Lula (PT) venceu a cidade de São Paulo no segundo turno com 55,5% dos votos válidos contra 44,5% de Flávio Bolsonaro (PL) — uma vantagem de cerca de 770 mil votos no maior colégio eleitoral do país. A capital já havia sido de Lula no primeiro turno, mas por margem bem menor: 46,58% a 42,13%, diferença de 292 mil votos.
A cidade tem cerca de 11,4 milhões de habitantes e 9,1 milhões de eleitores — sozinha, é o maior colégio eleitoral do Brasil, à frente do estado do Rio inteiro. Governada pelo MDB de Ricardo Nunes e palco da reeleição estadual de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a capital deu a Lula a maior votação absoluta de sua campanha e foi decisiva para o resultado nacional.
O primeiro turno já indicava a virada, mas com um detalhe importante: Lula perdeu cerca de 200 mil eleitores na capital em relação a 2022, enquanto Flávio superou o desempenho do pai no mesmo recorte em aproximadamente 140 mil votos. O segundo turno reverteu essa erosão e ampliou a vantagem petista em mais de 9 pontos percentuais.
De 39,62% a 55,5%: a capital virou antes do país Em 2018, São Paulo deu a Jair Bolsonaro 60,38% dos votos, contra 39,62% de Fernando Haddad — que havia sido prefeito da cidade.
Quatro anos depois, o placar se inverteu: Lula venceu a capital no segundo turno com 53,54% a 46,46%, somando mais de 3,6 milhões de votos, cerca de 1,2 milhão a mais do que Haddad em 2018. Bolsonaro perdeu cerca de 500 mil votos na comparação entre as duas eleições.
A série histórica mostra que a capital paulista antecipou o movimento nacional. Em 2022, Lula já havia ganhado a cidade enquanto perdia o estado por 55,26% a 44,74%.
Em 2026, repetiu o feito com margem maior, mesmo com o estado consolidado pelo PL: Flávio teve 51,93% no primeiro turno estadual contra 38,20% de Lula. A curiosidade é que a cidade elegeu prefeitos de campos opostos em sequência — Haddad, do PT, em 2012, e João Doria e Bruno Covas, do PSDB, depois — sem nunca deixar de ser o termômetro do país.
Paraisópolis, na zona sul: a zona onde Lula teve 57,6% no primeiro turno. Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Do outro lado, a política estadual seguiu outro rumo. Tarcísio de Freitas foi reeleito governador já no primeiro turno, com 62,8% dos válidos contra 36,22% de Haddad — repetindo o placar de 2022, quando venceu o petista no estado.
Ricardo Nunes, prefeito da capital pelo MDB, atuou ao lado do governador na campanha de Flávio e organizou um ato na Avenida Paulista em 18 de outubro. Nunes reconheceu a vitória de Lula; Tarcísio não se manifestou.
As 57 zonas: a periferia decidiu, o centro confirmou No primeiro turno, Lula venceu 35 das 57 zonas eleitorais da capital; no segundo, ganhou 43.
As maiores margens vieram das periferias: Bela Vista, onde teve 60,58% na primeira rodada, Grajaú (57,72%) e Piraporinha, que abrange Paraisópolis (57,6%). No segundo turno, essas três zonas registraram vitórias acima de 32 pontos de diferença.
Flávio manteve as 22 zonas do primeiro turno e perdeu o restante. Seus melhores resultados ficaram nos bairros de classe média e alta: Tatuapé, com 53,51% no primeiro turno, Mooca (52,60%) e Indianópolis, que teve o maior volume absoluto de votos do candidato, com 70.056.
Também venceu em Moema, Itaim Bibi, Tucuruvi, Pirituba, Penha, Vila Matilde e Sapopemba — o cinturão que resistiu à onda petista. O dado que mais chama atenção é a distribuição do voto por renda.
Lula venceu em bairros de classe média como Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e Vila Madalena, além de dominar a periferia sul e leste. Flávio ficou com a Zona Leste mais tradicional e com os bairros de renda alta do centro expandido.
É o oposto do mapa de 2018, quando Bolsonaro venceu em quase toda a cidade, inclusive na periferia. A virada teve um componente de mobilização.
No segundo turno, Lula cresceu sobretudo nas zonas onde o PT já era forte, mas com comparecimento maior: a periferia sul, a leste e o noroeste da cidade — onde ficam Grajaú, Piraporinha e Brasilândia — registraram filas e atos de rua nas duas semanas entre os turnos. Flávio concentrou a campanha no centro expandido e na Zona Leste tradicional, com apoio explícito do governador reeleito e do prefeito.
O segundo turno também teve uma polêmica de logística. No dia da votação, uma fiscalização encontrou cerca de 71% da frota de ônibus em circulação às 14h40, apesar de o TRE-SP ter determinado 100% da frota de dias úteis.
Nunes negou a falta de ônibus; partidos de esquerda e o pré-candidato Guilherme Boulos (PSOL) apresentaram reclamações e chegaram a pedir a prisão do prefeito. A disputa sobre o transporte público virou um dos últimos episódios da campanha na capital.
O centro de São Paulo: 9,1 milhões de eleitores, o maior colégio do país. Foto: Wikimedia Commons, CC0.
O resultado deixa a cidade num equilíbrio curioso. O mesmo eleitorado que deu 62,8% a Tarcísio no primeiro turno e mantém Ricardo Nunes na prefeitura entregou a Lula a maior votação da campanha, com 55,5%.
Não é contradição: é o voto dividido de uma capital que separa a disputa estadual da nacional — e que, em 2026, escolheu o presidente e o governador em campos opostos, como já havia feito em 2022, quando elegeu Tarcísio governador e, no mesmo dia, deu a vitória nacional a Lula. No fim, a conta é simples: em 2018, a capital deu 60,38% a Bolsonaro; em 2026, deu 55,5% a Lula.
É a maior virada de um colégio eleitoral desse tamanho no país — e a razão pela qual o candidato do PL precisou compensar no interior e no estado o que perdeu na cidade. A São Paulo que reelegeu Tarcísio no primeiro turno e deu a Lula a maior votação da campanha é a mesma que, quatro anos antes, havia dado a Bolsonaro a maior vantagem de sua trajetória na capital.
É o retrato de um eleitorado que não é de ninguém — e que decide eleição.
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