O Kremlin rejeitou nesta segunda-feira o pedido da Ucrânia por um cessar-fogo de 60 dias para permitir a realização de eleições presidenciais e se recusou a confirmar se entrou em vigor a trégua nos ataques contra infraestruturas energéticas anunciada no fim de semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, afirmou que Moscou busca uma solução definitiva para o conflito, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, declarou que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, “não merece” uma pausa nos combates. — Não queremos um cessar-fogo, queremos paz duradoura — disse Peskov, acrescentando que o presidente russo, Vladimir Putin, estaria disposto a ordenar a suspensão dos ataques apenas no dia das eleições. — Se Kiev realmente quiser organizar eleições, então o presidente russo, comandante em chefe, estará disposto a dar a ordem de não bombardear a Ucrânia no dia da votação. Exatamente no dia da votação. Contexto: Trump anuncia cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia; Zelensky diz desconhecer acordo Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp A declaração também foi reproduzida por Lavrov, que rejeitou a possibilidade de uma trégua de dois meses, solicitada por Zelensky no domingo, em entrevista à emissora americana ABC. A realização de eleições presidenciais na Ucrânia tem sido defendida tanto por Moscou quanto por Washington, e voltou ao centro das discussões depois que Trump pressionou o governo ucraniano a organizar o pleito. — Não acho que ele (Zelensky) mereça uma pausa. Não acho que devamos nos deixar convencer mais uma vez por promessas — disse o chanceler russo em entrevista coletiva. As declarações foram feitas um dia após Trump anunciar que Rússia e Ucrânia haviam concordado com um “cessar-fogo energético” de efeito imediato. Trump, porém, não apresentou detalhes sobre os termos do suposto entendimento, que provocou surpresa em Kiev e não recebeu confirmação oficial de Moscou. Questionado nesta segunda sobre a existência do acordo, Peskov evitou esclarecer se a Rússia havia aceitado suspender os ataques ou se a medida já estava em vigor. — Os contatos continuam. Assim que tivermos algo a dizer sobre esse assunto, certamente informaremos vocês — afirmou. Entenda: Trump diz que Putin concordou em liberar diesel para o mercado global Ataques continuam Ao anunciar a suposta trégua, Trump também voltou a pressionar o presidente ucraniano pela realização de eleições, sugerindo que a população deveria ter a oportunidade de escolher “um novo líder capaz de alcançar um acordo” de paz com Moscou. Zelensky, por sua vez, classificou a decisão como “fraca” e afirmou que ela poderia gerar bilhões em receitas adicionais para Putin, permitindo que Moscou intensificasse a guerra e provocasse mais mortes de civis. Zelensky afirmou, ainda, não ter sido informado previamente sobre o acordo anunciado e acusou a Rússia de continuar atacando instalações energéticas ucranianas na madrugada desta segunda-feira. Segundo o presidente, os bombardeios atingiram uma instalação de gás e um posto de gasolina comum. Ele também assegurou que as forças ucranianas não atacaram nenhuma instalação russa durante a mesma madrugada. — Estamos aguardando os detalhes da conversa entre americanos e russos e esperando para ver quais medidas concretas os americanos estão dispostos a tomar — afirmou Zelensky, durante participação por videoconferência no Fórum de Segurança de Varsóvia. Entenda: Horas depois de acordo entre Trump e Putin por diesel, Ucrânia incendeia operação de petróleo na Rússia O presidente ucraniano advertiu que Kiev continuará atacando alvos em território russo durante o inverno caso Moscou não aceite interromper os bombardeios contra o sistema energético da Ucrânia. Nos últimos meses, as forças russas intensificaram os ataques contra infraestruturas energéticas ucranianas, enquanto Kiev passou a atingir refinarias de petróleo e outras instalações ligadas ao setor energético da Rússia. — Se a Rússia quiser que interrompamos nossos ataques de longo alcance contra suas refinarias de petróleo e suas exportações de petróleo bruto, então a Rússia precisa abandonar seus ataques ao nosso sistema energético e às nossas infraestruturas críticas. E parar de massacrar nosso povo — disse, destacando que qualquer entendimento entre as partes precisa resultar em “medidas concretas” para reduzir a escalada militar. — Um cessar-fogo energético e outras medidas para reduzir a escalada e garantir a segurança são realmente necessários aqui, na realidade, não apenas na [rede social de Trump] Truth Social. Dois dias antes de anunciar o cessar-fogo, Trump havia declarado uma flexibilização das sanções americanas sobre o diesel russo, medida que provocou indignação na Ucrânia e entre seus aliados europeus. O presidente americano também anunciou um acordo para que a Rússia, uma das maiores produtoras mundiais de petróleo, forneça grandes quantidades de diesel aos mercados dos EUA e de outros países.
