Rueda esteve em hangar no mesmo horário que empresário suspeito de envolvimento em esquema de máfia dos combustíveis

 

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Registros de entrada do terminal dedicado à aviação executiva no Aeroporto de Brasília mostram que o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, esteve no local no mesmo dia e horário em que o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco. O local é usado por passageiros que utilizam jatinhos para chegar à capital federal ou deixar a cidade. O dirigente partidário, contudo, nega ter viajado no mesmo avião que o empresário. A Polícia Federal investiga a relação entre os dois.

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Beto Louco foi um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, sob suspeita de comandar um esquema de lavagem de dinheiro, sonegação e adulteração de combustível. A PF apura a relação entre esse esquema e postos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O empresário consta hoje na lista de foragidos da Interpol e negocia uma delação premiada.

Documento obtido pelo GLOBO indica que Rueda e Beto Louco tiveram suas entradas registradas no hangar de Brasília no mesmo horário, às 18 horas do dia 7 de maio de 2025. Essa anotação de quem entra no local costuma ser feita na chegada ao terminal, por um funcionário do aeroporto, com o nome e o documento da pessoa.

Além de um lobby onde passageiros esperam para serem levados às aeronaves por vans, o espaço possui duas salas de reuniões que podem ser utilizadas sem agendamentos prévios. Há dois locais disponíveis: um com mesa e algumas cadeiras, cercado por paredes de vidro, e outro, mais reservado, próximo ao aparelho de raio-X.

Questionado sobre o registro de entrada no mesmo dia e horário de Beto Louco, o presidente do União Brasil negou ter se reunido com o empresário.

— Entrei inúmeras vezes naquele terminal para fazer reuniões com diversas pessoas. Certamente, nesse mesmo intervalo de hora, devem ter passado centenas de pessoas lá — afirmou ele.

Os registros do terminal executivo, contudo, apontam apenas a entrada de mais duas pessoas além de Rueda e Beto Louco no mesmo horário: da mulher do presidente do União Brasil e a do empresário Maurício Ali de Paula, também citado nas investigação da Carbono Oculto por suspeita de envolvimento no esquema de lavagem de dinheiro. Por meio de sua assessoria, Ali de Paula confirma que esteve no aeroporto na data, mas diz que não voou com Rueda ou Beto e que tampouco manteve nenhuma reunião com eles. A defesa de Beto, por sua vez, disse que não comentaria.

Antes da chegada do grupo no terminal, três pessoas tiveram suas entradas registradas, às 17h30, e outras quatro depois, entre 19h e 20h. O terminal de voos executivos é um espaço pequeno. O lobby possui apenas oito poltronas para quem espera por seu voo.

Na data, três aeronaves decolaram após 18h, horário em que Rueda e Beto Louco chegaram ao hangar. O primeiro voo saiu logo depois, às 18h01, com destino a Jundiaí, no interior de São Paulo. A aeronave é de propriedade de um empresário do agronegócio. O segundo voo decolou às 18h20, mas os registros de sites de monitoramento, como o Flight Radar, não mostram seu prefixo. Às 19h06, há outra partida, dessa vez para Maceió, de um jato operado por uma empresa de táxi aéreo. Não há informações de quem foram os passageiros de cada avião.

A relação entre Rueda e Beto Louco já era conhecida pelas autoridades. Reportagem da revista piauí, publicada no mês passado, afirma que os dois trocaram diversas mensagens de WhatsApp entre outubro de 2023 e maio de 2024. Os diálogos, segundo a publicação, foram apresentados à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal pela defesa do empresário durante as negociações para fechar um acordo de colaboração premiada, que ainda não foi concretizado.

Ao lado de Mohamad Hussein Mourad, o "primo", Beto Louco é suspeito de ser um dos líderes de um esquema de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, investiga a relação entre essas fraudes e o PCC. Segundo as investigações, Beto era responsável por gerir empresas pelas quais o grupo cometia as fraudes fiscais e viabilizava a lavagem de dinheiro.

Os investigadores também apuram se Beto Louco atuava como articulador político do grupo. Em depoimento à PF, o piloto Mauro Caputti Mattosinho disse ter transportado diversas vezes Beto Louco e Mourad em aviões pertencentes à Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), da qual ele era funcionário. Segundo Mattosinho, Rueda seria o dono de fato da empresa, o que o dirigente nega.

Procurado, o advogado de Beto Louco afirma ser "falsa e fantasiosa qualquer alegação de ligação de seu cliente com o PCC". Ele ressalta, ainda, que, "ao analisar os processos em tramitação na Justiça, não há qualquer elemento que indique vínculo entre ele e a referida facção criminosa". "Quanto aos demais fatos mencionados na matéria, a defesa não se manifestará", pontuou. A defesa de Mourad também nega relação de seu cliente com o crime organizado.