Quem era Pablo Quintanilha, chefe do 'bonde dos crias' homenageado em mural apagado pela prefeitura na Lapa
A poucos metros da Escadaria Selarón, um dos cartões-postais mais conhecidos do Rio, o grafite na parede mostrava o rosto de um homem usando boné voltado para trás. A imagem retangular tem detalhes em dourado nas bordas e o fundo é vermelho. A cor não é aleatória. Faz referência ao Comando Vermelho, facção à qual pertencia a figura retratada: Pablo Carlos Rodrigues Quintanilha, conhecido como PB, morto em 2019 durante uma operação policial na Penha, Zona Norte da cidade. Filho de Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, apontado pela polícia como um dos chefes históricos do Comando Vermelho, PB cresceu sob a influência direta de uma das principais lideranças do tráfico no estado. Ainda jovem, já fazia parte da estrutura de venda de drogas na região da Lapa, área marcada pela intensa vida noturna e grande circulação de turistas. Nesta quarta-feira, equipes da prefeitura iniciaram a remoção do mural.
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Antes mesmo de atingir a maioridade, PB já aparecia em registros policiais. Aos 16 anos, em 2009, foi apreendido por participação em dois roubos de veículos que pertenciam a um dirigente do Botafogo, caso que teve repercussão na época. A ocorrência marcou uma das primeiras vezes em que seu nome surgiu em investigações, indicando envolvimento precoce com o crime.
Dois anos depois, aos 18, ele foi preso novamente, desta vez apontado como chefe da venda de drogas na Lapa. A operação que resultou na sua captura, batizada de “Quinta na Lapa”, revelou uma engrenagem organizada de comércio de entorpecentes em ruas como Joaquim Silva, Taylor e Conde de Lages, além da própria escadaria, onde funcionava um dos principais pontos de venda.
O “bonde dos crias”
Segundo as investigações, PB chefiava o chamado “bonde dos crias”, grupo formado majoritariamente por menores de idade recrutados para atuar na linha de frente do tráfico. A estratégia era circular com pequenas quantidades de droga para dificultar a caracterização de tráfico em abordagens policiais, permitindo que os integrantes alegassem ser apenas usuários.
O grupo comercializava maconha, cocaína e loló, com foco em turistas que frequentavam a região. A escolha dos pontos não era aleatória: a Escadaria Selarón, além de símbolo cultural, concentra grande fluxo de visitantes estrangeiros, o que transformava o local em um mercado lucrativo para o comércio ilegal.
As investigações indicavam que a estrutura comandada por PB na Lapa funcionava com relativa autonomia em relação aos territórios controlados pelo pai. A dinâmica da região central, com venda pulverizada e voltada para o consumo imediato, difere do modelo tradicional das comunidades, mais territorializado.
Atuação e exposição nas redes
A polícia também identificou que PB utilizava a internet como ferramenta de comunicação e afirmação dentro do grupo. Em redes sociais, onde se apresentava como “PB Braddock”, publicava mensagens de exaltação à facção e fotos que indicariam ganhos com o tráfico, além de homenagens a criminosos mortos.
Em uma das postagens analisadas pelos investigadores, ele se definia como “guerreiro” do Comando Vermelho, reforçando o vínculo com a organização criminosa. As publicações também incluíam montagens e símbolos associados à facção, como a expressão “trem bala”, usada para marcar territórios.
A atuação na Lapa não se restringia a um único ponto. As investigações da Delegacia de Atendimento ao Turista e da 5ª DP (Catete) apontavam que o grupo operava em diferentes áreas do bairro, com mobilidade constante e divisão de tarefas entre os integrantes, o que dificultava a repressão.
Na operação “Quinta na Lapa”, realizada em 2011, que levou à prisão de PB, outros oito suspeitos foram detidos, sendo três menores. Também foram apreendidas quantidades de drogas ainda não contabilizadas e cerca de R$ 2 mil em dinheiro. O jovem foi localizado na casa da mãe, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Mesmo após a prisão, o nome de PB continuou a aparecer em investigações. Ele já havia sido citado em um inquérito sobre a morte de uma pessoa cujo corpo foi encontrado carbonizado na Praça Paris, na Glória, embora não tenha sido formalmente acusado pelo crime.
Morte em operação na Penha
PB foi morto em 2019 durante uma operação policial no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, uma das principais áreas de atuação do Comando Vermelho. Segundo registros de investigações, ele teria entrado em confronto com agentes de segurança durante a ação.
Na ocasião, o local já era apontado como um dos redutos estratégicos da facção, reunindo lideranças e integrantes envolvidos na coordenação de atividades criminosas em diferentes pontos da cidade, incluindo áreas fora de comunidades, como o Centro.
PB tinha cerca de 26 anos e já acumulava passagens por tráfico de drogas e outras ocorrências desde a adolescência. A morte ocorreu anos depois de ele ter sido identificado pela polícia como responsável por estruturar a venda de entorpecentes na Lapa, especialmente em regiões de grande circulação de turistas.
O episódio foi tratado pelas autoridades como mais um desdobramento de operações voltadas ao enfraquecimento da atuação da facção em seus principais territórios. Mesmo após a morte, o nome de PB continuou a aparecer em investigações. Em operações realizadas anos depois, policiais apreenderam armamentos com inscrições em referência a ele, indicando que sua figura permaneceu como símbolo dentro de grupos ligados ao Comando Vermelho. As referências incluíam a expressão “PB vive”, associada ao apelido pelo qual era conhecido.
