A hipótese de derrota de Lula precisava ser tratada como um cenário possível, não como um acontecimento consumado. Uma questão central era compreender o que poderia acontecer com a participação política de seus apoiadores.
Na avaliação do caso brasileiro do petismo, diante de uma eventual derrota de Lula, o primeiro cenário seria de desilusão e retirada temporária. Uma derrota poderia produzir sentimentos de frustração, cansaço e perda de perspectivas.
Isso seria particularmente compreensível entre velhos militantes com participação de sucessivas campanhas eleitorais e enfrentamento décadas de conflitos políticos desde o regime militar ditatorial. O sentimento predominante poderia ser: depois de tantos anos de luta, vale a pena continuar?
Parte dos apoiadores poderia reduzir sua participação em partidos, movimentos e debates públicos. Esse processo seria mais provável caso a derrota fosse interpretada como demonstração de que os esforços individuais não produzem resultados.
Entretanto, não há fundamento para afirmar antecipadamente essa reação predominar entre os petistas. O segundo cenário seria de resistência democrática e reorganização.
Uma derrota também poderia estimular novas formas de mobilização. A história recente oferece evidências importantes.
Após a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, organizações da sociedade civil, sindicatos, movimentos estudantis e grupos de defesa dos direitos humanos continuaram atuando. Durante o período de 2019 a 2022, houve mobilizações relacionadas à educação, às políticas sociais, à pandemia e à defesa das instituições democráticas.
Uma análise publicada na revista Lua Nova examina a interação entre protestos e eleições presidenciais brasileiras de 2010 a 2022, mostrando as disputas eleitorais também terem produzido mobilização nas ruas, inclusive entre setores progressistas. Outro estudo, publicado na revista Sur, examina estratégias de organizações da sociedade civil diante de políticas e práticas autoritárias durante o governo Bolsonaro.
Esses antecedentes demonstram: uma derrota eleitoral não determina o desaparecimento da participação política. A experiência de 2018–2022 é especialmente relevante porque o PT perdeu o governo federal, mas permaneceu como força eleitoral, parlamentar e social.
A vitória de Lula em 2022 demonstrou: a derrota anterior não havia eliminado a capacidade de reorganização de seus apoiadores. Um terceiro cenário seria de fragmentação e renovação simultâneas.
O cenário mais complexo combinaria afastamento de alguns militantes e ingresso de novos participantes. A derrota de uma liderança histórica poderia provocar disputas internas sobre estratégias, alianças, programas e sucessão.
Esses conflitos poderiam enfraquecer uma organização. Mas também poderiam estimular renovação.
A questão é saber se o Partido dos Trabalhadores conseguiria transformar divergências em aprendizado coletivo ou se elas produzem rupturas permanentes. Uma organização excessivamente dependente de uma liderança carismática enfrenta dificuldades maiores de sucessão.
Por isso, a capacidade de renovação institucional importa tanto quanto o prestígio de seus dirigentes. Existia uma apatia dos petistas antes da derrota eleitoral no primeiro turno? Havia indícios de dificuldades de mobilização, mas não de uma apatia generalizada.
As mobilizações de rua massivas, em diversas cidades, demonstrou isso. Os jovens do movimento estudantil foram a vanguarda.
Em setembro de 2026, reportagens registraram reclamações de movimentos sociais e sindicatos sobre sua participação na campanha presidencial, além de preocupações internas com a mobilização eleitoral. Após o primeiro turno, foram noticiadas manifestações espontâneas, iniciativas de artistas, mobilizações universitárias e campanhas digitais em apoio a Lula.
Esses acontecimentos apontam em direções diferentes. A insatisfação com a organização partidária pode coexistir com disposição para participar.
Também é possível militantes estarem menos interessados em determinadas atividades partidárias, mas continuarem ativos em sindicatos, associações ou movimentos sociais. Portanto, é necessário distinguir apatia política de descontentamento com a direção de um partido.
Uma pessoa pode abandonar uma organização justamente porque deseja participar de outra maneira. A geração baby-boom ou 68 sairá da cena política? Esta talvez seja a questão sociológica mais interessante.
Ela nasceu no pós-guerra e viveu sua juventude durante os anos 1960 e 1970 participou de acontecimentos históricos extraordinários. No Brasil, sua trajetória foi marcada pela ditadura militar, pela expansão do ensino universitário, pelo movimento estudantil, pela reorganização sindical, pela luta pela anistia, pelas Diretas Já e pela redemocratização.
Parte dessa geração participou da fundação do PT e da construção de organizações populares. Hoje, seus integrantes mais velhos encontram-se na faixa dos 70 a 85 anos.
A questão não é apenas saber se continuarão votando ou participando de manifestações. É compreender como poderá ocorrer a transmissão de sua experiência histórica às gerações seguintes.
É importante distinguir três fenômenos. 1.
Aposentadoria profissional: encerramento de uma atividade remunerada. 2.
Redução da militância presencial: diminuição da participação em reuniões, manifestações ou atividades que exigem deslocamentos frequentes. 3.
Apatia política: perda de interesse pelos assuntos públicos. Esses processos não são equivalentes.
Uma pessoa pode aposentar-se profissionalmente e tornar-se intelectualmente mais produtiva. Também pode reduzir sua presença nas ruas e ampliar sua participação por meio de artigos, livros, debates e atividades educacionais.
A experiência acumulada pode compensar parcialmente limitações físicas associadas à idade. Existe, entretanto, um problema real: o risco de uma ruptura geracional.
