Santuário milenar em Tóquio vira destino de fãs em busca de sorte para conseguir ingressos de shows; entenda
No coração do distrito de Nihonbashi, em Tóquio, um antigo santuário xintoísta passou a atrair um novo tipo de devoto: fãs de música em busca de ingressos para shows concorridos. No Santuário Fukutoku, visitantes fazem preces silenciosas na esperança de vencer loterias online disputadas e conquistar a chance de ver de perto seus artistas favoritos.
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Cercado por arranha-céus, executivos apressados e grandes lojas, Nihonbashi simboliza o ritmo intenso da capital japonesa. Mas, ao cruzar um torii vermelho-vivo — portal tradicional que marca a entrada de um espaço sagrado —, o ambiente muda radicalmente. Pequeno e sereno, o Santuário Fukutoku surge como um refúgio de tranquilidade em meio à agitação urbana.
Construído no século IX, o templo é dedicado a Inari, divindade ligada à prosperidade e às colheitas abundantes de arroz. Sua associação com a sorte ganhou força em 1590, quando o samurai Tokugawa Ieyasu visitou o local e se tornou seu patrono.
— Ele tinha tanta afinidade com o santuário que lhe concedeu alguns privilégios especiais, incluindo a realização de loterias — declarou Beth Carter, professora assistente de japonês na Case Western Reserve University, em Cleveland, Ohio, à rede BBC: — Ele realmente se tornou muito, muito popular.
Ao longo de cerca de 400 anos, as loterias promovidas no local ajudaram a financiar melhorias no santuário e distribuíram prêmios aos vencedores, consolidando sua reputação como espaço associado à fortuna material e à boa sorte.
Da tradição religiosa ao fenômeno pop
Essa ligação com a sorte ganhou um novo significado nos anos 1990, impulsionada pela explosão do J-Pop e pelo fortalecimento da cultura de superfandom no Japão. Grupos como Glay, Speed e Morning Musume mobilizaram multidões e alimentaram uma devoção intensa entre admiradores.
— A cultura dos idols japoneses se tornou absolutamente enorme — afirmou Krista Rogers, repórter do site de notícias SoraNews24, sediado em Tóquio: — Existe um termo chamado oshi. Seu oshi é o integrante da banda que você apoia, aquele que você idolatra.
No Japão, conquistar um ingresso para grandes apresentações costuma depender de sorte. Em vez de venda direta, muitos shows operam por meio de loterias online: os interessados se inscrevem, aguardam o sorteio e, apenas se forem selecionados, recebem o direito de comprar entradas limitadas.
— Temos um ditado: "Faça tudo o que puder e deixe seu destino por conta da sorte" — disse Cyber Bunny, guia e criador de conteúdo baseado em Tóquio: — Os japoneses farão basicamente qualquer coisa para aumentar suas chances, mesmo que em 1%. Eles acham que [ir a Fukutoku rezar por ingressos] é melhor do que não fazer isso. É melhor do que nada!
Com a retomada das turnês após a pandemia, o fluxo de visitantes ao santuário disparou.
— Você nem conseguia ver a área de oração porque havia gente demais. A rua precisou ser fechada porque havia pessoas demais aglomeradas — relatou Ulli Nambo, guia da Arigato Travel.
Antes das preces, os visitantes seguem um ritual tradicional: lavam mãos e boca no temizuya, fazem duas reverências profundas, batem palmas duas vezes para convocar os kami, realizam orações silenciosas e encerram com nova reverência em agradecimento. Muitos ainda compram pequenas placas de madeira chamadas ema, nas quais escrevem pedidos específicos — entre eles, conseguir ingressos para apresentações de artistas como ZeroBaseOne e BTS.
Para estudiosos e sacerdotes, a prática não se resume a um pedido material.
— Há vários estudiosos japoneses que nos incentivam a não olhar para esse tipo de interação como uma troca materialista, mas sim para o ritual religioso e para a preparação envolvida nele — afirmou Beth Carter: — Quando você recebe algo que deseja, você sente felicidade, alcança uma calma interior e uma paz de espírito interna que então o prepara para uma troca espiritual para a qual talvez antes não estivesse pronto.
Sacerdote de 22ª geração do santuário Hattori Tenjingu, em Osaka, Taishi Kato diz que as portas estão "abertas para todos".
— As pessoas podem procurar o santuário que quiserem e, se oferecerem uma oração sincera, então está tudo bem pedir aquilo que lhes traz alegria — explica.
Krista Rogers afirma ter experimentado isso pessoalmente. Depois de fracassar na primeira tentativa de conseguir ingresso para ver Ayumi Hamasaki, decidiu visitar o Santuário Fukutoku e fazer sua oração antes de tentar novamente.
— Eu rezei e, de alguma forma, consegui o ingresso.
