Resultado positivo do Brasil é o principal fator na queda do desmatamento do mundo inteiro em 2025, diz relatório
O mundo perdeu, em 2025, 4,3 milhões de hectares de florestas tropicais, uma área do tamanho da Dinamarca. No entanto, isso significou uma redução de 36% do desmatamento em relação ao ano anterior. Segundo a World Resources Institute (WRI), organização global de pesquisa em meio ambiente e clima, responsável pelo relatório, o trabalho no Brasil foi o principal fator a impulsionar esse resultado positivo.
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Os dados, produzidos pela Universidade de Maryland (EUA), foram divulgados nesta quarta (29). Eles estão disponíveis na plataforma Global Forest Watch (GFW) e no Global Nature Watch. Apesar da redução, o número de desmatamento segue em alto patamar, destaca a ONG, que alerta para a ameaça provocada pelos incêndios florestais: 77% das perdas do ano passado foram causadas pelo fogo.
Somente no Brasil, segundo o levantamento do WRI, a redução de desmatamento foi de 42%. O sistema oficial do governo brasileiro — o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — apontou diminuição de 11% no último ciclo, mas o período analisado é diferente. Enquanto o WRI observa o ano inteiro, o Prodes levanta o ciclo de agosto de um ano a julho do ano seguinte. O importante, destacou o WRI, é que a mesma tendência foi confirmada.
— O progresso do Brasil mostra o que é possível quando a proteção das florestas é tratada como uma prioridade nacional — afirmou Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil.
Por outro lado, ela chamou a atenção para o risco do fogo. Dos 1,63 milhões de hectares de florestas tropicais primárias (as que ainda não foram significativamente alteradas pela ação humana) que o Brasil perdeu em 2025, 65% foi devido aos incêndios. O número total é o menor da série histórica do levantamento, iniciado em 2002. Ainda assim, é equivalente a quase três vezes o território do Distrito Federal.
Em 2024, quando houve recorde de incêndios no país, a quantidade desmatada foi de 2,83 milhões de hectares.
-- A paisagem do Brasil está se tornando mais inflamável, e o aumento do risco de incêndios significa que a fiscalização por si só não será suficiente. Proteger esses avanços exigirá ampliar a prevenção liderada pelas comunidades e construir uma economia que recompense as florestas em pé —complementa Sandrini.
A redução das taxas do Brasil é fruto, afirma Sandrini, do fortalecimento de políticas ambientais e da fiscalização. A atual gestão Lula relançou o plano federal de combate ao desmatamento (PPCDAm), que havia sido descontinuado, e aumentou as penalidades para crimes ambientais.
Os estados que registraram maior queda no índice de perdas de florestas primárias em 2025 foram o Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Roraima, todos com redução acima de 40%. Na contramão, estão o Maranhão, que registrou aumento na perda florestal, e Rondônia, que permaneceu com um índice considerado elevado (215 mil hectares).
Entre os biomas, os melhores resultados foram na Amazônia e no Pantanal (redução de 41% e 70%, respectivamente). Na Caatinga, houve aumento de 2%, e no Cerrado, Mata Atlântica e Pampa reduções, respectivas, de 12%, 6% e 5%.
Mirela Sandrini agora cobra a transição para uma economia de baixo carbono, e a implementação de programas financeiros que remunerem a conservação florestal, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que foi lançado na COP-30. Como mostrou O GLOBO, a elaboração do plano brasileiro de transição energética, com um “mapa do caminho” para a redução do uso de combustíveis fósseis, está atrasada e já estourou em mais de dois meses o prazo inicial.
— Poucos países têm tantas oportunidades para fazer uma transição para uma economia de baixo carbono quanto o Brasil — explica Mirela Sandrini, do WRI Brasil. — Agora, o país precisa avançar na implementação de mecanismos para financiar a proteção da natureza, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e os mecanismos de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA)”.
Patamar alto
Apesar do resultado positivo em 2025, o número de 4,3 milhões de hectares é 46% maior do que há uma década, com florestas primárias desaparecendo a uma taxa de 11 campos de futebol por minuto. Elizabeth Goldman, codiretora do Global Forest Watch, do World Resources Institute, disse que os dados do ano passado são animadores, mas destacou que há previsão de El Niño no segundo semestre, o que pode aumentar os incêndios florestais.
-- Fogo e mudanças climáticas se retroalimentam e, com a previsão do El Niño para 2026, investimentos em prevenção e no enfrentamento à essa questão serão essenciais à medida que condições extremas propícias a incêndios se tornem a norma. — disse Goldman.
Além disso, as taxas ainda estão muito acima do necessário para o cumprimento da meta de zerar o desmatamento em 2030, compromisso assumido por mais de 140 países na Declaração de Líderes de Glasgow. O WRI frisou que as florestas tropicais primárias "são vitais para a estabilidade climática, a biodiversidade e para milhões de pessoas que dependem delas para alimentação, renda e proteção contra eventos climáticos extremos".
Para Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI, a meta só será alcançada com a manutenção de investimentos no setor e implementação de instrumentos como o TFFF e a regulamentação europeia contra o desmatamento (EUDR).
-- O progresso observado em países como Brasil e Colômbia é encorajador, mas ainda incerto. São exemplos do que pode ser feito, mas também lembram o quanto o futuro das florestas depende de vontade política e resiliência diante das mudanças climáticas.
