Lula (PT) venceu a cidade do Rio de Janeiro no segundo turno com 51,54% dos votos válidos — 1.898.391 a 1.785.198, uma vantagem de 113.193 votos sobre Flávio Bolsonaro (PL). A capital que havia dado ao bolsonarismo dois terços dos votos em 2018 voltou ao PT em 2026, mas o estado permaneceu com Flávio: 53,10% a 46,90%.
Era o único dos dois maiores colégios eleitorais do país onde Flávio liderava depois do primeiro turno. Ele tinha 47,88% contra 43,91% de Lula, uma frente de 137.837 votos.
Nas três semanas seguintes, Lula somou 373.874 votos na cidade e Flávio, 122.844 — o suficiente para inverter o placar por 3,08 pontos. O ato de campanha de Lula no Rio, em 24 de outubro, um dia antes da votação.
Foto: Lula Oficial/Flickr, CC BY-SA 4.0. A cidade tem cerca de 6,2 milhões de habitantes e 4.950.429 eleitores, o segundo maior colégio do país, atrás apenas de São Paulo.
Quase um em cada três eleitores cariocas tem 60 anos ou mais, e o maior bairro eleitoral é Campo Grande, com 298.924 votantes — justamente um dos redutos mais resistentes ao PT. De 81% em 2002 a 33% em 2018
Nenhuma capital brasileira mudou tanto de mão nas últimas duas décadas. Em 2002, Lula teve cerca de 81% dos votos na cidade contra José Serra.
Em 2014, Dilma Rousseff venceu ali com 50,7%. Quatro anos depois, o cenário virou do avesso: Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad por 66,35% a 33,65%, perdendo apenas uma das zonas eleitorais — a 16ª, de Laranjeiras e Cosme Velho, onde Haddad fez 51,13%.
O melhor resultado de Bolsonaro veio na 120ª zona, em Campo Grande, com 75,41%. Em 2022, o bolsonarismo ainda venceu a cidade: 52,66% a 47,34% sobre Lula.
Em 2026, a diferença desapareceu e o PT recuperou a capital por margem estreita. No estado, o movimento foi menor: Flávio venceu, mas a vantagem caiu de 1,27 milhão de votos no primeiro turno para 604 mil no segundo.
A política fluminense acompanhou a virada. Douglas Ruas (PL) foi eleito governador já no primeiro turno, com 50,88% dos válidos e 4.271.199 votos, após o TSE anular os 274.411 votos de Anthony Garotinho — aos 37 anos, será o governador mais jovem em cinco décadas.
Eduardo Paes (PSD), prefeito da capital por quatro mandatos, deixou o cargo para disputar o governo e perdeu: ficou em segundo, com 44,16%, e venceu em apenas 13 dos 92 municípios fluminenses, embora tenha tido 52,5% dos votos na capital. A virada por dentro: 49 zonas, todas em alta
O dado mais revelador de 2026 não é o total, e sim a distribuição: Lula cresceu em todas as 49 zonas eleitorais da cidade, inclusive naquelas em que perdeu. Passou de 16 para 21 zonas vencidas e virou duas tradicionalmente bolsonaristas na Zona Norte — Irajá e Brás de Pina.
Na Zona Oeste, Flávio manteve a hegemonia: venceu em Bangu, onde tinha cerca de 56% no primeiro turno, em Realengo, em Santa Cruz e em Campo Grande, que registrou 58,7% a 33,5% na primeira rodada. Mesmo ali, Lula avançou em relação ao turno anterior.
A única área da Zona Oeste que o presidente ganhou foi a 179ª zona, que reúne Anil, Cidade de Deus, Pechincha e Rio das Pedras: passou de 47,33% para 56,21%, contra 43,79% de Flávio — o maior ganho absoluto do candidato na cidade. O mapa por zona revela três Rios distintos.
O primeiro é o da Zona Sul e do Centro, onde o PT é hegemônico há décadas e Lula chegou a 70% em Laranjeiras. O segundo é o do subúrbio da Zona Norte, onde a eleição foi decidida: além de Irajá e Brás de Pina, o presidente venceu em Madureira, Cascadura, Vila da Penha, Penha e Olaria.
O terceiro é o da Zona Oeste, onde o bolsonarismo mantém raiz e onde a disputa, embora perdida, foi a mais disputada dos últimos anos. Na Zona Sul, Lula foi de 70% em Laranjeiras a vitórias confortáveis no Jardim Botânico, Botafogo e Copacabana.
As margens explicam o resultado: ele venceu as 21 zonas que conquistou por uma média de 18,30 pontos, enquanto Flávio ganhou as 28 restantes por 9,25 pontos. Com a abstenção caindo de 26,12% para 22,97% — 3.814.870 comparecimentos —, o comparecimento maior nas áreas mais pobres também jogou a favor do presidente.
O peso de cada território aparece nos números absolutos. Campo Grande, com seus 298.924 eleitores, é o maior colégio eleitoral da cidade e um dos mais bolsonaristas: mesmo com a virada geral, Flávio manteve ali uma vantagem de quase 25 pontos no primeiro turno.
Foi no subúrbio da Zona Norte e nos bairros populares da Zona Oeste que Lula compensou — crescendo em zonas onde, em 2018, havia perdido por margens superiores a 40 pontos. A campanha carioca teve dois movimentos distintos.
Flávio esteve na cidade cinco vezes durante a disputa, incluindo o último ato antes da votação. Lula fez seu penúltimo compromisso de campanha numa caminhada na orla de Copacabana, que reuniu uma multidão — o oposto do clima de 2018, quando a Zona Sul e boa parte do subúrbio se fecharam para o PT.
Realengo, na Zona Oeste: o bairro resistiu ao PT, mas Lula cresceu ali entre os turnos. Foto: André de Souza/Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.5.
Entre 2018 e 2026, o PT saiu de 33,65% para 51,54% na cidade — um salto de quase 18 pontos em duas eleições presidenciais, recuperando o patamar que tinha em 2014, quando Dilma venceu ali com 50,7%. O movimento não foi linear: o partido caiu ao fundo do poço em 2018, cresceu quatro pontos em 2022 e completou a virada em 2026, sustentado pela rejeição ao candidato do PL entre eleitores de renda média e alta da Zona Sul e pelo avanço nas periferias.
O resultado deixa uma conta em aberto. Lula recuperou a cidade, mas o estado segue com o PL no governo e com Flávio à frente na votação estadual: a capital é cada vez mais lulista, o interior fluminense cada vez menos.
É a mesma fratura que o país apresenta entre grandes centros urbanos e cidades médias — e o Rio, desta vez, ficou do lado que reelegeu o presidente.
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