Vitais para a economia global: Rotas marítimas são ameaçadas por guerras, duelo entre potências e crise do clima A intenção, segundo especialistas, é contribuir para a redução dos preços dos combustíveis, que estão em alta às vésperas das eleições americanas de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. Analistas, porém, sustentam que o acordo dificilmente produziria uma redução dos preços, enquanto parlamentares americanos e de governos europeus alertam para o risco de enfraquecimento da pressão econômica sobre Moscou. Ceticismo europeu Embora líderes europeus tenham recebido positivamente o apelo de Trump por uma trégua, muitos demonstraram cautela diante da ausência de confirmação por parte de Moscou e da continuidade dos ataques russos. Os aliados de Kiev também temem que Washington adote uma postura excessivamente branda em relação ao Kremlin e negocie um acordo sobre a Ucrânia sem a participação dos governos europeus. — A Rússia não está interessada em um cessar-fogo, nem em uma redução da escalada ou na paz. Está interessada apenas na dominação — disse o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, durante o Fórum de Segurança de Varsóvia, acrescentando que este é o momento para a Europa e EUA demonstrarem unidade. — A Ucrânia está lutando pela sobrevivência, enquanto a Rússia está lutando pela dominação. Ofensiva inédita: Ataque ucraniano atinge centro de dados e afeta funcionamento da ‘cortina de ferro digital’ da Rússia Na França, o presidente Emmanuel Macron também adotou uma postura cautelosa e afirmou que qualquer avanço nas negociações depende da implementação efetiva de uma trégua por ambas as partes. Ele destacou que os ataques russos contra instalações energéticas ucranianas continuaram mesmo depois do anúncio americano. Macron acrescentou, porém, que apoia a busca por um entendimento capaz de interromper os ataques e permitir a retomada das negociações, desde que isso não represente uma concessão às exigências de Moscou. — Dizemos ‘sim’ à busca de um cessar-fogo energético e à retomada das negociações de paz, mas ‘não’ a ceder à ameaça russa — declarou. A controvérsia ocorre em um momento de desgaste político para Zelensky, que enfrenta críticas internas relacionadas a acusações de corrupção envolvendo integrantes de seu círculo próximo e a decisões sobre nomeações e demissões no governo, incluindo a destituição do popular ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. Segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, a parcela de ucranianos que confiam no presidente caiu de 65% no ano passado para 58%. Defesa sobrecarregada: Ataques russos na Ucrânia deixa rastro de destruição e ao menos 63 mortos em dois dias Apesar disso, mesmo opositores de Zelensky rejeitaram a interferência de Trump na política ucraniana, argumentando que a escolha da liderança nacional deve caber exclusivamente aos cidadãos do país. A reprimenda americana também pode favorecer o presidente ucraniano internamente, como ocorreu após as críticas públicas de Trump durante uma reunião na Casa Branca em 2025, que foram seguidas por um aumento de seu apoio. “Não há nada no mundo que pudesse aumentar mais o índice de aprovação de Zelensky hoje do que os ataques infantis de Trump contra ele, aos gritos de que precisa ser substituído”, escreveu no X o militar ucraniano Mykhailo Lavrovskyi. (Com AFP e New York Times)
O Globo