Movimentos políticos dependentes excessivamente de militantes envelhecidos podem enfrentar dificuldades de renovação. Os jovens possuem experiências diferentes de trabalho, educação, comunicação e sociabilidade.
A geração 68 foi formada em um ambiente de organizações estudantis, sindicatos, partidos e imprensa alternativa. As gerações mais recentes cresceram em uma sociedade digitalizada, marcada por redes sociais, transformações do emprego e novas formas de mobilização.
Não é possível presumir: eles reproduzirão automaticamente as mesmas identidades partidárias. A continuidade de uma tradição política exige tradução de suas experiências históricas para problemas contemporâneos.
Uma possibilidade importante é a transformação do papel político dos mais velhos: da militância presencial à atuação intelectual. Em vez de permanecerem necessariamente na linha de frente da organização cotidiana, podem atuar como pesquisadores, escritores, professores, memorialistas e participantes de debates públicos.
A experiência histórica permite identificar continuidades e diferenças entre acontecimentos, para os mais jovens, aparentemente novos. Isso não significa a idade conferir automaticamente maior sabedoria política.
Significa a memória de experiências anteriores constituir um recurso intelectual possível de ser compartilhado, discutido e criticado. A saída gradual da militância cotidiana não precisa representar saída da vida política.
Pode representar uma mudança de função dentro dela. Como superaria a apatia caso houvesse uma derrota eleitoral? Exige uma resposta capaz de ultrapassar o apelo moral à perseverança.
Não basta dizer às pessoas para continuarem participando. É necessário compreender por qual razão perderam o interesse e quais condições poderiam tornar sua participação novamente significativa.
Uma abordagem democrática e não partidária envolve cinco dimensões. Essas medidas não são uma receita de mobilização eleitoral de determinado partido.
Constituem condições gerais para preservar a participação democrática de cidadãos que enfrentam derrotas, frustrações ou crises de representação. A importância de, em uma democracia eleitoral, reconhecer a legitimidade das derrotas é fundamental.
Nela, partidos precisam admitir a possibilidade de perder eleições. A aceitação dos resultados legítimos é uma condição da alternância de poder.
Entretanto, aceitar uma derrota não significa concordar com todas as políticas do governo eleito. A oposição democrática continua exercendo funções essenciais: fiscalização, crítica, elaboração de alternativas e defesa dos direitos constitucionais.
A resistência democrática distingue-se da recusa em reconhecer a legitimidade das instituições. Ela pode ser exercida por meios legais, pacíficos e institucionais.
Em uma interpretação sistêmica, a apatia pode produzir sua própria superação. O verbete de Sani permite uma leitura inspirada no pensamento da complexidade.
A apatia política pode gerar dois circuitos de retroalimentação. Circuito de desmobilização: derrota eleitoral → frustração → afastamento da política → menor capacidade de influência → novas frustrações → aprofundamento da apatia.
Esse é um circuito de reforço negativo para a participação democrática. Circuito de renovação: derrota eleitoral → avaliação crítica → reorganização institucional → novas oportunidades de participação → recuperação da confiança → fortalecimento da atuação coletiva.
Nesse segundo circuito, a derrota funciona como estímulo à aprendizagem. O resultado não está predeterminado.
Depende das interações entre indivíduos, organizações, lideranças, instituições e acontecimentos posteriores. Exige uma concepção evolutiva da política: organizações podem aprender, adaptar-se e modificar suas estratégias em resposta às mudanças do ambiente.
Mas também podem permanecer presas a comportamentos repetitivos e perder capacidade de renovação. A existência de amplos setores politicamente indiferentes aumenta a liberdade de ação das elites, mas esses mesmos setores constituem uma reserva potencial de participação.
Portanto, a apatia não é necessariamente definitiva. Aplicada ao Brasil, essa interpretação sugere: a derrota eleitoral de Lula não produziria automaticamente a retirada dos petistas da vida pública.
Parte poderia afastar-se temporariamente, outra parte permaneceria ativa e novos participantes poderiam surgir. A história brasileira demonstra: períodos de derrota e repressão política não impediram necessariamente a reorganização de movimentos democráticos.
Quanto à geração baby-boom ou 68, sua participação tenderá a modificar-se com o envelhecimento. Mas existe uma diferença entre abandonar a política e modificar a forma de participação.
A geração tendo vivenciado a ditadura e a redemocratização acumulou uma experiência histórica e pode continuar contribuindo para o debate público. Seu desafio não é preservar indefinidamente a direção das organizações, mas compartilhar conhecimentos e abrir espaço para novas gerações.
A questão decisiva não é saber se os militantes envelhecidos continuarão ocupando os mesmos lugares, mas se sua experiência poderá ser incorporada a uma cultura democrática renovada. A resposta final pode ser sintetizada em três proposições.
Primeira: a derrota eleitoral não equivale à derrota definitiva de um projeto político. Segunda: a resistência democrática não exige mobilização permanente nem identidade partidária única; pode assumir formas institucionais, culturais, intelectuais e associativas.
Terceira: a superação da apatia depende menos de exortações à militância e mais da existência de oportunidades reais de participação e influência. Em uma democracia, a alternância de poder não deveria transformar vencedores em proprietários do Estado nem derrotados em exilados políticos dentro do próprio país.
A cidadania continua existindo entre as eleições. A geração 68 pode sair gradualmente da direção cotidiana da política sem abandonar sua contribuição à vida pública.
Seu legado mais duradouro talvez não seja a permanência no poder, mas a transmissão da experiência de a democracia necessitar ser continuamente construída e renovada.
Brasil 247