Rejane Faria leva pouco mais de dois minutos até a primeira aparição em “Vicentina pede desculpas”, longa em que interpreta a personagem do título da obra. Dali em diante, a atriz, de 65 anos, segue em todas as cenas do filme que chega à Netflix no dia 20, depois de passar pelos cinemas.
“Das 40 diárias, estive em 39. Só não participei da sequência do acidente”, comenta, sobre a queda de um ônibus do alto de um viaduto exibida no início da história.
O coletivo é conduzido por Wesley (Renato Novaes), filho da personagem, o que motiva a protagonista a buscar os familiares das vítimas para se desculpar. “Foi um desafio.
Mas, ao mesmo tempo, é a melhor coisa para um ator, né? É muito gostoso saber como aquela história depende do seu esforço.” Música: Majur lança novo álbum em que canta a cura após separação
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Tão logo o trabalho começou a correr os festivais, o reconhecimento se materializou na forma de aplausos calorosos e premiações. Rejane foi ovacionada em San Sebastián, na Espanha, elogiada pela crítica internacional e celebrou, ao lado do elenco e do diretor, Gabriel Martins, a conquista de troféus como o de Melhor Longa-Metragem Ficção por Voto Popular, no Festival do Rio.
“Eu me sinto envaidecida”, reconhece a mineira de Belo Horizonte. “Mas sempre nesse lugar de usar minha arte como possibilidade de entregar coisas boas e fazer com que as pessoas se emocionem e pensem nas próprias vidas.”
O novo filme de Gabriel, com quem Rejane já havia trabalhado em “Marte um” (2022), vai fundo nesta missão. Além de abordar a imensurável dor de uma mulher diante da perda do filho, explora a temática do luto a partir das diferentes reações dos familiares das vítimas do acidente.
“Quando recebi o roteiro, comecei a pensar sobre como agiria em algo do tipo. Seria insuportável”, comenta a atriz, mãe de Lucas, de 40 anos, e Mayan, de 37.
“E, para além do luto, tem a culpa em saber se o Wesley provocou ou não o ocorrido. Assim como comemoramos e sentimos ter participado do sucesso dos nossos filhos, quando se casam, terminam a faculdade ou montam uma empresa, não há como nos isentarmos diante dos fracassos deles.”
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Embora tenha nutrido, desde jovem, o gosto por atuações artísticas, incluindo a passagem por uma banda de garagem que tocava nos bares de Belo Horizonte, Rejane optou por buscar profissões mais seguras no começo da vida adulta, ao tornar-se mãe. Trabalhou na serralheria da família e foi aprovada num concurso dos Correios, onde atuou como funcionária pública até 2017.
Com os filhos encaminhados, entrou, aos 40 anos, para a faculdade de Teatro da UFMG e fundou, com amigos, o Grupo Quatroloscinco — Teatro do Comum, ainda em atividade. “Eu tinha perdido alguma coisa lá atrás, que era a oportunidade de me identificar como alguém capaz de fazer algo pela Humanidade.
E aí tive pressa e muita vontade de tirar o atraso.” O sucesso nos cinemas e na TV (ela está nos elencos das séries do Globoplay “Pablo & Luisão” e “Resposta ao tempo”, esta ainda em gravação, e atuou em cinco filmes exibidos na última Mostra de São Paulo) é, segundo a atriz, consequência da sede criativa.
“Quando fundamos o grupo de teatro, queríamos rodar o Brasil e criar uma memória”, conta. “Então, os trabalhos no audiovisual são desdobramentos dessa profissionalização.
A falta de ambição pelo sucesso me ajudou. A minha ambição era toda pelo trabalho.”
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Para “Vicentina”, Gabriel Martins afirma ter estabelecido uma troca “sem filtros” com a protagonista. “Temos intimidade para sermos honestos e criarmos o melhor trabalho possível”, afirma o diretor.
“Os momentos mais tensos emocionalmente e tecnicamente viravam potência criativa. Existia um pacto afetivo e profissional muito grande.”
A atriz volta aos cinemas no próximo dia 26 com a estreia de “Yellow cake”, de Tiago Melo. Desta vez, a trama se passa no sertão da Paraíba, onde um grupo de cientistas faz um experimento para controlar o mosquito da dengue.
Uma produção que trouxe desafios como gravar no interior de áreas de mineração, a 150 metros de profundidade. “Ela mergulhou literalmente na história”, comenta o cineasta.
“Trabalhamos com muitos não-atores e, até quando não estava em cena, Rejane acompanhava as gravações para ajudá-los.” O mesmo entusiasmo aparece quando a atriz reflete sobre o alcance das produções.
A chegada de obras como “Vicentina” às plataformas de streaming, ela diz, leva sua atuação a países e lugares onde, talvez, nunca pise. “Mas a minha voz e a história contada por mim estão lá”, menciona.
“Isso me dá uma dimensão de importância que, se precisasse parar hoje, pararia orgulhosa.” Mas esta não é uma possibilidade crível para alguém que já se debruça sobre roteiros de três novos longas.
O Globo