Roubo de carro avança em bairros da periferia de São Paulo próximos a áreas de mata, descampados e represas
Um em cada quatro roubos de carros em São Paulo acontece em apenas cinco distritos policiais nos extremos da capital. Contrariando a queda de 26% nos casos em toda a cidade, São Mateus, São Rafael e Cidade Tiradentes, na Zona Leste, e Jardim Herculano e Campo Limpo, na Zona Sul, registraram 969 ocorrências em 2025, uma alta de 13% em relação a 2024 — e sua fatia no total de crimes saltou de 14% para 22%, revelam dados do Mapa do Crime de São Paulo, ferramenta interativa de monitoramento de roubos do GLOBO.
Os cinco distritos compartilham um traço em comum: são próximos de descampados e áreas de mata ou das represas Billings e Guarapiranga — terreno fértil, segundo a polícia, para desmanches ilegais.
Os carros preferidos pelos criminosos paulistanos têm entre 4 e 10 anos de fabricação: em 2025, segundo o Mapa do Crime, em 41% dos roubos, o veículo subtraído tinha esse período de uso. Já os modelos mais roubados são o Hyundai HB20 — surrupiado 248 vezes na capital —, a van Renault Master, o Chevrolet Onix e a Fiat Fiorino. Segundo policiais e especialistas ouvidos pelo GLOBO, após serem roubados, esses veículos têm sobretudo dois destinos: abastecem o mercado clandestino de venda de peças usadas ou são clonados e usados na prática de outros crimes, como roubos a pedestres e comércios.
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Grafico 1 - Dia 3 - Mapa do Crime SP (v3)
Arte O GLOBO
Em março passado, um motorista de aplicativo teve a rotina impactada por esse ciclo criminoso. Às 18h de um sábado, a poucos quilômetros de sua casa, em Cidade Tiradentes — o terceiro distrito com mais ocorrências em 2025 —, dois passageiros embarcaram. Após 30 minutos de viagem, a dupla anunciou o assalto numa rua que margeava um matagal. Primeiro, a vítima foi obrigada a realizar transferências bancárias e, por fim, teve que deixar o veículo — um Fiat Argo, sexto modelo mais roubado em 2025 —, que seguiu em poder dos bandidos.
— Falaram que não iam cortar o meu carro, mas que iam pegar para fazer outra “cena”, jogar na frente de outro carro pra poder roubar — diz o motorista, que prefere não se identificar. A polícia foi acionada e o carro foi encontrado menos de uma hora depois. Os criminosos acabaram presos sob a acusação de roubo e extorsão mediante sequestro.
Na mesma Zona Leste, o advogado Wilson Rossi também testemunhou como é atuação de ladrões de carros em São Paulo. Em setembro de 2024, ele voltava para casa de um evento com uma amiga, quando um Fiat Argo fechou os dois em uma rua da Vila Formosa, Zona Leste. Do carro, saíram dois homens.
— Na hora, falei: “Dá ré!” Os caras voltaram para o carro e deram ré também para tentar bater contra a gente. Mas fomos mais rápidos, entramos à direita e demos de frente com uma base da PM — conta advogado.
Mapa do Crime SP - Gráfico 2 - Dia 3
Arte O GLOBO
Antes de tentarem roubar Rossi, a dupla já tinha praticado outros dois crimes pela Zona Leste. Uma hora antes, eles chamaram um carro de aplicativo, renderam o motorista e roubaram o veículo, um Ford Fiesta. Depois, abandonaram o carro e roubaram um segundo: dessa vez, duas mulheres tiveram os pertences e um Fiat Argo levados. Em seguida, tentaram abordar o advogado e a amiga, sem sucesso. Após serem perseguidos pela PM, acabaram presos após rodarem quatro quilômetros.
O sociólogo Gregório Zambon, que pesquisa o mercado ilegal de peças e já fez trabalhos de campo entrevistando donos de desmanches e ladrões de carro, explica que há uma divisão clara entre quem rouba e quem furta carros na capital.
— Carros furtados têm valor de troca e alimentam um circuito mercantil, mais profissional, dos desmanches e revenda de peças. Por isso, é raro que carros furtados sejam recuperados, eles somem. Já os carros roubados têm valor de uso e, via de regra, acabam alimentando outras modalidades criminosas, como homicídios e outros roubos. Quando um ladrão aparece num desmanche com um carro roubado, é difícil o dono aceitar, o roubo chama muita atenção — afirma Zambon.
Investigações da Polícia Civil, no entanto, revelam que uma pequena parcela dos carros roubados também é desmontada — sobretudo nos “fundões” das zonas Sul e Leste, onde quadrilhas especializadas se valem da proximidade com desmanches improvisados para retirar as peças. Diferentemente dos furtos, nos casos de roubos, o alerta da vítima à polícia é imediato. Por isso, o intervalo entre o crime e o desmanche precisa ser o menor possível.
— Na Zona Leste, identificamos que há uma coordenação entre quem rouba os veículos, quem leva os carros para áreas de mata e os responsáveis pelos desmanches, em barracões improvisados. É uma atuação típica de organização criminosa — conta o delegado Arnaldo Rocha, da Divisão de Investigações sobre Furtos, Roubos e Receptações de Veículos (Divecar).
O local de desmonte varia de acordo com a região: na Zona Leste, os desmanches costumam funcionar a céu aberto ou em galpões; já na Zona Sul, os criminosos costumam levar os carros para retirar peças dentro de suas próprias casas. Nessa região, um modelo em especial virou foco dos criminosos em 2025, o HB20. Apenas um distrito, o Jardim Herculano, concentrou quase um terço de todos os roubos de carros desse modelo registrados na cidade.
Dia 3 - Grafico 3 - Mapa do Crime SP (v2)
Arte O GLOBO
— O HB20 já foi líder de vendas no país. Então, temos uma frota grande, que vem envelhecendo. No entanto, as peças dos carros da Hyundai são mais caras. Por isso, o lucro do criminoso é maior, principalmente nas partes externas, como porta, capô, as mais danificadas — explica Erivaldo Vieira, coordenador do Centro de Estudos em Economia do Crime da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).
O delegado Daniel Borgues, da 1ª Delegacia Seccional (Centro), apontado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) para responder os questionamentos do GLOBO, afirma que a concentração de roubos de carros nas zonas Leste e Sul é considerada no planejamento operacional.
— O combate ao roubo de veículos envolve policiamento ostensivo em áreas críticas, uso de inteligência para identificar padrões e grupos criminosos e investigações direcionadas à desarticulação de quadrilhas especializadas, incluindo aquelas voltadas ao desmanche e à revenda de peças — diz o delegado.
Ele afirma ainda que, em 2025, a polícia realizou 47 operações contra quadrilhas que praticam roubos de veículos. Procurada, a prefeitura de São Paulo afirma que a Guarda Civil Metropolitana tem reforçado o patrulhamento preventivo nas Zona Leste e Sul. A pasta também informa que possui “50 mil câmeras distribuídas em todas as regiões da cidade, com expansão contínua da cobertura nas áreas de maior incidência (criminal)”. Já o Detran diz que entre 2023 e março de 2026 fiscalizou 4.110 desmanches no estado e 403 foram lacrados por irregularidades.
O que é o Mapa do Crime de São Paulo?
O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.
Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.
Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.
