encontrar quem aceite descrevê-lo com nome e sobrenome não transforma silêncio em suspeita, mas ajuda a dimensionar a reserva de quem passou décadas no centro de grandes negócios sem virar o rosto deles. O empresário Gabriel de Alba é o nome por trás da GDA Luma, uma empresa especializada em 'ativos podres'
Reprodução / Instagram A apresentação mais repetida no Brasil é verdadeira, mas curta: "o mexicano que ajudou a salvar o Cirque du Soleil".
Nascido no México e cidadão americano, formado em Finanças e Economia pela NYU e com MBA em Columbia, De Alba passou por Bankers Trust, Bank of America e AT&T Latin America antes de ajudar a fundar o Catalyst, no Canadá, em 2002. A própria GDA resume sua carreira como uma sequência de investimentos, recapitalizações e reestruturações em diferentes países.
Danilo desfalcou o Botafogo em metade das partidas que antecederam suas convocações para a seleção brasileira Madrugada de negócios
Às 3h38 de 19 de fevereiro de 2010, por exemplo, uma cena pouco conhecida deixou outro retrato de De Alba nos autos de um tribunal canadense. A Canwest, grande conglomerado de mídia do Canadá, estava em recuperação financeira e já tinha um acordo encaminhado com a Shaw Communications quando representantes do Catalyst distribuíram uma declaração de De Alba acompanhada de uma proposta concorrente que abalou o negócio.
Horas depois, tentaram obter tempo para a oferta ser analisada. No fim, o Catalyst não levou o negócio.
A madrugada, porém, combina com uma carreira feita de procurar o instante em que a fragilidade vira oportunidade. A GDA Luma explica seu método de maneira direta em seu site.
Sua “White Knight Strategy” (estratégia do cavaleiro branco) procura empresas com bons negócios e dívida demais. Compra essa dívida com desconto e, numa reestruturação, a posição de credor pode virar influência, participação ou até controle.
Depois vêm renegociação, mudanças de gestão e a tentativa de recuperar valor. A imagem do cavaleiro branco é escolhida pela própria GDA.
Numa tradução menos romântica, a dívida que faz muita gente querer sair é a porta que De Alba escolhe para entrar. O Botafogo é uma demonstração quase literal.
A GDA apareceu primeiro como credora, com US$ 25 milhões para compromissos urgentes ainda na gestão de John Textor. Vieram outros aportes e, em junho, um acordo vinculante de investimentos.
Em outubro, a gestora saiu da lista de credores da recuperação judicial, enquanto a diluição da Eagle abriu caminho para a transferência do controle pelo clube social. A operação ficou mais simples, mas ainda depende do avanço da recuperação judicial.
O percurso é familiar: da dívida ao poder. Entenda: Eagle desiste de ação, e clube social assume controle de 99% da SAF do Botafogo
O Cirque du Soleil é, sim, o caso mais famoso do método. Na pandemia, quando os espetáculos pararam e a companhia perdeu receita, credores fizeram a oferta vencedora na reorganização, colocaram capital novo e ficaram com praticamente todo o controle.
De Alba tornou-se um dos copresidentes do conselho. O episódio que o apresentou ao público brasileiro como alguém que "salvou" o Cirque começou, na prática, do lado da dívida.
Anos antes, a Satmex, operadora mexicana de satélites de telecomunicação, havia mostrado outro arranjo. Na reorganização, a Holdsat, ligada a De Alba, ficou com 5,1% dos direitos econômicos de uma classe de ações e 51% dos votos.
A empresa seria vendida anos depois. O caso expõe uma característica recorrente de sua carreira: nem sempre a participação econômica revela o poder que ela carrega.
Gabriel de Alba, dono e CEO da GDA Luma, está perto de se tornar o novo dono da SAF do Botafogo Reprodução
Tolek Strukoff trabalha com De Alba há mais de dez anos na Gateway, que informa operar 31 propriedades e empregar cerca de 7 mil pessoas no ramo de cassinos no Canadá. Ao GLOBO, diz que o investidor mergulha nas decisões estratégicas e transações complexas, mas abre espaço para a equipe executiva tocar a operação.
Acompanhamento diário no Botafogo — Gabriel é capaz de encontrar um equilíbrio eficaz entre o envolvimento profundo nos assuntos em que sua experiência tem maior impacto e o espaço para que a gestão opere a companhia — afirmou.
Strukoff cita a pandemia e um ataque cibernético para descrevê-lo, sob pressão, como “estável e tranquilizador”. É um depoimento favorável de quem trabalha com ele há uma década, não o olhar de um observador neutro.
