Revelação da MPB, Juliana Linhares busca a criatividade na exaustão
Um dia, Juliana Linhares encontrou Zeca Baleiro no aeroporto. Ela se recorda de ele ter dito: “Está todo mundo comentando que você está com medo de fazer um segundo disco!”
— Falei: “Acho que eu estou mesmo, Zeca, e agora?” — reconhece, bem-humorada, a cantora e compositora potiguar, de 36 anos, que na sexta-feira lançou o tal segundo álbum solo, “Até cansar o cansaço”. — De dois anos para cá entendi que precisava pensar num disco novo, mas o (álbum de estreia) “Nordeste ficção” ainda estava a todo vapor... não tinha tempo nem para dormir!
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Juliana lançou “Nordeste” na pandemia, em 2021.
— Foi um ano complicado, a gente fez muita coisa on-line, muita live — contabiliza. — Só depois é que o “Nordeste ficção” começou a ganhar alguma presença no show. Foram cinco anos até ele ser ouvido (em 2024, por exemplo, a faixa “Balanceiro” entrou na trilha sonora da novela “Renascer”), por isso, foi um disco que durou.
Enquanto o álbum ganhava tração nos palcos, Juliana se metia em outros projetos.
— Lancei um álbum com (a sua banda) o Pietá, fiz shows com Cátia de França e com Josyara, cantei com orquestra, viajei muito. Quando comecei a compor, já estava cansada. E ainda estava num relacionamento complicado — lista. — Desabafei com um amigo e ele me mandou um pedaço de música, que virou a faixa “Até cansar o cansaço”. Olhei aquilo e pensei: “Vou com esse tema!”
Em uma das faixas de “Até cansar o cansaço”, o baião “Vida virada”, Juliana canta: “Ai, eu me cansei de trabalhar pra conquistar o tal descanso que nunca se paga.” É um dueto com Anastácia, de 85 anos, a Rainha do Forró.
— Teve um momento em que queria que o disco só tivesse artistas com mais de 80 anos — conta Juliana, que gravou ainda com Ney Matogrosso (de 85) em “Mistério do óbvio”. — Vi neles uma força de vida, liberdade e trabalho. Eles estão cansando o cansaço, fazendo obras novas.
Juliana aproveitou o disco para reler clássicos da MPB, como “O rabo do jumento”, sucesso do forró no Nordeste dos anos 1970, de Elino Julião; e “A palo seco”, de Belchior. A surpresa é “Conseguiram parabéns”, de Manduka (1952-2004), filho do poeta Thiago de Mello, cuja obra é pouco conhecida mas celebrada.
— Manduka não teve a oportunidade de ser gravado por uma Elis Regina, mas é um cara do mesmo nível (dos outros autores que ela gravou) — justifica-se. — Amo essa canção, que tem uma força política muito poética neste ano de guerra (na eleição).
Juliana Linhares e Laila Garin como carpideiras em "As centenárias", versão musical de comédia estrelada por Andréa Beltrão e Marieta Severo
Divulgação/Andrea Nestrea
O momento é de preparar o show de “Até cansar o cansaço”, com estreia marcada para 16 de julho, no Rio, em local a ser confirmado. Até lá Juliana tem outras atividades. No domingo, terminou a bem-sucedida temporada carioca da recém-estreada “As Centenárias”, peça de Newton Moreno, dirigida em 2007 por Aderbal Freire-Filho com Marieta Severo e Andréa Beltrão, recriada agora como musical, com canções de Chico César e atuação-cantoria com a baiana Laila Garin. O espetáculo reestreia na quinta-feira em São Paulo, no Sesc Bom Retiro, onde fica em cartaz por um mês.
— A gente traz duas nordestinas cantoras para reler uma obra feita por duas sudestinas atrizes, acho que o sucesso da remontagem tem a ver com isso, por ser muito diferente do que elas fizeram — explica Juliana. — Nunca abandonei o teatro e nunca vou abandonar. As pessoas falam: “Ah, você poderia ser uma cantora maior ou estar em outro lugar, se não fizesse teatro...” Mas eu já passei dos 35 e entendi que meu lugar é ali, com aquelas pessoas também, porque é importante para a saúde mental.
