Se Jesus estivesse aqui
Jesus é pop. Católicos, judeus, evangélicos, espíritas, ateus, agnósticos, gente de direita, de esquerda, do centro, gente sem religião… Todo mundo, de alguma maneira, fala dele. Nem que seja quando passam por uma turbulência, quando um filho fica doente ou apenas como uma interjeição. “Ai, Jesus”. “Jesus amado”. “Em nome de Jesus”. “Meu Jesus”.
Ouvimos isso o tempo todo: no altar, na esquina e, mais do que deveria, no Congresso Nacional. O nome de Jesus está na boca de quem pede bênção, de quem pede voto, de quem quer se redimir. Aliás, Jesus é a verdadeira rehab: basta alguém ser cancelado pra aparecer falando dele para tentar ser perdoado. Jesus virou slogan, legenda de post e, em alguns casos, CNPJ ou menção em CPI.
E isso porque Jesus não tem lado, nem partido. Até quem não é cristão respeita as atitudes, as falas e a figura mítica. Jesus é o Tony Ramos da religião.
E, neste domingo de Páscoa, eu fico pensando: e se ele estivesse aqui? Além de inventar mil desculpas para não dar entrevista em podcast, o que Jesus acharia da via-crúcis que virou este mundo? Será que ele queria esse tanto de gente falando o nome dele? Ou pior: em nome dele?
Porque uma coisa é ressuscitar no terceiro dia. Outra coisa é ter que ressuscitar toda semana para checar o noticiário e dizer: “Gente, não foi nada disso que eu quis dizer”. O que será que Jesus diria para aqueles que usam seu nome no lugar de responder pelos próprios atos? Daqueles que levantam uma Bíblia quando a sociedade quer uma explicação? Daqueles que usam ele como escudo para esconder irregularidades ou até crimes? Daqueles que transformam fé em justificativa pra guerra? Daqueles que tiram de quem não tem para enriquecer em nome dele?
Eu não sei o Jesus de vocês. Mas o Jesus que eu conheço não me parece muito interessado em palanque. O Jesus que eu conheço não juntava gente no grito, mas na escuta, na palavra e naquele gesto cada vez mais raro hoje em dia: de olhar para o outro como se o outro fosse gente. Não andava armado, só andava. Nem postava o pace no aplicativo fitness. Não multiplicava para parecer poderoso, mas porque tinha gente precisando. Não fazia milagre para ganhar engajamento, não monetizava parábola nem lançava curso para melhorar a performance espiritual do próximo.
Jesus não teria Instagram, mas engajaria nas pequenas rodas enquanto suas frases iriam aparecer em recortes no TikTok desbancando Clarice Lispector e Denzel Washington para sempre.
Eu gosto especialmente de pensar que Jesus era um pouco festeiro. Afinal de contas, ele viu uma festa sem pão e vinho e pensou: não, essa festa não vai acabar assim. Acho bonito isso. Num mundo em que tanta gente usa a religião para controlar o prazer dos outros, eu tenho simpatia imediata por alguém que não deixa uma celebração morrer antes da hora. Milagre, às vezes, pode ser só isso: impedir que a vida fique mais amarga do que já está.
Jesus multiplicava, reunia, não julgava. Aliás, a amizade de Jesus com Maria Madalena foi um dos primeiros atos feministas da Humanidade. Jesus respeitava a liberdade de uma mulher mesmo antes de a palavra misoginia virar moda. E pensar que depois muitas de nós fomos queimadas nas fogueiras por histeria coletiva, misoginia, heresia e em nome dele.
Jesus seria amigo dos evangélicos, católicos, tomaria um vinho com os espíritas, mergulharia no mar com o pessoal do candomblé e meditaria com os budistas. Jesus seria aquele amigo que não entra em conflitos porque acha que não vale a pena.
Pensando bem, eu acho que sei o que ele diria se estivesse aqui. Diante das guerras, da ganância, da crueldade, dos oportunistas e dessa quantidade desenfreada de chocolate e pistache que a gente consome para celebrar alguém que jejuou no deserto, ele diria: “Perdoai, Pai, eles não sabem o que fazem”.
E talvez fosse crucificado outra vez.
