Salmões expostos à cocaína nadam mais rápido e percorrem distâncias maiores, aponta estudo

 

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Em 2022, Jack Brand, um toxicologista ambiental, carregou um grupo de peixes suecos com cocaína. Ele não estava tentando transformar em realidade uma pegadinha de Halloween; queria ver como salmões na natureza reagiam à poluição causada pela droga ilegal.

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Nos últimos anos, houve um aumento alarmante no número de cursos d’água contaminados por cocaína, levando cientistas a se perguntar como os peixes poderiam estar lidando com esses efeitos.

Ao que tudo indica, os peixes realmente ficam acelerados sob efeito da cocaína. Em um estudo publicado na última segunda-feira (20) na revista Current Biology, Brand e seus colegas mostram que salmões sob efeito de drogas nadam mais rápido e percorrem distâncias maiores do que os exemplares sóbrios. O estudo levanta novas questões sobre os impactos que os hábitos humanos de consumo de drogas podem estar causando em salmões e outros peixes de água doce.

Não foi fácil para Brand, pesquisador da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, conseguir autorização de órgãos locais para administrar a droga aos peixes.

— Foi um processo bastante tedioso e trabalhoso — disse Brand sobre toda a papelada.

Inúmeros estudos já analisaram como peixes e outros animais respondem à cocaína em laboratório. Mas nenhum havia investigado o impacto da droga no mundo real.

Imagem mostra jovens salmões do Atlântico

Jörgen Wiklund via The New York Times

Assim que receberam autorização, Brand e sua equipe seguiram para um criadouro de salmão do Atlântico no sul da Suécia e começaram a implantar em dezenas de peixes de 2 anos etiquetas de rastreamento e cápsulas de liberação lenta. Algumas cápsulas continham cocaína; outras tinham benzoilecgonina, composto gerado quando o organismo humano metaboliza a droga e usado como marcador em testes toxicológicos.

As cápsulas foram projetadas para fornecer diariamente aos peixes quantidades de cocaína ou benzoilecgonina equivalentes às que receberiam vivendo em águas poluídas.

Os peixes foram então soltos no lago Vättern, na Suécia, que é regularmente povoado com salmão do Atlântico para pesca recreativa. Durante oito semanas, os pesquisadores acompanharam os movimentos dos jovens salmões.

Os cientistas não se surpreenderam ao ver que os salmões estimulados nadavam mais do que os peixes não alterados. O inesperado foi que os salmões que receberam doses de benzoilecgonina apresentaram comportamento ainda mais anormal, nadando quase o dobro por semana e se afastando cerca de 12,2 quilômetros a mais do ponto de soltura do que os salmões sem exposição, e também mais do que aqueles expostos apenas à cocaína.

— Nossos resultados sugerem que avaliações de risco focadas apenas na cocaína podem subestimar os efeitos ecológicos de seus produtos de decomposição — afirmou Tomas Brodin, colega de Brand na universidade e coautor do estudo.

Cocaína e benzoilecgonina são apenas dois entre centenas de poluentes químicos que chegam aos ecossistemas aquáticos como resultado da produção e do consumo de drogas. Um estudo de 2016 com salmões em Puget Sound, no estado de Washington, encontrou Prozac, Advil, Benadryl e Lipitor, além de cocaína, nos tecidos de jovens salmões "chinook".

Embora este novo estudo seja o primeiro a examinar como a cocaína e um de seus metabólitos afetam salmões selvagens, uma pesquisa publicada no ano passado concluiu que salmões expostos a ansiolíticos ficavam menos temerosos e, por isso, mais propensos a serem devorados por predadores.

Ainda não está claro se nadar mais rápido e mais longe sob efeito dessas substâncias prejudica os peixes, mas especialistas afirmam que provavelmente não é algo positivo.

— A regra geral na nossa área é que qualquer alteração na fisiologia ou no comportamento dos peixes deve ser considerada prejudicial — disse James Meador, toxicologista ambiental e professor associado da Universidade de Washington.

Meador, que não participou do estudo, ressalta que os peixes são altamente ajustados aos seus ambientes.

— Qualquer mudança nisso certamente os afeta de maneira negativa — afirmou, citando, por exemplo, maior gasto de energia.

A presença de drogas e seus metabólitos em ambientes aquáticos é, segundo ele, “um problema de engenharia ambiental”. Só nos Estados Unidos, estações de tratamento processam aproximadamente 34 bilhões de galões de esgoto por dia. Adaptar essas unidades com nova infraestrutura capaz de remover compostos químicos indesejáveis seria caro e logisticamente complexo. Mas não é impossível.

— Há pessoas trabalhando nisso. Estou otimista de que um dia isso reduzirá muitos desses problemas.

Brand espera que esse dia chegue logo. Ele vê cocaína, benzoilecgonina e outros produtos químicos criados por humanos como “agentes invisíveis de mudança global”. Eles chegam a todo tipo de animal, não apenas peixes. Ele alerta que "as pessoas não têm uma boa noção dos potenciais efeitos que essas substâncias podem causar".