No Botafogo, essa forma de trabalhar ganhou versão própria. Pessoas do clube dizem que a GDA mantém sete profissionais no acompanhamento diário das áreas financeira e jurídica da SAF.
De Alba recebe informações, participa das decisões de maior peso e dá aval aos movimentos mais relevantes, mas não administra o futebol minuto a minuto. Nesta transição, o comando esportivo ficou mais concentrado no clube social e nos executivos locais do que na era Textor.
Na primeira passagem pelo Rio, De Alba não ficou em hotel. Hospedou-se na casa de João Paulo Magalhães Lins, presidente do clube social, no bairro de Botafogo.
Quem conviveu com ele durante a visita descreve um homem muito ligado à família, disciplinado com exercícios e avesso a álcool. A agenda de quatro dias, carregada de reuniões, visitas e advogados, deixou pouco espaço para a vida de turista.
Gabriel de Alba, futuro dono da SAF do Botafogo, com o presidente João Paulo Magalhães Lins O GLOBO
João Paulo Magalhães, presidente do Botafogo, e Gabriel de Alba, dono da GDA, posaram juntos ontem no Rio Redes sociais
O interesse pessoal que mais se encaixa no investimento é o entretenimento. De Alba fala em ampliar o uso do Nilton Santos para shows e eventos e vê o estádio para além do futebol.
Em setembro, integrantes do Cirque du Soleil chegaram a conversar com a Botafogo Samba Clube sobre uma possível participação no carnaval de 2027, sem investimento financeiro da GDA na escola. O episódio é pequeno diante do tamanho das dívidas da SAF, mas revela uma tese de negócio: fazer estádio, marca e torcida funcionarem também fora dos dias de jogo.
A carreira também deixou registros menos favoráveis. Na ação em que o Catalyst acusou o ex-funcionário Brandon Moyse e a West Face de uso indevido de informações sobre a Wind Mobile, o juiz rejeitou a ação e criticou diretamente o depoimento de De Alba: disse que ele exagerou fatos, resistiu a admitir pontos que deveria conceder e discutiu em vez de responder.
Mais recentemente, o administrador da massa falida da colombiana Credivalores processou a GDA Luma e outros investidores, em Nova York, para recuperar transferências anteriores à liquidação. Há pedidos por transferências fraudulentas e preferenciais; as alegações ainda não foram julgadas, e De Alba não é réu pessoalmente.
Os episódios não autorizam um diagnóstico de caráter, mas mostram que a trajetória também acumula disputas e questionamentos. Para o torcedor, toda essa engenharia desemboca numa pergunta mais curta: ele tem dinheiro? A GDA Luma declarou US$ 592,4 milhões em ativos regulatórios sob gestão em março de 2026.
O GDA Luma Special Opportunities Fund informou à SEC, órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos, em janeiro de 2024, ter captado US$ 236,25 milhões de oito investidores. São valores relevantes, mas não são patrimônio pessoal de Gabriel de Alba.
A reportagem não encontrou estimativa pública confiável de sua fortuna particular. A pergunta útil é quanto está comprometido com a SAF, de quem vem esse capital e até onde vai o fôlego se a reconstrução custar mais ou demorar mais do que o previsto.
A questão ganha peso enquanto a venda avança e o time sofre. Tite chegou em setembro e, depois de seis jogos, soma uma vitória, um empate e quatro derrotas; a cinco rodadas do fim, o risco de queda voltou ao vocabulário alvinegro.
Nada indica, até aqui, mudança de rumo da GDA por causa da tabela, e De Alba segue envolvido nas decisões mesmo quando está fora do país. Para um homem acostumado a situações difíceis, o próximo passo continua sendo o controle — e a situação piorou antes de ele chegar lá.
Técnico Tite tem uma vitória em seis jogos comandando o Botafogo Vitor Silva / Botafogo
O rival que espera ver fracassar mais uma promessa de investimento no Botafogo não encontra nesta história a prova de que De Alba é apenas outro aventureiro. O botafoguense à procura de uma certidão de tranquilidade e confiança tampouco a recebe.
Há carreira e dinheiro já desembolsado, mas também capital de terceiros, operações complexas, disputas judiciais e perguntas abertas sobre o compromisso futuro com o clube. Conhecer Gabriel de Alba não precisa significar acreditar nele.
Depois de uma SAF que se confundiu com a personalidade de seu dono, a segurança do Botafogo depende menos de descobrir se o sucessor é um bilionário simpático do que de contratos, capital comprometido, governança e transparência. De Alba construiu a carreira perguntando onde estavam as garantias e quem realmente tinha o poder.
O Botafogo tem bons motivos para aprender com seu provável novo dono a fazer a mesma pergunta sobre ele. (Colaborou João Pedro Fragoso)
O Globo