Após receber um aporte de R$ 100 milhões no ano passado, a Rivio, startup que faz gestão de contas médicas com uso de inteligência artificial para hospitais como Einstein e Sírio-Libanês, captou mais R$ 80 milhões e agora é avaliada em R$ 1 bilhão, o dobro do seu valor de mercado há menos de um ano.
O novo aporte foi liderado pela Valor Capital e contou também com participação da Monashees - ambas investiram recursos na rodada anterior, ao lado da Endeavor. A operação atual é uma extensão da primeira captação série A, que trouxe ainda outros dois investidores, os fundos Positive Ventures e APL.
O contrato foi assinado, sem mudanças nas condições preestabelecidas, três dias após o segundo turno da eleição, que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e num cenário de desconfiança do potencial de crescimento de empresas ligadas à inteligência artificial. Esses dois indicadores vêm balizando os investimentos no Brasil e em outros países.
A Rivio usa a IA em gestão de contas médicas hospitalares. Trata-se de um trabalho complexo porque envolve milhares de itens e procedimentos que, muitas vezes, não são cobrados ou contabilizados de forma incorreta.
Estima-se que até 10% do faturamento dos hospitais é perdido em meio à papelada que vai para a conta médica. “Até hoje, há grandes hospitais com enfermeiros que anotam em papel cada dipirona aplicada, como num hotel quando o hóspede pede algo extra no quarto.
Mas num hospital a dimensão é muito maior”, diz Silvio Frison, CEO e cofundador da Rivio e ex-Serasa. Uma internação de uma semana gera uma conta médica de cerca de 100 páginas.
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no ano passado, foram realizados 2 bilhões de procedimentos como exames, consultas, terapias e cirurgias. Para cada um desses procedimentos, há outras inúmeras etapas.
Fundada no ano passado, a Rivio trabalha atualmente com 13 hospitais. Entre eles estão Einstein, Sírio-Libanês, Alemão Oswaldo Cruz, A.C.Camargo Cancer Center, HCor, São Camilo e AACD, todos localizados na capital paulista.
“Os hospitais brasileiros ainda operam sobre uma infraestrutura tecnológica que não acompanhou a complexidade do cuidado que entregam. A adesão de algumas das principais instituições do país em tão pouco tempo mostra que o setor estava pronto para essa mudança.
Ampliar nosso investimento é uma aposta na capacidade desse time de redesenhar a saúde no Brasil”, afirma Carlos Costa, da Valor Capital. A ideia inicial da Rivio era abarcar um grande volume de hospitais, mas a estratégia foi revista e, agora, o foco é trabalhar com hospitais de referência para disseminar a aplicação da IA na saúde, que ainda é desconhecida no Brasil e no mundo.
No mercado nacional, sua concorrente é a Revena, que recebeu aporte de R$ 40 milhões no começo deste ano. Nos Estados Unidos, há mais empresas atuando nesse mercado, mas ainda assim é uma operação nova.
Uma delas é a Candid Health, que, em julho, levantou US$ 120 milhões junto ao fundo Sixth Street Growth. Com esse aporte, o valor de mercado da Candid cresceu três vezes em relação ao ‘valuation’ de 18 meses atrás.
Segundo a startup americana, a ineficiência e o desperdício em contas médicas somam US$ 280 bilhões por ano. Diante da complexidade das contas médicas, há no setor de saúde uma prática chamada de glosa, em que a operadora questiona o procedimento médico realizado por hospitais, clínicas e laboratórios.
A consequência desse questionamento é o atraso ou cancelamento do pagamento, o que impacta o fluxo de caixa dos estabelecimentos de saúde. Dados da Anahp, associação que representa cerca de 120 hospitais, mostram que, no ano passado, quase 16% do faturamento dessas unidades foi questionado pelas operadoras.
Após negociações entre as partes, esse percentual caiu para menos de 2%. A inteligência artificial da Rivio busca os erros antes de as contas médicas serem enviadas às operadoras de planos de saúde.
Com isso, evita-se uma quebra no fluxo de caixa do hospital devido aos questionamentos. Hoje, o prazo médio em que os hospitais recebem pelo procedimento realizado já é elevado, de cerca de 70 dias.
Com a glosa, o pagamento pode ocorrer um ano depois. A glosa foi muito usada pelas operadoras de planos de saúde na época da crise do setor, entre 2022 e 2024, uma vez que, ao atrasar o pagamento para os prestadores de serviços, há uma melhora em seu caixa.
Mas há também reclamações por parte das operadoras, que afirmam que os hospitais aumentam o tempo de internação para elevar a receita. “Com o uso da inteligência artificial para rastrear os erros, as operadoras também são beneficiadas.
O agente da IA começa a trabalhar desde a etapa em que o paciente faz o cadastro de entrada. Então, o sistema detecta mudança de cobertura, inclusão de algum código errado e procedimento atípico para determinado atendimento”, diz Ricardo Sales, cofundador da Rivio, ex- General Atlantic e Isaac.
Frison destaca que esse trabalho seria inviável sem a chegada da IA. Hoje, os hospitais e as operadoras têm centenas de enfermeiros auditores que fazem a checagem da conta médica de forma manual.
“É muito difícil o humano não errar, são muitas variáveis”, afirma. A fim de esclarecer melhor o trabalho de gestão de contas médicas, a Rivio criou um conselho com representantes dos setores de saúde e tecnologia que se tornaram também sócios da startup.
Nesse grupo, estão Henrique Neves (Einstein), Paulo Chapchap (ex-Sírio-Libanês e diretor médico do IEPS), José Marcelo de Oliveira (Alemão Oswaldo Cruz), Teresa Sacchetta (Conselho Saúde Digital Brasil), Luiz De Luca (ex-Nove de Julho), Gustavo Meirelles (Afya) e Fernando Carneiro (Vila Nova Partners).
Na área de tecnologia, estão Mat Velloso (Docker e ex- Microsoft, Google e Meta) e River Mist (OpenAI). “São pessoas que entendem muito dos seus respectivos setores e nos abrem portas”, afirma o CEO da Rivio.
Valor