Uma carreira profissional no futebol é de duração incerta, e o jogador precisa fazer valer ao máximo o tempo que tem em campo para pavimentar o restante da vida. Que o diga Rafinha Alcântara, campeão olímpico na Rio-2016 e com passagens por gigantes como Barcelona e Paris Saint-Germain, que se aposentou com apenas 32 anos, no último mês de dezembro, por conta de problemas nos joelhos.
Com um patrimônio que ele considera satisfatório, sua missão agora é se dedicar a acompanhar outros companheiros de profissão para que segurem bem as pontas nos melhores anos. Entrevista: Ex-Botafogo, Flu, Palmeiras e Cruzeiro se destaca como 'hater de si mesmo' e faz sucesso com torcedores nas redes
'Recuperar os jogadores naquele campo?' Abel Ferreira rebate Leonardo Jardim após fala sobre sintético Filho do tetracampeão mundial Mazinho e irmão de Thiago Alcântara, Rafinha, que jogou por último no Al-Arabi (Catar), abriu a consultoria patrimonial RFJ Capital ao lado dos sócios Felipe Rezende e João Rosa.
Ao GLOBO, garante que não faltou nada nos campos, apesar da vontade de ter jogado no Brasil, e que é preciso cuidar da educação financeira de jovens atletas, como o pai fez com ele desde os 17 anos. — Tomar decisões sabendo que o futebol dura dez ou 15 anos, mas que vamos viver, se Deus quiser, 90, 100 ou 110 —destaca o ex-jogador.
Como escolheu a direção do pós-carreira? Sempre tive curiosidade pelo empreendedorismo e essa visão.
Eu não era muito de assistir a futebol. Devido às minhas lesões, sempre fui me preocupando mais com o pós-carreira.
Já faz quase dez anos que trabalho com meus sócios. Quando vi que minha carreira estava acabando ao fim, tive ainda mais vontade de cuidar do patrimônio.
Preservar como eles sempre tiveram esse cuidado comigo, e achei muito importante passar isso para outros atletas. O processo de decidir aposentadoria te afetou?
Não é fácil, porque o que você fez toda a sua vida foi jogar futebol. Muitas vezes, as pessoas estranham quando falo que tive sorte com as minhas lesões, porque me fizeram a pessoa que sou agora.
Eu parei por causa de uma lesão séria no joelho, um problema de cartilagem que me impedia de estar 100%. Mas as lesões me fizeram ver que a vida não é só futebol.
Também tive a sorte de que, quando decidi parar de jogar, minha esposa (Berta) ficou grávida (o filho Leonardo nasceu em abril de 2025). Isso fez o pensamento tomar outra direção.
Mas quando me machuquei, como acontece em todo processo de lesão, pensei que conseguiria recuperar. Depois de um ano, vi que meu joelho não voltaria a ser o mesmo e que meu rendimento também não seria como antes.
Foi uma decisão fácil e difícil ao mesmo tempo. Mas com a tranquilidade de ter realizado todos os meus sonhos e de estar bem financeiramente.
Sobra mais tempo para o Rafinha pai e marido? Não tenho a menor dúvida.
Vivi isso de perto com meu irmão (Thiago), que tem três filhos, e teve todos eles enquanto estava jogando. O futebol não é sacrifício, mas faz com que você não pare de viajar e passe bastante tempo longe de casa.
Eu pude passar 100% do tempo com meu filho nessa primeira fase da vida dele. Isso me faz muito feliz.
Ao mesmo tempo, conciliar a vida familiar com esse mundo empresarial é um novo começo para mim. Tudo é adaptação e ter o jeito.
Rafinha Alcântara faturou múltiplos títulos em uma década no Barcelona Arquivo pessoal
Seu pai e irmão ajudam? Os conselhos dele (Mazinho) são sempre maravilhosos.
