Resíduos viram novos insumos, mas é preciso escala

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Fonte da notícia: Globo Globo

O Brasil tem casos bem-sucedidos de empresas que transformam materiais descartados em matéria-prima por meio da economia circular - ações que envolvem processos como o ecodesign e a logística reversa. Apesar desses exemplos, segundo especialistas, é necessária uma mudança sistêmica que enxergue o processo como uma fonte de insumos e novas cadeias produtivas para esse movimento ganhar escala. “O país tem potencial para ser um fornecedor de commodities circulares e pode, por exemplo, fornecer produtos low carbon para a Europa”, afirma Beatriz Luz, presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec). “A essência da circularidade, para acontecer em escala, precisa de letramento, de política pública e investimento. Então, é transformar o olhar de custo em investimento.” Para Ana Lúcia Borba Carvalho, diretora do Noz, Instituto de Pesquisa e Prática em Economia Circular, uma política industrial exige uma abordagem integrada. “A economia circular está na transição energética, nas grandes indústrias, mas é importante olhar também para os pequenos negócios que estão todo dia nessa economia e têm importante participação no PIB”, afirma. Borba, que trabalha há mais de 20 anos na economia circular, transformando lonas de PVC em bolsas e acessórios, fez uma parceria com a deeptech Brechó do Carbono para buscar uma solução para o fim do ciclo de vida dos produtos. A startup - incubada no ecossistema de pesquisa e inovação da Universidade de São Paulo (USP) - foi idealizada pela PhD em tecnologia química Jenny Sayaka Komatsu e produz carvão ativado a partir de resíduos têxteis. “Esse processo permite converter materiais que seriam descartados em soluções de alto valor agregado para aplicações ambientais, industriais e agrícolas”, diz Komatsu, que busca investimentos para uma planta industrial. Os conceitos defendidos por Luz e Borba já são aplicados por empresas pioneiras na economia circular, como a Gerdau. A companhia que começou a produzir aço em 1948 e já transformava os resíduos industriais, é hoje a maior recicladora de sucata da América Latina - transformando cerca de 10 milhões de toneladas por ano. “No mundo, 70% do aço é feito com minério e 30% com sucata. Na Gerdau é exatamente o oposto”, comenta Cenira Nunes, gerente-geral de meio ambiente da Gerdau. Nunes ressalta que estes 30% decorrem da mineração sustentável, como nas operações em Minas Gerais, em que foi adotado o empilhamento a seco de 100% dos rejeitos, dispensando o uso de barragens. No ano passado, o BNDES aprovou um financiamento de R$ 566 milhões para a Gerdau construir o mineroduto - que faz o transporte do minério de ferro para a fábrica - e um Centro de Reciclagem de Sucata em Pindamonhangaba (SP). “A gente faz a separação do aço, que é infinitamente reciclável, ele não perde as características, então a gente pode reciclar eternamente”, afirma Nunes sobre o uso do megashredder, equipamento que transforma a sucata de aviões, carros, bicicletas e até de plataformas de petróleo, entre outros. No ecodesign, a Natura se tornou referência no uso de plástico 100% reciclado. “Para nós, a circularidade começa antes de o produto chegar ao consumidor. Já no desenvolvimento buscamos utilizar o ecodesign para entender como podemos usar menos recursos, reduzir os impactos e criar uma embalagem que possa ser reutilizada ou voltar à cadeia produtiva”, diz Ângela Pinhati, diretora de sustentabilidade da Natura. Em 2025, com o programa Natura Elos, a empresa conectou 53 cooperativas, beneficiou 3 mil catadores e engajou fabricantes de embalagens para recuperar 17,9 mil toneladas de resíduos pós-consumo. Segundo Pinhati, as emissões associadas ao tratamento de resíduos somaram 126.317 toneladas de CO2 equivalente, levando em conta diferentes formas de destinação pós-consumo. Na logística reversa da DPaschoal, mais de 2 milhões de pneus foram reciclados ou reaproveitados desde 2021 - cerca de 12 mil toneladas de borracha destinadas a asfalto, pisos e artefatos industriais. A iniciativa evitou a emissão de mais de 24 mil toneladas de CO2 em processos produtivos equivalentes. Segundo Alessandro Vetorazzi, diretor-geral da DPaschoal, a companhia adota diferentes soluções ambientais para componentes automotivos, acumulando, desde 2023, o tratamento e a reciclagem de 28 toneladas de filtros, 434,6 toneladas de baterias e 231,2 toneladas de peças.

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