Dor é normal entre atletas jovens? Entenda quando o incômodo pode indicar uma lesão
Parte essencial do dia a dia de todo atleta é estar atento aos sinais que seu corpo dá. Com uma rotina que exige um esforço alto, é preciso saber identificar quando desconfortos normais se transformam em alertas que indicam falta de descanso, excesso de treino e, principalmente, o risco de surgimento de lesões.
Entre atletas jovens, essa importância é dobrada pois trata-se de um corpo ainda em desenvolvimento. Nesse contexto, aprender desde cedo a separar o que são os incômodos que fazem parte da rotina de treinos e quais são os que devem chamar a atenção torna-se ainda mais necessário, afirmam especialistas.
— O crescimento acelerado dos ossos, associado a adaptações mais lentas dos músculos e tendões, resulta em alterações biomecânicas e redução temporária da coordenação motora, fatores que aumentam a vulnerabilidade a lesões, especialmente as relacionadas à sobrecarga, entre os mais jovens — diz Cristiane Murad, membro do Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Um dos fatores que entra em cena nesse momento é a puberdade. Hugo Tourinho Filho, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP/USP), explica que, entre os meninos, o aumento da testosterona favorece o ganho de massa muscular, “o que pode gerar uma força explosiva que os tendões ainda imaturos podem não suportar”.
— Entre as meninas, o aumento do estrogênio pode aumentar a frouxidão ligamentar. Isso, somado ao alargamento da pelve, mudando o ângulo do quadril e joelho, aumenta significativamente o risco de algumas lesões — complementa.
Além disso, há fatores psicológicos que podem influenciar o cenário e levar muitos jovens a terem dificuldade de demonstrar quando uma dor surge, diz Pedro Henrique Deon, fisioterapeuta e professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), onde coordena o Centro do Movimento:
— Muitos ainda não sabem ler bem os limites do próprio corpo. Eles querem mostrar desempenho, agradar o treinador, acompanhar os colegas e não perder espaço. E aí acabam insistindo mesmo quando o corpo já está dando sinais de desgaste. Além disso, a pressão por desempenho e a cultura de “não sentir dor” podem fazer com que esses sinais sejam negligenciados.
Manuela Maia, de 17 anos, sabe bem a importância de estar atenta ao próprio corpo. Ela começou a lutar judô ainda com 6 anos e, em 2022, se tornou atleta profissional do Flamengo. Na última semana, representou o Brasil nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, no Panamá, onde conquistou uma medalha de Ouro. Ao longo dessa jornada, a jovem já teve dois estiramentos na panturrilha e aprendeu a como evitar novas lesões.
— Quando você é mais nova, não tem tanta essa percepção se está realmente cansada. Mas quando comecei no Flamengo, fui muito orientada a prestar atenção a como eu estava me sentindo, ao meu corpo, para perceber meus limites. Hoje, considero muito importante ter uma boa alimentação, uma boa rotina de sono e uma boa suplementação, isso é basicamente 50% do trabalho. E faço fortalecimento e exercícios com foco em alongamento, mobilidade, antes dos treinos — diz a jovem, que faz parte do programa Bolsa Atleta RJ, do governo fluminense.
Afinal, quando a dor deve acender o alerta?
Tourinho Filho explica que as queixas normais são chamadas de dor muscular de início tardio (DMIT) e são sinais de que o corpo está se adaptando ao esforço. Geralmente, elas surgem de 24 a 48 horas após um treino intenso e costumam estar “espalhadas” no músculo, como nos dois braços ou nas duas coxas, por exemplo.
— Ela envolve uma sensação de peso, rigidez ou queimação leve ao movimentar o músculo e desaparece em 2 ou 3 dias. Além disso, melhora conforme o atleta se exercita ou faz um aquecimento leve — afirma.
Já as queixas que devem acender o “sinal vermelho" são geralmente assimétricas, quando a dor é apenas em um lado, como só no joelho esquerdo, enquanto o direito está ótimo. Além disso, têm localização pontual, é possível apontar com um dedo exatamente onde dói, o que costuma indicar lesão em tendão, ligamento ou osso.
Os incômodos também surgem durante o exercício e pioram com a intensidade, ou logo após o treino e fazem o atleta mancar. Eles causam uma sensação de fisgadas, pontadas agudas, dormência ou formigamento, e podem aparecer com sinais visíveis, como inchaço, vermelhidão, calor local ou perda de amplitude, como ao não conseguir esticar o braço ou dobrar a perna totalmente.
— Resumindo, se a dor faz o jovem mancar, compensar movimento, perder força, evitar um gesto esportivo ou se ela não melhora com um breve período de descanso, isso não deve mais ser tratado como algo “normal do treino”. Também merecem atenção sintomas como formigamento, fraqueza e, em esportes de contato, sinais neurológicos como tontura, confusão e alteração do sono, que exigem avaliação imediata — complementa Deon.
Para instruir os jovens, Tourinho Filho explica que, em vez de perguntar apenas se "está doendo", é preciso ensinar a classificar o que sente em uma escala de três cores. A primeira é a verde (desconforto seguro), que diz respeito àquela queimação no músculo durante o exercício ou ao cansaço no dia seguinte. É como quando a pessoa diz que dói, mas consegue fazer o movimento perfeitamente.
A amarela (atenção) deve representar a dor que aparece no início do treino, some depois que o corpo esquenta, mas volta logo após o fim da atividade. Nesse momento, a orientação é avisar o treinador e diminuir a intensidade. Por fim, a vermelho (perigo) é a dor que faz o atleta "mudar o jeito" de andar, correr ou arremessar. É uma dor aguda, como uma pontada, ou que não deixa dormir e que deve levar o jovem a parar a atividade e avisar os responsáveis.
— Os pais devem ficar atentos também aos sinais não verbais. Se o jovem parou de vibrar com o esporte, está sempre cansado ou demora muito para se levantar da cama no dia seguinte ao treino, a dor pode estar num nível de "sobrecarga sistêmica", mesmo que ele diga que está "tudo bem" — orienta o especialista.
Na hora de prevenir novas lesões, o professor da EEFERP/USP diz que o maior risco é focar em apenas um esporte e exigir da criança e do adolescente uma performance específica, por exemplo, só treinar como goleiro durante todo o ano:
— Isso repete os mesmos movimentos exaustivamente, causando lesões por esforço repetitivo. Principalmente durante a infância, as crianças precisam vivenciar o maior número de experiências motoras para ampliar o seu repertório motor. Crianças que participam de atividades ricas em movimentos, tendem a ter mais facilidade para aprender movimentos mais complexos na adolescência.
Deon complementa que, para evitar a ocorrência de lesões, é importante adotar algumas medidas simples, como respeitar a progressão do treino, evitar aumentos bruscos de carga, garantir descanso, prestar atenção à correta execução da técnica e valorizar qualquer manifestação de dor que comece a se repetir:
— A prevenção não depende de um único fator. Depende de treino bem orientado, supervisão profissional, escuta do atleta, participação dos pais e atenção real aos sinais que o corpo dá.
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