Revista símbolo do feminismo na Alemanha deixará de ser publicada após 50 anos

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"Emma" era publicada a cada dois mesesRedação DW Por quase meio século, a revista feminista Emma, fundada pela jornalista e ativista dos direitos das mulheres Alice Schwarzer, ajudou a moldar o debate público na Alemanha. Mas a publicação encerrará suas atividades no fim deste ano."Após 50 anos, 398 edições e 36.584 páginas publicadas, a Emma deixa o palco", anunciou Schwarzer, hoje com 83 anos, na sede da redação, em Colônia. Fundadora da revista, ela segue até hoje como editora e redatora-chefe da publicação.Segundo ela, durante três gerações de feministas, a revista Emma manteve sua posição, resistiu a todas as modas e se opôs a muitos "absurdos em nome do feminismo". "Então, permitam-nos dizer: agora estamos exaustas."Feminismo universalistaA última edição da revista Emma será publicada em 8 de dezembro. "Hesitamos e refletimos durante muito tempo. Isso também parte nossos corações. Mas não há outra saída", escreveu a redação. O motivo, segundo a equipe, é a dificuldade de dar continuidade à perspectiva do chamado "feminismo universalista", defendida pela revista desde a fundação, em 1977.O feminismo universalista é uma corrente dentro do feminismo que defende que existem direitos, interesses e experiências comuns a todas as mulheres, independentemente de nacionalidade, raça, religião, orientação sexual ou classe social. Na Alemanha, o termo costuma ser usado por algumas feministas da geração de Alice Schwarzer para diferenciar sua visão das correntes queer e transinclusivas mais recentes.No texto de despedida, as editoras criticam o fato de que o feminismo clássico estaria sendo cada vez mais absorvido por um "feminismo queer". Segundo elas, "ao final, já nem está claro o que é uma mulher e o que é um homem neste mundo patriarcal, nem por que ou contra o que estamos lutando".Sucessão fracassadaAo longo das últimas décadas, muitos se questionaram se Schwarzer não deveria passar a direção da revista, publicada bimestralmente, para uma geração mais jovem. Agora, ao encerrar este capítulo da história da mídia alemã, a redação explica: "Tentamos repetidamente encontrar outras colegas que compartilhassem nosso espírito, inclusive uma potencial redatora-chefe". Mas isso não deu certo."Vivemos experiências tão problemáticas nesse processo que, em determinado momento, decidimos desistir. Preferimos confiar em nós mesmas, no núcleo da equipe", afirmou Schwarzer na edição de outubro da revista.Em 2008, a jornalista Lisa Ortgies chegou a assumir a chefia editorial. Mas, após pouco tempo, houve um rompimento, e Schwarzer retomou pessoalmente o comando da publicação.Críticas à agenda trans e aproximação com WagenknechtEssa posição e sua postura em relação às pessoas trans geraram fortes críticas e até ataques pessoais contra Schwarzer nos últimos anos. Em 2023, durante um festival de literatura em Leipzig, 33 autoras e artistas pediram o cancelamento de uma leitura pública de Schwarzer, alegando que ela se destacava "repetidamente por declarações e publicações transfóbicas, racistas e misóginas".Schwarzer reagiu com indignação. Em declaração à agência alemã de notícias dpa, afirmou que nunca atacou pessoas trans. "O que vejo de forma crítica é a nova ideologia trans, que defende o direito à mudança de registro civil a partir dos 14 anos e a tratamentos hormonais e cirurgias potencialmente perigosos para todos", disse. Segundo ela, deveria ser possível defender essa opinião sem ser excluída do debate público.As opiniões da editora da Emma sobre a guerra na Ucrânia também provocaram controvérsia. A defesa de negociações de paz rápidas com a Rússia, feita ao lado de Sahra Wagenknecht, fundadora do partido populista de esquerda antiwoke Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), gerou duras críticas e levou muitos a cancelar suas assinaturas.Contas no azulSchwarzer fundou a Emma em 1977 e rapidamente a transformou na principal publicação do feminismo alemão. Em seus melhores anos, a revista tinha tiragens de cerca de 200 mil exemplares.Até 2023, esse número havia caído para aproximadamente 26 mil. Desde então, a publicação, editada a cada dois meses e de forma independente, deixou de divulgar seus números de circulação. Segundo Schwarzer, porém, a revista não opera no vermelho.Fiel à postura combativa que manteve ao longo da vida, a editora afirmou que quer se despedir da Emma de cabeça erguida. O encerramento da revista, enfatizou, não ocorre por razões econômicas nem pela queda da circulação. "Estamos indo embora porque acreditamos que basta!"Há, no entanto, um pequeno consolo: todo o arquivo da Emma, incluindo caixas de documentos, correspondências e materiais de campanhas que a revista promoveu, será incorporado ao acervo do Arquivo Alemão de Literatura de Marbach e disponibilizado para pesquisadores e interessados. Dessa forma, conclui a redação, a Emma acabará entrando "na eternidade".le/cn (kna, afp, dpa, epd)

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