Retirada americana abre novo capítulo hoje para o Iraque, com possível fortalecimento de milícias armadas alinhadas ao Irã

Retirada americana abre novo capítulo hoje para o Iraque, com possível fortalecimento de milícias armadas alinhadas ao Irã - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Mais de duas décadas depois dos EUA iniciarem a pouco celebrada Guerra do Iraque, as últimas tropas americanas ainda presentes no país árabe voltam em definitivo para casa nesta quarta-feira, como parte de um acordo entre Bagdá e Washington firmado em 2024. Mas se por um lado os iraquianos veem uma chance para restaurar sua soberania plena, o contexto regional e as dúvidas sobre o papel das milícias, que não parecem dispostas a se desarmar, não são exatamente um alento. — A retirada é uma tentativa dos EUA para fechar um ciclo — afirmou Antônio Henrique Lucena, professor da Universidade Federal de Pernambuco e da Unicap, em entrevista ao GLOBO. — Mas acredito que o Iraque não ficará distante do pano de fundo da disputa e da balança de poder dentro do Oriente Médio. Intensificação dos confrontos: Arábia Saudita fecha oleoduto que contorna Estreito de Ormuz após ataques com drones lançados do Iraque O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre 36 países As tropas que terminaram de deixar o Iraque nesta semana não tinham relação direta com a guerra lançada por George W. Bush em 2003: elas foram enviadas em 2014, por Barack Obama, para liderar a ofensiva internacional contra o grupo terrorista Estado Islâmico, à época no ápice de seu poder territorial e militar. Com a organização esfacelada (também por atores internos e pela intervenção da Rússia), Joe Biden declarou, em 2021, que as operações de combate chegaram ao fim, mantendo um contingente para fins de treinamento e apoio administrativo. Desde janeiro, estavam presentes apenas em uma base no Curdistão iraquiano, atacada com frequência durante a guerra contra o Irã. — Estamos comprometidos com a nossa cooperação em segurança, com a nossa luta conjunta contra o Estado Islâmico — disse Biden, ao lado do então premier iraquiano, Mustafa al-Kadhimi, em 2021.— Isso é fundamental para a estabilidade da região, e nossa cooperação antiterrorismo continuará, mesmo à medida que avançamos para essa nova fase sobre a qual vamos conversar. Com agenda própria: 'Eixo da Resistência' se adapta após três anos difíceis e amplia com Irã guerra contra EUA e Israel Mas o sentimento contrário à presença das tropas ganhava corpo dentro do Iraque, com tons de defesa da soberania e memórias pouco agradáveis do caos provocado pela invasão que derrubou Saddam Hussein e jogou o país em uma guerra sectária. Em Washington, muitos também questionavam se ainda fazia sentido manter os militares ali, dentre eles o grupo político de Donald Trump. Uma pressão que culminou, em 2024, com um acordo entre EUA e Iraque estabelecendo as bases para uma nova relação de segurança, dessa vez sem a pegada militar americana.

— Se analisarmos o quadro mais amplo, veremos que é um processo que vem sendo feito há muito tempo — explica Lucena. — Vejo como uma tentativa de fechamento de ciclo, com a passagem de bastão para as forças internas americanas.

Legado sangrento Há mais de quatro décadas os EUA mantêm uma presença direta ou indireta no Iraque. No conflito entre Bagdá e Teerã, nos anos 1980, os americanos deram apoio ostensivo a Saddam Hussein, mas o ditador se tornou persona non-grata quando decidiu invadir o Kuwait em 1990. A Operação Tempestade no Deserto não derrubou o regime, mas impôs sanções brutais e zonas de exclusão aérea. Denúncias infundadas de que haveria armas de destruição em massa forneceram a base para uma nova ofensiva, a Operação Liberdade do Iraque, em 2003, na esteira da Guerra ao Terror de George W. Bush. Bombardeio dos EUA contra Bagdá marca o início da Guerra do Iraque Patrick Baz/AFP Saddam caiu em questão de dias, mas o conflito deixou centenas de milhares de civis feridos ou mortos, além de mais de quatro mil militares americanos, apontam números do projeto Iraq Body Count. O esfacelamento do Estado iraquiano, com o desmonte desorganizado das forças de segurança do regime deposto, deixou expostas divisões sectárias e produziu um sem número de milícias armadas de todos os matizes políticos e religiosos.

— Quando o governo central perdeu o controle interno há 23 anos, as raízes tribais retornaram e se armaram, e nesse tempo surgiu uma geração inteira que cresceu vendo essas milícias como a maior proteção às suas tribos — explicou ao GLOBO Gunther Rudzit, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM. — Se o Estado central não tem o controle efetivo de seu território, acho difícil que essas milícias abram mão de seu poder.