Um diferencial que me fez tomar esse caminho em que estou agora é que, quando eu tinha 17 anos, ele teve a inteligência de contratar um profissional e falar: “Agora, você vai ensinar ao meu filho o entendimento da gestão patrimonial”. Tenho que agradecer a ele por ter tido esse cuidado, o que me fez hoje querer passar isso para outros atletas.
Meu irmão, como ele, sempre foi muito mais do futebol. Começou agora um curso de treinador e provavelmente vai tomar esse caminho.
Estamos todos bem, entre Barcelona e Brasil. A família unida e feliz é o importante.
Vocês seguiram caminhos diferentes. Como o jogador define isso?
Acho que é algo natural. Como falei, passamos toda a vida jogando futebol.
O que conhecemos na realidade é o futebol. Então, é normal que um jogador, quando acabe a carreira, queira estar dentro desse mundo.
Seja como treinador, diretor esportivo, empresário de jogadores... Temos conhecimento dessa área.
No meu caso, em todas as minhas lesões, tive preocupações com diferentes investimentos, completamente fora do esporte. Essa parte empresarial sempre esteve mais ligada a mim.
Por isso, tomei esse caminho, por conta de curiosidade, de aprendizado e gosto mesmo. Rafinha Alcântara (à direita) campeão olímpico com o Brasil na Rio-2016
Marcelo Theobald / Extra / Agência O Globo Quem te aconselha agora?
Tanto o João quanto o Felipe estão ao meu lado há mais de oito anos. Eles fizeram toda a diferença quando tomei a decisão de parar de jogar futebol.
Sempre tiveram a preocupação com a preservação do patrimônio. O cuidado de olhar para o meu dinheiro como se fosse deles.
Tomar decisões sabendo que o futebol dura dez ou 15 anos, mas que vamos viver, se Deus quiser, 90, 100 ou 110. Fizeram com que eu entendesse isso muito cedo.
Com esse hábito e o conhecimento de saber o que você tem, seus investimentos, e diversificar o patrimônio, fez com que eu chegasse aos 32 anos tomando essa decisão de estar tranquilo por parar de jogar futebol. Sem a necessidade de continuar jogando em 60% só porque precisava do capital.
Que tipos de atletas procuram a RFJ? A gente vem de um esporte coletivo e precisamos entender a importância de contar com grandes profissionais, que tenham transparência para ensinar o que o atleta está menos ciente.
Não vou pedir que ele seja especialista, mas que tenha consciência das decisões que toma com o próprio dinheiro, e que a gente possa explicar o porquê delas. Rafinha Alcântara em sua versão empresário após se aposentar
Divulgação/RFJ Capital Vi muitos jogadores jovens ganhando muito dinheiro, mas, por querer depois manter o mesmo nível de vida que tinha quando jogava, não conseguiu preservar seu patrimônio.
Não é fácil para um jogador jovem, de alta performance, com tanta liquidez, querer tomar decisões sem ter esse conhecimento. E na carreira, acha que faltou jogar no Brasil? Clubes como Flamengo e Santos te quiseram...
Minha ideia era ficar um ano no Catar. Eu já tinha assinado por dois, mas queria ficar um e depois ir para o Brasil para encerrar a carreira.
Esse era um dos meus grandes sonhos, que não consegui realizar por causa da lesão. Mas a vida é assim.
Não tenho nada de que me arrepender. Estou super feliz com a carreira que tive.
Houve várias possibilidades que acabaram não acontecendo. Mas fico feliz pelo interesse que sempre tiveram em mim.
O que te move agora? Onde se vê no futuro? Tem uma coisa que me motivou muito nessa decisão e no trabalho da RFJ: formação dos atletas muito jovens.
Não só os que já são considerados grandes, mas também esses moleques que estão subindo agora das categorias de base. É importante que eles tenham esse conhecimento, essa preocupação financeira.
Para não entrar nessa triste estatística de esportistas que, quando acabam a carreira, o patrimônio não dura. Essa parte educacional é uma motivação muito grande para mim.
O Globo