República de Veimar: prédio no Centro do Rio passa a abrigar artistas independentes e ganha fama como ‘Nova Bhering’

 

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Quando o artista Nuno Ramalho conheceu o Edifício Veimar, localizado na Rua México, coração do Centro do Rio, encontrou apenas “entulho e fantasmas”. Era novembro de 2024, e os seus antigos ocupantes, a maior parte deles escritórios de advocacia e contabilidade, haviam deixado as salas durante a pandemia. Pela primeira vez desde a sua construção, na década de 1950, o prédio ficara completamente abandonado.

Na cena artística da cidade, corria a notícia de que aqueles espaços poderiam ser convertidos em ateliês a baixo custo para artistas novos e independentes. Para atrair esse grupo conhecido por suas dificuldades financeiras, a proprietária propunha isenção de aluguel, cedendo as salas em troca apenas do pagamento das despesas condominiais.

Fachada do Veimar, na Rua Mexico 164

Ana Branco/ Agência O GLOBO

Nuno foi o primeiro a se instalar. Hoje, quase dois anos depois, 28 artistas ocupam salas no Veimar sob o mesmo arranjo. O movimento remete à experiência da antiga Fábrica da Bhering, complexo industrial na Zona Portuária do Rio que, a partir dos anos 2010, foi progressivamente ocupado por artistas, designers e pequenos empreendedores criativos.

— Está acontecendo um movimento histórico de artistas saindo da Zona Sul para o Centro, o que acaba mudando tanto a cena artística quanto o próprio Centro da cidade — diz Nuno. — É algo que aconteceu antes em Nova York e em São Paulo.

Para Nuno, a mudança para o Veimar não é apenas econômica. Cria da Zona Sul, ele cresceu acostumado com o ambiente de “senhoras com cachorrinhos de raça”. Seu primeiro ateliê foi na Glória, um bairro mais em sintonia com a sua pesquisa, que investiga a relação entre publicidade, pornografia e mídia de massas. Agora, no caldeirão cultural do Centro, ele encontrou um território ainda mais fértil, perto de prostíbulos, sex shops e bancas de jornais com material explícito à mostra.

— Aqui é uma paisagem muito mais cosmopolita — diz o artista. — Agora que tenho ateliê, me mudei para cá também. Tem semanas que eu não saio do bairro. Não tem por quê.

Sala de recepção

Os artistas gráficos e pintores Daniel Frickmann e Augusto Portella chegaram ao Veimar logo depois de Nuno, por indicação deste último. A dupla saiu de um ateliê no pé do Morro de São João, em Botafogo, onde ocupava uma casa precária, repleta de goteiras e que vivia sendo invadida por gambás. No novo prédio, encontrou enfim um espaço seguro para o trabalho que também coubesse no seu bolso.

— A mudança foi revolucionária para o nosso trabalho — diz Frickman. — Pela primeira vez tivemos uma certa salubridade, a tranquilidade de deixar um quadro e saber que vai ficar bem guardado. Fora a possibilidade de receber pessoas num ambiente mais profissional. O espaço de ateliê acaba não sendo só de produção, mas também de recepção de potenciais colecionadores.

O artista Nuno Ramalho em seu ateliê no Veimar

Ana Branco/ Agência O GLOBO

Assim como Nuno, a dupla diz não se identificar com a “estética da Zona Sul”:

— Os bairros onde tradicionalmente ficam as grandes galerias, como Gávea e Ipanema, sempre foram inviáveis para os artistas independentes — diz Portella. — E isso começa a acontecer também em áreas da Zona Sul que antes eram mais acessíveis. Então, é normal que as pessoas passem a explorar regiões menos procuradas, espaços vistos como perigosos. A gente sabe que a chegada de artistas é sempre o primeiro sinal da gentrificação.

Portella conta que essa transformação já começa a ser percebida no cotidiano do entorno:

— O dono da papelaria aqui da rua me contou que resiste como uma das últimas lojas do tipo da área, porque aposta no futuro do bairro. Falou de novos hotéis, de edifícios residenciais surgindo no entorno, e que a perspectiva é que, em cinco ou dez anos, o Centro tenha uma ocupação mais voltada para moradia. Muita gente está esperando por essa transformação e, nós, artistas, já estamos tendo um papel nisso.

