Na última sexta-feira (23/10), uma carga de 27 toneladas de carne bovina saiu, pela primeira vez, do interior do Nordeste brasileiro com destino à China. O contêiner carregado com cortes do dianteiro percorrerá cerca de 200 quilômetros entre o município de Canhotinho, no agreste de Pernambuco, e o Porto de Suape, na região metropolitana do Recife.
De lá, seguirá de navio em novembro até Xangai, do outro lado do mundo, onde chegará apenas em 2027. A exportação é realizada pela Masterboi, cuja unidade pernambucana, inaugurada em 2022, foi habilitada para vender carne bovina para a China no fim de setembro deste ano.
O frigorífico da Supremo Carnes, em Carlos Chagas (MG), que pleiteava o acesso desde 2018, também foi autorizado. Ao todo, o Brasil tem 69 plantas com habilitação para exportar aos chineses, de 32 empresas do setor.
Elas estão localizadas em 12 Estados, apenas uma no Nordeste. A abertura das portas do principal cliente da cadeia frigorífica brasileira pode significar uma “virada de chave” para a receita e o posicionamento de mercado desses frigoríficos, com reflexos positivos na cadeia pecuária e na economia das regiões onde estão instalados.
Já existem planos para expandir a produção nas duas unidades recém-habilitadas. A dúvida, no entanto, mora na velocidade e no tamanho do acesso que elas terão ao mercado chinês em função da cota para carne bovina imposta por Pequim até 2028.
A unidade da Masterboi em Pernambuco abate cerca de 800 animais por dia e já exporta regularmente para cerca de 40 países, além de destinar boa parte da carne ao mercado interno. A estratégia será abater 920 animais por dia.
“A habilitação de Canhotinho amplia nossa capacidade de acessar esse mercado e, principalmente, permite melhorar o valor obtido com o conjunto da carcaça”, disse Nelson Bezerra, sócio-fundador e presidente da Masterboi, ao Valor. A companhia, fundada por ele e a irmã Guilhermina, atual vice-presidente, deve faturar R$ 5,5 bilhões neste ano.
Um dos principais ganhos da habilitação para a China é agregar valor aos cortes do dianteiro do bovino — como músculo, peito, acém, peixinho, pescoço, paleta e vazio — cuja demanda e preços são menores no Brasil. O movimento também deverá se refletir na expansão da oferta de animais na região e na valorização do rebanho, que aumentou mais de 800 mil cabeças em 2025, segundo Bezerra.
A instalação do frigorífico no agreste nordestino, há quatro anos, já ajudou a dar maior previsibilidade de compra ao pecuarista e balizou novos investimentos de criadores de nelore, afirmou. A Supremo Carnes já começou as negociações e também pretende realizar o primeiro embarque para a China em novembro.
A empresa deverá faturar R$ 1,5 bilhão neste ano e projeta incrementar a receita em 30% em 2027, boa parte com ajuda das vendas ao mercado chinês, disse Sandro Oliveira, CEO da empresa. O grupo já exporta cerca de 40% da produção das unidades em Minas Gerais.
Agora, com a habilitação para a China, a expectativa é chegar a 60%. As cargas atualmente vão para cerca de 30 países, como Rússia, Indonésia, Hong Kong, Egito, Cingapura e para o Oriente Médio.
Para alcançar esse desempenho, o executivo planeja expandir a capacidade de abate do frigorífico autorizado de 640 para 850 animais por dia já no próximo ano. A habilitação aumentará a procura pelo chamado “boi China”, que precisa ser abatido com menos de 30 meses para atender exigências dos compradores, o que melhora a remuneração para os criadores mineiros, disse.
“Estamos abatendo cada dia mais animais mais jovens e o pecuarista também está sendo mais bem remunerado. Minas Gerais tem uma boa quantidade de animais que atende ao protocolo de idade”, contou Oliveira.
A Masterboi tem uma planta em São Geraldo do Araguaia (PA) que já exporta desde 2019 para a China, destino de 40% das vendas externas totais da companhia. A unidade paraense também foi habilitada na semana passada para vender cálculo biliar aos chineses, mercado aberto neste ano e que também tem potencial bilionário para o Brasil.
O plano da empresa é aproveitar os relacionamentos comerciais e o conhecimento adquirido no período para incrementar gradualmente os volumes enviados para os chineses a partir de Pernambuco. A operação que marcou a estreia da unidade de Canhotinho da Masterboi no mercado chinês foi planejada para que a carga entre no país asiático apenas no ano que vem porque a cota estabelecida ao Brasil neste ano, de 1,106 milhão de toneladas de carne in natura sujeita à tarifa de 12%, já foi totalmente preenchida.
Em 2027, o volume que poderá ser exportado sem a taxa extra de 55% é de 1,128 milhão de toneladas. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) defende que haja a administração da cota pelo governo brasileiro, com a divisão proporcional de volumes e mais previsibilidade nos negócios, para evitar uma corrida das empresas às vendas.
Sem isso, os embarques poderão ser interrompidos em meados de abril de 2027, projetou a entidade recentemente. “Para uma unidade recém-habilitada, o critério de distribuição é especialmente relevante.
A habilitação sanitária abre o mercado, mas a possibilidade efetiva de desenvolver as exportações dependerá também do volume ao qual a planta terá acesso dentro da cota”, avaliou Bezerra, da Masterboi.
Globo Rural