Alerta a ONU: Mais de 8 milhões de refugiados e deslocados estão em risco após cortes na ajuda internacional Grupos terroristas, como a al-Qaeda, viram no caos um terreno fértil para prosperar. Sem rumos ou objetivos claros, as tropas da coalizão liderada pelos EUA se tornaram alvos preferenciais — em feiras de cidades como Bagdá, Ramadi, Basra ou Fallujah, DVDs eram vendidos com vídeos grotescos de atentados e execuções de militares estrangeiros, igualmente compartilhados pela internet.

Militares dos EUA inspecionam caminhão destruído por bomba nos arredores de Fallujah, no Iraque Marwan Naamani/AFP Em 2011, com o país ainda em ruínas, os EUA anunciaram a retirada das tropas de combate, e um militar foi sincero ao ser perguntado por um repórter da rede CBS sobre o que esperava para o futuro. — Depende do que o Iraque fizer depois que sairmos — afirmou, em dezembro de 2011. — Não espero que eles se transformem na Coreia do Sul ou no Japão da noite para o dia. Poder das milícias Como previu o militar, o Iraque pós-Guerra não ficou conhecido pela estabilidade. O surgimento do Estado Islâmico surgiu como ameaça existencial à soberania a minorias como os yazidis ou os curdos, que estiveram na linha de frente contra os extremistas e hoje gozam de autonomia interna. As desavenças entre facções fortaleceram grupos armados — uma brecha explorada pelo Irã, que hoje tem nas milícias xiitas e seus milhares de combatentes um braço de poder fora de suas fronteiras.

Membros do grupo paramilitar iraquiano Kata'ib Hezbollah, pró-Irã, carregam a foto do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morto em ataque aéreo de EUA e Israel AHMAD AL-RUBAYE / AFP Dentro da estratégia do Eixo da Resistência, uma aliança regional liderada por Teerã, elas se mostraram cruciais no enfrentamento com EUA e Israel, quando atingiram bases usadas pelos americanos na região (inclusive no Iraque), e impuseram danos às monarquias árabes do Golfo Pérsico. Há pouco mais de 10 dias, grupos iraquianos atacaram um importante oleoduto saudita, forçando a suspensão das atividades por vários dias. — Manter o apoio a essas milícias é muito importante para os planos que o Irã tem no Oriente Médio, de uma atuação mais ampla e presente — destaca Lucena. — Por isso, não vejo qualquer tipo de desengajamento do Irã no Iraque, até porque perdeu politicamente em outros lugares, como em Gaza, com o Hamas, e o regime de Bashar al-Assad, na Síria.

Portas fechadas: Irã nega retomada de negociações com os EUA após Trump prever novas conversas No acordo firmado em 2024 para a retirada das tropas, havia um compromisso, por parte de Bagdá, para o desarmamento de todos os grupos armados que estejam fora do escopo estatal, em troca da promessa de uma nova relação de segurança com Washington. Para al-Zaidi, uma questão de defesa da soberania iraquiana, referência velada ao poder exercido por Teerã através de seus aliados.

— Isso não é algo opcional. É uma necessidade — disse, em entrevista ao New York Times. — Outros que falaram sobre isso acabaram recuando. Cederam a pressões ou a outras preocupações. Para mim, essa questão, assim como a da corrupção, é uma questão de honra. Pessoas em luto participam do funeral de membros das Forças de Mobilização Popular (FMP) do Iraque MURTAJA LATEEF/AFP O prazo inicial para entrega das armas e para a incorporação às Forças de Mobilização Popular (PMF), um complexo guarda-chuva de milícias integrado ao Estado, foi fixado em 1º de outubro. Há algumas semanas, o Parlamento, onde as PMF têm apoio robusto, aprovou uma lei que lhes deu ainda mais legitimidade e autonomia no sistema de Defesa iraquiano, um plano rejeitado pelos EUA.

— O governo iraquiano não tem capacidade para desarmar esses grupos por conta própria, e me pergunto se ele quer mesmo fazer isso. Desconfio que não, porque seria um elemento desestabilizador do Iraque, e o Irã, que vive um momento de fragilidade interna, não vai querer abrir mão desses grupos — apontou Rudzit.

Guga Chacra: Ataque ao Irã derrubou a Arábia Saudita de seu pedestal Nos últimos dias, o premier Ali al-Zaidi garantiu que o desarmamento será realizado em etapas, e que será concluído até o fim de junho de 2027. Algumas milícias, como as próximas ao clérigo xiita Moqtada al-Sadr, iniciaram a entrega das armas — a expectativa é de que mais de 6 milhões sejam recolhidas —, mas outras, como a Kata'ib Hezbollah e a Harakat al-Nujaba, rejeitam a proposta.

— Quando o acordo foi assinado, ninguém contava com a decisão de Trump de atacar o Irã, e muitas milícias já disseram que não vão se desarmar enquanto a guerra não acabar, e o americano criou mais um problema para si — diz Lucena. — Hoje, o Irã joga contra o tempo, esperando as eleições de novembro nos EUA para entender como se colocar e como impor mais custos a Trump. As milícias vivem essa mesma expectativa.

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