Roteiro leva viajantes ao encontro dos maiores nomes da literatura portuguesa
Basta passar em frente ao café A Brasileira, no coração do Chiado, para se ver um turista, quiçá muitos, tirando uma selfie ao lado da estátua de Fernando Pessoa, uma intimidade que diz muito sobre turismo de massa e nada sobre o poeta. E é um pouco por isso que vale a pena desviar o olhar dos pontos mais concorridos e dos infames tuktuks e conhecer Lisboa de outras formas. Já pensou em fazer um roteiro literário na capital portuguesa?
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Quem já se perdeu pelas ladeiras lisboetas sabe que ainda é relativamente fácil encontrar um pequeno sebo ou livraria guardados como tesouros. Isso não é apenas impressão de viajante, os dados confirmam: em 2023, o World Cities Culture Forum, uma rede de governos locais e líderes do setor cultural, colocou a capital portuguesa como a cidade com o maior número de livrarias por habitante no mundo. São 35,9 comércios desse tipo para cada cem mil habitantes, à frente de Melbourne, Nanquim, Chengdu e Buenos Aires.
Deixando Fernando Pessoa em paz, ali mesmo no Chiado já se vê essa Lisboa literária. Logo em frente a A Brasileira está a livraria Bertrand, reconhecida pelo Guinness como a mais antiga em funcionamento no mundo, operando desde 1732. A Bertrand tem hoje uma rede de 50 lojas em Portugal, mas é na da Rua Garrett que se pode conhecer a história da família de livreiros, do primeiro catálogo de livros de Portugal e tomar um café, quem sabe um Porto, com um painel dedicado a Pessoa ao fundo.
Casa de Fernando Pessoa em Campo de Ourique
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Uns cinco minutos de caminhada levam ao Teatro Nacional de São Carlos, a casa de ópera lisboeta, algo como o nosso Theatro Municipal. Exatamente em frente, no Largo de São Carlos, está um prédio onde se lê numa placa: “No quarto andar desta casa, nasceu em 13 de junho de 1888 o poeta Fernando Pessoa.” Do lado de fora, uma escultura com a cabeça do poeta substituída por um livro — uma alternativa à manjada foto no café A Brasileira. No entorno do Lago de São Carlos ficam os dois restaurantes do chef José Avillez reconhecidos com estrelas Michelin: o Belcanto e o Encanto, este último dedicado aos vegetais e também celebrado pelo guia com a estrela verde, para casas que apostam na sustentabilidade.
O São Carlos aparece na obra de outro escritor português, Eça de Queirós. Em “Os Maias”, a ópera é presença frequente. É lá que o leitor vê Pedro da Maia em um camarote com Maria Monforte e onde os amigos Carlos Eduardo da Maia e Ega vão com frequência pela música e pelo flerte nos corredores. O teatro está fechado para obras de restauração desde 2024, mas a agenda de sua orquestra sinfônica e do coro segue em outros pontos de Lisboa, como o Centro Cultural de Belém e o Teatro Camões.
Prédio onde nasceu Fernando Pessoa
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E já que falamos em “Os Maias” e estamos em Lisboa, saindo do São Carlos, basta cruzar a Rua do Capelo e chegar à Rua Ivens, endereço nobre, hoje com hotéis e restaurantes para orçamentos, digamos, sem limites. Mas é ali que está o número 31, casa onde na ficção começou o romance proibido de Carlos e Maria Eduarda. A personagem vivia no primeiro andar na então Rua de S. Francisco. O prédio ao lado é outro ponto lisboeta inúmeras vezes citado por Eça em “Os Maias”: o Palacete de Loures, sede do Grêmio Literário. Restrito a sócios e convidados, com dress code que exige gravata e paletó, o grêmio era o cenário onde Carlos e os amigos se reuniam para discutir literatura e política e fumar — o que os personagens também faziam pertinho dali, no Largo do Chiado, endereço da Casa Havaneza, ainda hoje vendendo charutos e vinhos.
