Resultados das eleições no Peru seguem indefinidos, e disputa por segundo turno é acirrada

 

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Os resultados das eleições de 2026 no Peru continuam em andamento, e ainda não há certeza sobre qual candidato avançará para o segundo turno ao lado de Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos. A contagem rápida realizada pela Ipsos-Transparência, com 95,7% das atas processadas, coloca Fujimori na liderança com 17,1% dos votos. Na sequência aparecem Roberto Sánchez, com 12,4%, Rafael López Aliaga, com 11,3%, e Jorge Nieto, com 10,4%. Segundo a consultoria, os três últimos estão em empate técnico.

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De acordo com a Ipsos, a ordem entre o segundo, terceiro e quarto lugares pode variar nas próximas horas. Os resultados têm nível de confiança de 95%. O presidente da Transparência, Álvaro Henzler, afirmou que o primeiro lugar está definido e que Fujimori teria assegurada sua vaga no segundo turno. Já a definição do segundo colocado depende da margem de erro.

Sánchez apresenta margem de erro de cerca de 1,3%, enquanto López Aliaga tem 1,2% e Nieto 0,9%. Ricardo Belmont aparece em quinto lugar, com 10,2% e margem de erro de 0,5%, sendo descartado para uma eventual segunda rodada. Henzler destacou que, com os dados disponíveis, não é possível determinar qual candidato avançará e pediu à população que aguarde “com tranquilidade os resultados finais”.

Ele reiterou que se trata de uma “amostra estabilizada”, o que garante confiança nos números, e explicou que os resultados não coincidem, por ora, com a apuração da Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), pois o sistema oficial prioriza atas provenientes de Lima, Callao e províncias próximas. O diretor da Ipsos, Alfredo Torres, reforçou que será necessário aguardar o cálculo oficial.

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Os resultados oficiais da ONPE também seguem em atualização constante. Até o fechamento da apuração, 57,078% das atas haviam sido processadas, com Fujimori em primeiro lugar, com 16,927%, seguida por López Aliaga, com 14,163%, e Nieto, com 12,631%.

Nos cortes divulgados pela ONPE a cada 15 minutos, cerca de 130 votos separavam López Aliaga e Nieto, com vantagem momentânea de Aliaga, ex-prefeito de Lima, na disputa pelo segundo lugar. Ao mesmo tempo, atas observadas e encaminhadas aos Jurados Eleitorais Especiais (JEE) poderiam alterar o cenário. Até 53,596% das atas processadas, 137 haviam sido enviadas para revisão e possível nova contagem.

A abstenção também tem papel relevante. Segundo a ONPE, com 56,318% das atas processadas, 3.372.990 peruanos não votaram, enquanto 11.987.400 participaram do pleito. No Peru, 3.282.766 pessoas deixaram de comparecer às urnas, e no exterior foram 90.224. Até o momento, 43,8% dos eleitores votaram, enquanto 12% não o fizeram, restando ainda mais de 46% das atas a serem processadas.

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Apesar dos resultados apertados, representantes da Transparência descartaram fraude eleitoral. Henzler afirmou que não foram encontradas irregularidades significativas e que não há evidências de manipulação nas mesas de votação. Segundo ele, tanto a contagem dos votos quanto o traslado das atas ocorreram normalmente. Observadores, afirmou, não relataram problemas, embora tenha havido atrasos.

A votação continuou na segunda-feira em 13 centros eleitorais de Lima, devido à falta de material eleitoral. As 187 mesas que não foram instaladas no domingo foram abertas no dia seguinte. A jornada teve longas filas, de até quatro quarteirões, no colégio San Luis Gonzaga, em San Juan de Miraflores, onde cerca de 8 mil eleitores deveriam votar. Houve denúncias de atraso no início do processo, apesar de as mesas estarem instaladas, devido à ausência de fiscais.

Em meio às críticas à ONPE, a Diretoria contra a Corrupção da Polícia Nacional do Peru prendeu José Samané Blas, gerente de Gestão Eleitoral da ONPE. Horas depois, o Júri Nacional de Eleições (JNE) anunciou que apresentará denúncia penal contra o chefe da ONPE, quatro funcionários da entidade e o representante da empresa Galaga, por supostos crimes contra o direito ao voto.

Pessoas votam em uma escola em Lima em 13 de abril de 2026, após falhas logísticas impedirem dezenas de milhares de pessoas de votar nas eleições no dia anterior

ERNESTO BENAVIDES / AFP

O JNE também denunciou criminalmente o chefe da ONPE, Piero Corvetto, e outros quatro funcionários pelos graves problemas que surgiram ontem durante o processo eleitoral. A denúncia contra Corvetto propõe investigar supostos crimes de abuso de autoridade, atentado contra o direito de sufrágio, omissão de atos funcionais e obstrução do processo eleitoral. Segundo o documento, Corvetto teria tido conhecimento prévio da crise logística e tecnológica, mas não teria informado oportunamente o plenário do JNE.

O próximo presidente do Peru enfrentará o desafio de lidar com o aumento da criminalidade e a instabilidade política que levou o país a ter oito presidentes na última década. Embora nada esteja certo sobre seu próximo adversário, Fujimori, de 50 anos, comemorou a suposta derrota de seus detratores na segunda, afirmando que "o inimigo é a esquerda".

Se esse cenário se confirmar, o Peru se juntaria à onda de governos de direita na América Latina alinhados com o governo de Donald Trump. Em entrevista à AFP, Fujimori, líder do Fuerza Popular, prometeu expulsar imigrantes ilegais e atrair investimentos dos EUA para seu país.

Instabilidade nacional

O Peru está mergulhado em uma onda de violência e criminalidade, a principal preocupação dos eleitores peruanos. Desde 2018, os homicídios dobraram e a extorsão aumentou oito vezes. A campanha eleitoral focou em promessas de uma postura firme no combate ao crime, com algumas propostas radicais vindas dos próprios candidatos.

Fujimori promete retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos para reinstaurar juízes "sem rosto" (anônimos) no combate ao crime, uma política implementada por seu pai na década de 1990, mas cujo fracasso o obrigou a perdoar centenas de presos posteriormente. Ela também planeja militarizar as prisões e fazer os detentos trabalharem "em troca de comida".

López Aliaga, que se autodenomina "Porky" por sua semelhança com o porco dos desenhos animados, oferece prisões isoladas na Amazônia e afirma que irá "caçar, um por um", os imigrantes venezuelanos sem documentos para devolvê-los ao seu país.