Se não dá para competir com a Copa... Escolas transformam febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos

Se não dá para competir com a Copa... Escolas transformam febre das figurinhas em oportunidade para ensinar valores aos alunos

 

Fonte: Bandeira



Toda Copa do Mundo é assim: nos colégios, rodas de alunos ocupam corredores, pátios e áreas comuns para trocar figurinhas de jogadores e completar o tradicional álbum oficial do evento. Este ano, muitas escolas decidiram virar o jogo — ou participar dele. Em vez de apenas criar regras para as trocas, estão fazendo delas uma oportunidade pedagógica.

Além da rolha zero: Cortesias dos restaurantes incluem espumante, entradas e até marshmallow para assar na fogueira

Cultura do samba: Prefeitura rebatiza com nome de Noca da Portela espaço cultural na Zona Norte

— A prática é uma oportunidade rica de desenvolvimento social, emocional e cognitivo. Muito além do brincar, colecionar figurinhas envolve interação, negociação, espera, tolerância à frustração, planejamento e pertencimento em grupo — diz Aline Couto, psicopedagoga e mestre em Educação Especial pela University of Central Florida (EUA).

Na Eleva, a troca de figurinhas passou a fazer parte de estratégia de desenvolvimento socioemocional. A instituição organizou horários específicos, mediação pedagógica e até participação de familiares para acompanhar as negociações entre os alunos.

A proposta surgiu depois da percepção, na última Copa, da capacidade de mobilização provocada pelos álbuns. De acordo com Selena Acampora, psicóloga da unidade Barra, as figurinhas acabaram criando uma espécie de laboratório espontâneo de convivência:

— Escola é lugar de aprender. E aprender não é só conteúdo curricular. Aprendemos habilidades sociais, a negociar, a perder, a esperar, a conviver. Vimos uma oportunidade de trabalhar tudo isso.

Álbum da comunidade escolar do Colégio pH fica fixado em uma das paredes do prédio

Divulgação/ PH

A escola decidiu estruturar um sistema de troca assistida para os mais novos. Cada turma do fundamental I ganhou um dia específico da semana para realizar as trocas antes do início das aulas. São 15 minutos durante os quais os responsáveis legais podem entrar no prédio para acompanhar as crianças nas negociações.

A brincadeira também entrou em atividades pedagógicas de diferentes disciplinas. Em matemática, estudantes trabalham gráficos, escalas e estratégias utilizando figurinhas, jogadores e seleções como base. Já nas aulas de idiomas, apresentações de atletas e curiosidades do torneio se tornaram parte da rotina.

No ensino fundamental II, os alunos têm mais autonomia, mas as trocas devem ser feitas nos intervalos. Vendas e apostas que tenham figurinhas como prêmio são proibidas.

Segundo Selena, o movimento também gerou uma mudança de comportamento nos jovens.

— Começamos a ver os alunos mais reunidos, conversando e circulando mais. O barulho da escola é muito bonito. É vida acontecendo — compartilha Selena.

Alunos reunidos para o começo de uma atividade pedagógica inspirada nas figurinhas na Eleva Barra

Divulgação/ Escola Eleva

Rafael Montanari, aluno do ensino fundamental, concorda. Diz que o irmão mais novo queria entrar na brincadeira e ele acabou comprando um álbum para a dupla colecionar em conjunto, fortalecendo o laço em casa e no colégio.

— Ter uma atividade para fazer junto com meu irmão acaba aproximando ainda mais a gente. E as regras colocadas pelo colégio me fizeram interagir com mais estudantes. Está sendo muito legal — afirma.

Na Escola SAP, também na Barra, o movimento tomou conta dos intervalos. Crianças e adolescentes de diferentes séries passaram a dividir espaços comuns em busca das figurinhas que faltam. Para a diretora-geral Luciana Soares, as trocas estimulam habilidades importantes de convivência.

— Eles exercitam comunicação, poder de argumentação, autonomia, memória e capacidade de negociação. Também aprendem a lidar com frustrações e a respeitar o espaço do outro — explica.

No Cubo Global School, a estratégia foi transformar o álbum em um grande projeto coletivo. A escola criou um mural inspirado no álbum oficial da Copa, instalado em uma área interna. Ao longo das semanas, estudantes, professores, funcionários e familiares contribuem com figurinhas para completar o painel.

'Adaptação implica algum nível de ruptura': Escolas criam protocolos de boas-vindas para aliviar ansiedade de alunos vindos de outras instituições

Segundo o diretor Rafael Silva, o objetivo é transformar uma experiência normalmente individual em construção compartilhada:

— O mural vai sendo montado aos poucos, com a participação da comunidade escolar. Isso aproxima alunos de diferentes séries e cria novas possibilidades de convivência.

Na unidade Freguesia do Colégio Qi, a proposta ganhou caráter ainda mais personalizado. A escola criou um álbum próprio inspirado nos da Copa, substituindo os jogadores profissionais pelos próprios integrantes da comunidade escolar.

As figurinhas são fotos de alunos, professores e funcionários. A intenção é fazer com que os estudantes se reconheçam como parte da “seleção” do colégio.

— Isso fortalece pertencimento e participação coletiva — diz Lucas Benjamin, diretor da unidade.

Alunos do Colégio QI Freguesia interagindo diante do mural com as figurinhas da comunidade escolar

Divulgação QI Freguesia

Além da brincadeira, a instituição adotou regras de convivência entre os colecionadores: pedir antes de pegar a figurinha do outro, respeitar o colega, fazer a troca de forma transparente e não excluir ninguém.

A febre das figurinhas também levou o Colégio pH a estipular regras específicas. Houve debates com os alunos para definir limites, horários e formas adequadas de agir durante as trocas.

O diretor pedagógico Filipe Couto conta que o objetivo não é controlar a brincadeira, mas usá-la para discutir ética e responsabilidade. Por isso, a escola não permite trocas entre alunos de séries muito distantes, como adolescentes do ensino médio negociando com crianças do ensino fundamental.

A preocupação é evitar situações de pressão ou desequilíbrio entre os alunos.

— Eles têm maturidades diferentes e dão valores diferentes às figurinhas. A escola precisa proteger as relações entre os estudantes — afirma o diretor.

Essas regras foram construídas nas aulas de convivência. Nelas, os alunos discutiram casos hipotéticos de negociação e situações cotidianas envolvendo arrependimentos, trocas injustas e conflitos. O colégio adotou ainda o lema “olhou, pensou, confirmou e trocou”. Além disso, o colégio apostou em um álbum da comunidade escolar.

A preocupação com apostas também aparece. Embora o tradicional jogo “bafo” continue presente em muitas rodas de alunos, as escolas passaram a estabelecer limites para evitar que a brincadeira se transforme em competição excessiva.

Na Eleva, o jogo é permitido desde que não envolva perda definitiva de figurinhas. No pH, apostas usando cromos são proibidas. Apesar das diferenças entre os projetos, as escolas relatam efeitos semelhantes: aumento das interações presenciais, aproximação entre estudantes de diferentes turmas e sentimento de pertencimento fortalecido.

No Colégio Avanço, com unidades na Barra e na Freguesia, a abordagem é mais tradicional, mas não menos divertida. As trocas só são permitidas nos intervalos e nos horários de saída, para evitar impacto no andamento das aulas. Segundo a instituição, até professores acabaram aderindo às coleções e participando das interações com os estudantes.

*Esta reportagem foi publicada no especial Educação do GLOBO-Barra de 24/05

Initial plugin text