Os artistas da 'Nova Bhering'

Esta também é a esperança da arquiteta Patrícia Agra, coproprietária do Veimar e responsável pelo projeto de ocupação. O prédio foi batizado em homenagem à sua mãe, Dona Veimar (ela deveria se chamar Weimar, como a cidade alemã e a antiga república do país europeu, mas o padre, em plena Segunda Guerra Mundial, recusou-se a batizá-la com a grafia original). O primeiro contato com os artistas se deu através da filha de Patrícia, a designer Ana Cristina Agra, que também mantém um ateliê no prédio. Dona de metade do prédio, Patrícia já tem todas as suas salas ocupadas e há lista de espera para as próximas que vagarem.

— O modelo começou mais como uma maneira de manter o prédio vivo do que de ter ganho financeiro com ele — diz Patrícia, que no início da pandemia esvaziou salas repletas de computadores e outros suportes de escritórios. — Não envolvemos nem corretor. Começou no boca a boca, um foi falando com o outro. Agora, virou um movimento. Fico até emocionada.

Brincando com o nome do prédio, muitos evocam a efervescência cultural da República de Weimar, período em que arte, política e vida urbana se entrelaçaram de forma intensa. Mas, após abrir seus ateliês no último ArtRio, em setembro, o grupo ganhou um novo apelido do público: “Nova Bhering.”

A convivência no prédio deu ao heterogêneo grupo de ocupantes um espírito de coletivo. Cada um em sua área (design, pesquisa, pintura, tecelagem...), eles compartilham a mesma vontade de pertencer ao movimento e trocam experiências, materiais e até dividem o café. O antigo espaço de escritórios respira arte. Até mesmo o porteiro do prédio, Marcos, iniciou aulas de pintura no curso de Nuno Ramalho.

— Estar perto de outros artistas gera troca ideias, encontros e espaços para outras projetos — diz Joana Passi, que divide um ateliê com a mãe, a ceramista Elizabeth Passi de Moraes. — Já vieram artistas de fora, gente querendo filmar, fazer sessões de modelo vivo... Essa convivência acaba criando um ambiente de troca que influencia diretamente o que cada um produz.

Elizabeth Passi de Moraes e Joana Passi

Ana Branco/ Agência O GLOBO

Em alguns casos, os interesses artísticos convergem. Três ocupantes do Veimar criam seus trabalhos a partir de imagens antigas. A artista visual, arte educadora e laboratorista Amanda Monasterio produz suas próprias fotos analógicas, muitas vezes usando processos do século XIX, dos primórdios da fotografia. Mas ela também se apropria de acervos familiares para investigar os limites da memória e sua inscrição no mundo físico.

— Faço uma espécie de ressignificação de arquivos — diz a artista cearense. —Meu trabalho passa muito pela materialidade da imagem, algo que sinto cada vez mais ausente hoje, num contexto em que tudo tende ao virtual.

No Veimar, Monastério ganhou interlocutores como Rafael Cosme e Joana Passi. O primeiro faz um trabalho de resgate do que ele chama de “fotografia vernacular”, ou melhor, dos cliques de pessoas comuns antes do advento do digital. O carioca já garimpou um acervo de 300 mil imagens em feiras de antiguidades, leilões e nos famosos “shoppings-chão” da cidade.

Já Passi achou na sua sala um espaço físico adequado para abrigar um vasto acervo pessoal, com o qual constrói narrativas visuais. Seu trabalho mais recente reúne fotografias, cadernos, anotações e materiais de pesquisa — alguns deles com “intervenções domésticas”, como desenhos feitos pelos filhos sobre as páginas.

— É um quebra-cabeça — diz ela. — Misturo camadas muito diferentes, do íntimo ao acadêmico, e tento entender como isso se organiza.

Formado em Design pela PUC-Rio e mestre em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa, Rodrigo Hull chegou há pouco mais de um ano ao prédio, pronto para desenvolver uma pesquisa na tecelagem. Após trabalhar por uma década no mercado da moda, ele passou a — literalmente — desmanchar peças de roupa para transformá-las em linha e, a partir daí, reconstrui-las. Uma forma de “desfazer a própria lógica da moda”, como ele define, e que exige um ateliê com dimensões compatíveis.

— Eu sabia que precisava de uma sala grande, com pé-direito alto, em que eu pudesse instalar peças suspensas e trabalhar em diversas alturas — explica. — Em outros modelos de aluguel, nunca conseguiria um espaço como esse.