247 – A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, após sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais, deve ser compreendida a partir dos interesses políticos de Donald Trump nos Estados Unidos, e não apenas como um desdobramento da disputa brasileira.
Essa é a avaliação do professor de Relações Internacionais Reginaldo Nasser, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em entrevista à TV 247. Segundo ele, a tentativa de apresentar a fuga do candidato derrotado como uma operação de resgate político está diretamente relacionada às eleições legislativas norte-americanas, marcadas para 3 de novembro.
“Eu acredito que o interesse dele está diretamente relacionado ao 3 de novembro, eleições nos Estados Unidos. Eu acho que não tem assim relação direta com relações com o Estado brasileiro”, afirmou Nasser, ao analisar as razões que levariam Trump a se envolver na situação de Flávio Bolsonaro.
Na interpretação do professor, o presidente norte-americano procura utilizar o episódio para reforçar sua posição diante do eleitorado republicano, especialmente dos setores que compartilham a narrativa de que existe uma perseguição política e judicial contra representantes da extrema direita.
A estratégia consistiria em transformar a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil em um símbolo dessa suposta perseguição, apresentando o candidato derrotado como vítima das instituições brasileiras. Dessa maneira, o episódio poderia ser incorporado ao discurso político de Trump em um momento em que seu partido enfrenta uma disputa pelo controle do Congresso dos Estados Unidos.
Nasser destacou que a polarização política norte-americana mantém conexões com os conflitos eleitorais brasileiros. Enquanto lideranças democratas e setores progressistas dos Estados Unidos saudaram a vitória de Lula, Trump permaneceu associado à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Por isso, a derrota do candidato brasileiro também representa, na avaliação do professor, um revés para o projeto político defendido pelo presidente norte-americano. “Até porque o Flávio Bolsonaro é uma aposta do Trump, então uma derrota dele é uma derrota do Trump”, observou.
Para Nasser, a tentativa de transformar a fuga em um episódio de perseguição política tem uma função eleitoral. Ao apresentar o Brasil como um país submetido a uma suposta ditadura judicial, Trump poderia alimentar o discurso de confronto institucional utilizado para mobilizar sua base.
O professor considera que esse tipo de narrativa encontra receptividade entre os setores mais radicalizados do eleitorado republicano, especialmente em um contexto de disputa política interna nos Estados Unidos. “Nesse momento, eu acho que é garantir a eleição, mobilizar sua base, fazendo essas polarizações e tudo, porque esse tipo de movimento agrada a base mais radical”, explicou.
A avaliação de Nasser também ajuda a compreender por que Trump poderia investir politicamente no episódio sem necessariamente transformar sua posição em uma ruptura diplomática com o governo brasileiro. Questionado sobre a ausência de reconhecimento da vitória de Lula pelo governo norte-americano e sobre as possíveis consequências para as relações entre os dois países, o professor argumentou que o reconhecimento político de um resultado eleitoral não determina, por si só, o funcionamento das relações econômicas e comerciais.
Segundo ele, mesmo quando existem divergências entre governos, os interesses econômicos podem preservar os vínculos entre os Estados. Por essa razão, considera que as declarações de Trump precisam ser analisadas levando em conta tanto a política interna norte-americana quanto os interesses permanentes dos Estados Unidos no Brasil.
“O não reconhecimento não significa que vá ter algum impacto em relações comerciais, investimentos em relação ao Brasil”, afirmou. Nasser também ressaltou que Trump tem demonstrado disposição para preservar canais de negociação com Lula, mesmo quando questiona a legitimidade do processo eleitoral brasileiro.
Para o professor, essa postura revela uma tentativa de manter abertas possibilidades de entendimento entre os governos, independentemente do discurso dirigido ao eleitorado republicano. O cenário poderá mudar depois das eleições legislativas norte-americanas.
Nasser avalia que a composição do Congresso será determinante para os próximos movimentos de Trump, especialmente diante da possibilidade de avanço do Partido Democrata na Câmara dos Representantes. “Ou seja, o pós-3 de novembro é uma nova realidade nos Estados Unidos.
Então, é bom ficar atento a isso também”, declarou. O professor considera que a importância atribuída à família Bolsonaro pelo governo norte-americano tende a diminuir depois desse processo eleitoral.
Sua avaliação é que Trump não manterá indefinidamente o mesmo nível de envolvimento político com Flávio Bolsonaro, sobretudo depois que a candidatura brasileira deixou de representar uma possibilidade de acesso ao governo federal. Nasser lembrou que o presidente norte-americano tinha interesses relacionados a uma eventual vitória de Flávio, incluindo o acesso a recursos minerais brasileiros.
A derrota eleitoral, porém, obrigaria Washington a buscar outras formas de negociação para alcançar seus objetivos. “Ele apostava na eleição do Flávio para terras raras.
E isso não deu certo. Então, ele vai olhar de outras formas.
Ele vai tentar ver outros caminhos”, afirmou. Essa mudança de circunstâncias também explicaria, segundo o professor, por que a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos não significaria necessariamente a continuidade de uma aliança política com o mesmo peso que existia durante a campanha presidencial brasileira.
Ao discutir as perspectivas futuras, Nasser argumentou que Trump tende a adaptar suas decisões aos resultados eleitorais e à correlação de forças dentro dos Estados Unidos. “Eu acho que, passado esse período, vai cair no esquecimento a família Bolsonaro”, afirmou.
A análise indica que o episódio da fuga pode ter maior utilidade para Trump como instrumento de mobilização eleitoral imediata do que como fundamento de uma política permanente em relação ao Brasil. Para Nasser, a prioridade do presidente norte-americano continua sendo sua própria sustentação política.
Nesse contexto, a situação de Flávio Bolsonaro funcionaria como mais um elemento de polarização, capaz de alimentar o discurso republicano nas semanas anteriores à votação legislativa. O professor concluiu que a derrota de Flávio Bolsonaro alterou as condições da relação entre o governo Trump e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Sem a perspectiva de assumir a Presidência da República, Flávio deixou de representar o mesmo instrumento de influência sobre as decisões do Estado brasileiro. Assim, na avaliação de Reginaldo Nasser, a repercussão da fuga nos Estados Unidos deve ser interpretada principalmente como parte da estratégia eleitoral de Donald Trump.
O envolvimento norte-americano no episódio responderia, antes de tudo, à necessidade de mobilizar eleitores e preservar posições de poder em Washington, enquanto os interesses econômicos e diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos continuariam a seguir uma dinâmica própria.
Brasil 247