Seca em SP: volume dos reservatórios e ritmo de queda são piores que antes da crise de 2014

 

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Mesmo após as chuvas intensas registradas no último fim de semana, os reservatórios de água que abastecem a Grande São Paulo seguem estacionados em 26% da capacidade. A crise hídrica de 2014, que por anos assombrou a memória dos paulistanos, deixou de ser apenas uma lembrança para virar um alerta sobre o cenário atual. Segundo dados da Sabesp, o ritmo de esvaziamento das represas está mais acelerado hoje do que no mesmo período daquele ano, impulsionado por uma estiagem mais rígida e temperaturas recordes.

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Há pouco mais de uma década, a gestão de Geraldo Alckmin (PSB) adotou medidas que pegavam o consumidor pelo bolso, como descontos para quem reduzisse o uso de água ou multa para quem consumisse além da conta. O remédio não deve ser repetido pela administração do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que considera que as ações de contingência já adotadas têm sido suficientes. O governo também vê a presente situação, apesar dos números, melhor do que a da crise de 12 anos atrás.

Enquanto em janeiro de 2014, período pré-crise, o Sistema Integrado ainda sustentava 40,7% de sua capacidade, hoje a Grande São Paulo encara o verão com apenas 26,9% de água armazenada, quase 14 pontos percentuais a menos do que no limiar da última grande crise. A situação é agravada pelo fato de que o “pico” de cheia deste ciclo ocorreu precocemente, ainda em fevereiro de 2025 (com 62,1%), expondo os reservatórios a um período de sangria mais longo e intenso do que o observado em 2013, quando o ápice deu-se em abril.

Para Eduardo Caetano, coordenador do Instituto Água e Saneamento (IAS), o cenário atual pode, sim, ser comparado, sob certos aspectos, com a crise de 2014. Segundo ele, trata-se de uma situação reincidente, em que o baixo volume de chuvas encontrou-se novamente com uma gestão de alta demanda, criando o cenário perfeito para o esvaziamento mais rápido dos reservatórios:

— O que eu vejo de semelhança entre os dois cenários é que, tanto em 2014 como agora, temos um período de chuvas abaixo da média e uma capacidade de recarga dos mananciais muito abaixo das médias históricas. Além disso, os dois períodos são marcados por altos volumes de retirada de água desses reservatórios.

O especialista chama atenção para um dado que ajuda a explicar a aceleração da queda dos reservatórios: a retirada de água do sistema bateu recordes históricos no ano passado. Segundo Caetano, em 2025, a companhia captou mais água do que no período pré-crise de uma década atrás, ultrapassando a marca de 70 metros cúbicos por segundo. Essa “alta retirada” em um cenário de “baixíssima recarga” amplia a preocupação.

Trajetória da seca

Editoria de Arte

Interligação de represas

Já Natália Resende, secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do governo paulista, cita obras de interligação entre as represas e ações que ampliaram a captação de água, aumentando a resiliência do sistema, além da adoção de um plano de segurança hídrica com acompanhamento diário, como motivos para considerar o quadro atual menos crítico. A Sabesp também menciona investimentos de R$ 5 bilhões em infraestrutura até 2027 para ampliar a oferta e R$ 9,7 bilhões até 2029 para diminuir as perdas totais no caminho da água até a casa dos clientes, índice que está atualmente em 29,4%.

Resende afirma que o volume atual do sistema integrado está dentro da curva de contingência desenhada pelo governo. Os dados indicavam que, entre setembro de 2025 e janeiro deste ano, o volume de água cairia de 36% para 26%, e uma recuperação é projetada no período de chuvas, de janeiro a abril.

— Se for seguir a curva de contingência, você vai chegar no dia 30 de abril com 47,64%. Claro, isso vai depender muito das chuvas, vai depender do consumo. Vamos intensificar a conscientização, o consumo racional, porque isso nos ajuda muito também a andar dentro da linha da prevenção — pontua a secretária.

Até o momento, a ação que mais impacta a população é a redução na pressão do fornecimento de água por 10 horas diárias, no período noturno. Caso a situação se agrave, isso pode ser paulatinamente ampliado, até chegar ao uso das bombas flutuantes para captação do volume morto das represas, a água que se acumula abaixo do nível das comportas, e medidas mais drásticas, como o rodízio de abastecimento.

— Só nos últimos sete dias economizamos 5,7 bilhões (de litros de água), o que daria para (abastecer) um milhão de pessoas durante um mês. Então, o que a gente tem visto? Que a gente tem alcançado, sim, uma economia com essas medidas que a gente já traçou — diz Resende.

‘Medidas mais drásticas’

Na última década, foram entregues a interligação Jaguari-Atibainha (trazendo água da Bacia do Paraíba do Sul) e o novo Sistema São Lourenço. Caetano, do IAS, reconhece que o sistema hoje é fisicamente mais robusto e resiliente do que era em 2013, graças a essas transferências e otimizações de rede. No entanto, ele é categórico ao afirmar que a infraestrutura, por si só, não está sendo suficiente.

O especialista critica, por exemplo, a ausência de mecanismos de controle de consumo que avalia como eficazes no passado, como a tarifa especial que sobretaxava o alto consumo e premiava a economia, utilizada em 2014. Para o coordenador do Instituto Água e Saneamento, as campanhas e planos de contingência atuais parecem insuficientes.

— Essas medidas mais drásticas que mexem com o bolso e a tarifa, até o momento, não foram mencionadas. E acho difícil elas acontecerem no cenário que a gente tem hoje com o serviço privatizado — lamenta.