O choque de preços provocado pelo conflito internacional iniciado em 28 de fevereiro de 2026 expôs a vulnerabilidade criada pela entrega de ativos estratégicos ao setor privado. Enquanto a Petrobras estatal manteve suas tabelas estáveis para conter o impacto inflacionário na economia, as refinarias privatizadas durante o governo de Jair Bolsonaro repassaram integralmente as oscilações externas e aumentaram as margens de lucro sobre o consumidor.
A disparada dos combustíveis atingiu com mais força a população e os setores produtivos do Norte e do Nordeste. No Amazonas, o litro do diesel fornecido pela refinaria privatizada chegou ao patamar de R$ 7,19 no mercado local, enquanto a Petrobras garantia o mesmo produto a R$ 3,30 nas unidades sob controle público no restante do país.
O desequilíbrio na estrutura de abastecimento nasceu em 2019, quando a Petrobras assinou um termo de compromisso com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para se desfazer de metade de sua capacidade de refino. Sob a justificativa de estimular a concorrência e reduzir preços finais, a gestão anterior vendeu a Refinaria de Mataripe, na Bahia, ao fundo Mubadala, que fundou a Acelen, entregou a unidade de Manaus ao grupo Atem, rebatizada como REAM, e repassou a Refinaria Clara Camarão à 3R Petroleum, atual Brava.
A promessa de concorrência resultou na criação de monopólios regionais privados com amplo poder sobre os mercados locais. Segundo levantamento com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) citado em análise do Brasil de Fato, a Refinaria de Mataripe forneceu de janeiro a setembro de 2026 a totalidade do diesel S-10 e 97,7% do gás de cozinha entregues às distribuidoras na Bahia, deixando a Petrobras totalmente fora da oferta desses derivados no Estado.
Monopólio privado eleva custo dos combustíveis no país A ausência de competição permitiu que as refinarias privadas impusessem tarifas superiores às praticadas pela estatal.
Atualmente a Petrobras cobra R$ 3,05 pelo litro da gasolina, R$ 3,30 pelo litro do diesel e R$ 34,70 pelo botijão de 13 quilos de gás liquefeito de petróleo em suas refinarias, enquanto as unidades privatizadas adotaram uma política de reajustes frequentes. O histórico de dados apurados desde a transferência dos ativos confirma o peso constante do refino privado sobre as distribuidoras.
A Acelen cobrou em média 7% a mais na gasolina, 8% no diesel e 25% no gás de cozinha em comparação com a tabela da Petrobras, enquanto a REAM aplicou sobrepreços médios de 21% na gasolina, 24% no diesel e 33% no botijão de gás no Amazonas. Em diversos períodos, as empresas privadas superaram inclusive o Preço de Paridade de Importação (PPI) calculada pela agência reguladora, que simula o custo de trazer o combustível já refinado do exterior.
A refinaria baiana operada pela Acelen vendeu o gás de cozinha acima do valor de referência internacional em 230 das 256 semanas acompanhadas desde 2022, mantendo essa cobrança inflacionada ao longo de todo o ano de 2025. A distorção atingiu pico em junho de 2026, quando a gasolina fornecida pela Acelen chegou a R$ 3,86 por litro, enquanto o preço de paridade internacional calculado pela ANP marcava R$ 3,12.
O consumidor baiano pagou um valor consideravelmente mais elevado do que o custo estimado para importar o derivado pronto de outros países. Guerra externa expõe vulnerabilidade do refino privado
O início do conflito no exterior em fevereiro de 2026 serviu como o teste definitivo sobre o modelo de privatização. Enquanto a Petrobras utilizou seu parque estatal como escudo para absorver a volatilidade do mercado internacional, as refinarias privatizadas aceleraram os repasses e ampliaram o descompasso de preços com a empresa pública.
Nos sete meses de guerra entre março e setembro de 2026, o diesel da Acelen custou em média 52% a mais e a gasolina 40% a mais do que a tabela da estatal. No Amazonas, o diesel fornecido pela REAM custou em média 89% acima do valor cobrado nas refinarias públicas, transferindo o choque externo aos consumidores locais.
A diferença acumulada representou uma drenagem direta de recursos do orçamento das famílias e do setor de transportes. A multiplicação das vendas estaduais pelo sobrepreço praticado pela Acelen mostra que a privatização da refinaria baiana custou R$ 6,7 bilhões à população local entre dezembro de 2021 e setembro de 2026, o que corresponde a uma perda média de R$ 470 por habitante.
A maior parte desse prejuízo concentrou-se exatamente durante o choque geopolítico recente. Dos R$ 6,7 bilhões retirados da economia baiana pela tarifa privada, R$ 4,1 bilhões foram cobrados nos sete meses posteriores ao início da guerra, correspondendo a 62% do total acumulado no período.
Reestatização volta ao debate Diante desses números, cresce a defesa de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva recompre o parque de refino vendido na gestão anterior, tese defendida em análise publicada nesta quinta pelo Brasil de Fato.
A reaquisição dos ativos permitiria restabelecer o controle público da oferta de derivados de petróleo e proteger a atividade econômica nacional contra sobressaltos externos. O resultado do período pós-privatização demonstra que a entrega de refinarias estratégicas resultou no encarecimento dos combustíveis e na perda de soberania do Estado.
A recomposição do parque fabril sob controle da Petrobras surge como a medida concreta para assegurar estabilidade de preços aos consumidores e impedir a transferência de renda para grupos privados.
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