Largo da Sophia
Deixando o Chiado de lado, quem gosta de literatura vai curtir perambular pelo bairro da Graça, não muito distante do Castelo de São Jorge, mas longe o suficiente para não estar repleto de turistas como acontece com a vizinha Alfama. Na Graça viveram as poetas Sophia de Mello Breyner Andresen e Natália Correia, e o bairro é tão identificado com a literatura que é comum ver livros — daqueles antigos, com capa de couro e título em letras douradas — decorando as mesas dos restaurantes ao ar livre. É também na Graça onde se tem algumas das vistas mais bonitas de Lisboa, no Miradouro Senhora do Monte e no da Graça, cujo nome oficial é Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen (há um busto dela ali). O pôr do sol na Graça é das vistas mais bonitas de Lisboa.
A melhor maneira de chegar à Graça é pegar o elétrico 28, o histórico bonde amarelo que liga o Cemitério dos Prazeres, em Campo de Ourique, à Praça de Martim Moniz. Dessa praça, uma caminhada leva ao número 127 da Calçada de Sant’Ana, edifício onde, reza a lenda, Luís de Camões morreu, em 1580. Uma placa na fachada do prédio, datada de 1867, registra o fato, embora uma outra história afirme que o poeta morreu perto do Hospital São José, a dez minutos dali. De um ponto ao outro, a caminhada mostra uma Lisboa tranquila, silenciosa e com o comércio de bairro que dá charme à cidade.
Na outra ponta do trajeto do 28, em Campo de Ourique, fica a Casa Fernando Pessoa, um museu e um centro de informações riquíssimos sobre o poeta. São três andares, que incluem loja, biblioteca para visitantes, um museu e a biblioteca de 1.300 livros do autor. Lá estão os famosos óculos arredondados e outros objetos pessoais, móveis, manuscritos e áudios de seus principais poemas. Uma curiosidade que se descobre lá? Fernando Pessoa escreveu o primeiro slogan da Coca-Cola em Portugal, 40 anos depois da fundação da marca americana, que diz: “Primeiro estranha-se. Depois entranha-se.”
Clássico literário em Sintra
Quem leu “Os Maias”, de Eça de Queirós, ou assistiu à série homônima dirigida por Luiz Fernando Carvalho na TV Globo em 2001, talvez lembre de uma personagem muito citada por Carlos, Alencar e companhia mas que nunca aparece em cena: a velha Lawrence.
Jane Lawrence foi a dona do hotel onde a aristocracia e a intelectualidade portuguesa se reuniam em Sintra durante grande parte do século XIX e início do XX — mais ou menos como Carlos da Maia e seus amigos no clássico de Eça. O escritor, por sinal, não usou o hotel apenas como cenário na ficção. Consta que dava suas escapadas amorosas por lá.
Sala superior do Lawrence's, em Sintra
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Fundado em 1764, o Lawrence’s é o hotel mais antigo da Península Ibérica, e fica coladinho ao centro de Sintra e a cinco minutos da Quinta da Regaleira. Em 1999, foi reinaugurado após uma reforma que levou dez anos e foi levada a cabo pelo então proprietário, o holandês Jan-Willem Bos. Desde 2016, o hotel é propriedade do brasileiro Ricardo Andrade, cuja ideia é levar o lugar de volta à época da velha Lawrence. Leia-se dar ao hotel um estilo inglês, que é visível nos tecidos xadrez e nos móveis de madeira, bem ao gosto dos Maias, diga-se de passagem. É também refazer a ligação do hotel com a literatura, afinal Lord Byron lá escreveu o poema “Peregrinação de Childe Harold”, e nomes como Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão foram hóspedes. Os 16 quartos e suítes, não por acaso, são identificados por nomes de autores, e o Lord Byron é o mais concorrido deles. O poeta inglês também batiza uma escadaria ao lado do hotel, verde e bucólica, daquelas cenas que só Sintra oferece.
Como outros pequenos hotéis de luxo, o Lawrence’s tem serviço de spa, gastronomia (há um restaurante, um bar, chá da tarde e um serviço de piquenique) e realiza eventos como casamentos. Mas há também uma biblioteca, very cozy como diriam os ingleses, e um clube do livro. O hotel organiza passeios para quem quer conhecer a Sintra de Eça de Queirós e prepara o “Menu Queirosiano”, baseado na obra do escritor. Entre peixinhos da horta, empadas de perdiz, vinhos e um coquetel da época está o “Bacalhau à Alencar”, citação direta ao personagem de “Os Maias”, que em uma cena do livro diz que vai à cozinha da velha Lawrence preparar a sua receita de bacalhau aos amigos. “E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!”
Só nos resta conferir.
Renata Izaal viajou a convite do Turismo de Portugal
