Repórter de ELA faz relato sobre o desafio de viver experiências sem postar nas redes: 'Viciada em dopamina'

Repórter de ELA faz relato sobre o desafio de viver experiências sem postar nas redes: 'Viciada em dopamina' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Se uma árvore cai na floresta sem ninguém por perto, ela faz barulho? O filósofo irlandês George Berkeley formulou essa pergunta em 1710 para retratar uma inquietação maior: o que não é testemunhado, de fato, existe? Em pleno 2026, na era da hiperconectividade e do vício em redes sociais, o dilema me parece ainda maior.

Por isso topei o desafio de viver experiências cinematográficas tentando não postá-las. A primeira prova, no início de setembro, foi uma viagem de cinco dias a destinos paradisíacos da Grécia.

Depois, vieram jantares de luxo, um red carpet e a abertura de uma das maiores feiras de arte do país. Eventos cujas imagens me renderiam uma “chuva de likes”, mas ficaram guardadas no rolo da câmera e na minha memória.

O desafio não foi fácil, principalmente pelo corte geracional. Tenho 26 anos, sou nativa digital e cronicamente on-line.

Estou entre os 44% da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010), que, segundo levantamento realizado pelo aplicativo RiseGuide, passam mais de seis horas por dia nas redes. Algumas amigas para as quais comentei sobre a viagem me sugeriram publicar stories nos close friends, longe dos olhares das minhas editoras, mas resolvi levar a sério a missão de ficar off-line.

No primeiro momento, supria-me que os registros fossem restritos a conversas de WhatsApp com dois familiares, meu namorado e sete amigos. Mas, bastaram fotos com ângulos perfeitos e cenários deslumbrantes para me ver fazendo simulações de postagem.

Entrava no aplicativo, escolhia as imagens, escrevia uma legenda, pensava numa música de fundo e... descartava.

Djavan no leilão da ONG Spectaculu Divulgação

Em conversa sobre a experiência com o psicanalista André Alves, co-apresentador do podcast “Vibes em análise”, percebi que sou viciada em dopamina. Tal qual pessoas que entram em sites de simulação de compras, lá estava eu brincando de postar para suprir um desejo momentâneo.

“É uma forma de compulsão digital. A experiência psicossomática passa por um circuito de recompensa (viver + publicar = ganhar likes, ser querida).

E essa engenharia da insuficiência nos leva a precisar mais disso e provoca ansiedades”, afirma o psicanalista. “Essa é a tragédia do nosso tempo.”

Já de volta ao Rio, estive à prova de tentações instagramáveis durante todo Leilão da ONG Spectaculu, no Museu do Amanhã, em meio à estrutura grandiosa da festa, às piadas de Marcelo Adnet como leiloeiro, a um jantar sofisticado e ao meu look digno de registros pelas horas gastas revirando o guarda-roupa.

Até assistir ao show de um dos meus cantores favoritos ao fim do evento, Djavan, a menos de cinco metros de mim. Gilberto Gil subiu ao palco logo depois.

Não aguentei. Postei um vídeo nos stories no dia seguinte, como se isso não fugisse à pauta e revelasse algo importante para minha audiência.

“Tendemos a multiplicar nossa satisfação, mas, no fundo, trata-se do espectro narcísico da experiência digital: composições de nós mesmos para extrair opinião, inveja, ciúmes, ódio ou admiração alheia”, argumenta o psicanalista Christian Dunker. Festival do Rio

CLAUDIO ANDRADE Foi só na cerimônia de abertura do Festival do Rio, no Cine Odeon, que consegui viver uma experiência totalmente off-line.

Sequer peguei o celular. Minha atenção se voltou para uma mulher sentada à minha frente, performando uma felicidade na câmera que esfriou assim que parou de gravar, como se as sensações aflorassem mais na tela do que diante do próprio nariz.

De acordo com Carol Kelmer, técnica em mindfullness, o cérebro precisa ser recondicionado para voltar a ter a habilidade da atenção plena. “Perdemos o tempo da resposta natural das coisas.

Por isso, precisamos treinar nossa mente a estar presente, sem ansiedade e cobranças por conectividade. Pensar em postar já nos tira do ‘agora’, e foca no ‘depois’”, afirma Carol, sugerindo um exercício diário para ancorar o corpo no presente.

“Pela manhã, sentado com a coluna ereta, recomendo uma respiração consciente, inspirando 30 vezes, sob contagem lenta.” Estou disposta a tentar.

E, talvez, eu não precise deixar de postar para estar presente. Mas posso aprender a não sair do momento antes que ele termine.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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