O governo de Donald Trump fez uma nova tentativa de processar James Comey, ex-diretor do FBI e crítico do presidente americano, ao apresentar acusações relacionadas ao suposto vazamento de informações de segurança nacional para o The New York Times em 2016. Segundo o material apresentado pelos promotores, esta é a terceira tentativa de processar Comey em 13 meses.
Contexto: Justiça dos EUA abre processo contra James Comey, ex-diretor do FBI e algoz de Trump Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp
Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países O documento de acusação foi apresentado sob sigilo em um tribunal federal de Washington neste mês e se tornou público na segunda-feira.
Segundo os promotores, Comey agiu consciente e deliberadamente para que informações de defesa nacional fossem “comunicadas, entregues e transmitidas a uma pessoa não autorizada a recebê-las”, por volta de 4 e 5 de outubro de 2016. Demitido por Trump em 2017, Comey prometeu contestar as acusações e reafirmou sua inocência em um vídeo publicado na internet.
"Continuo sendo inocente. Continuo sem medo dessas pessoas", declarou.
Ele classificou o novo caso como algo que "seria quase engraçado se não fosse um abuso tão chocante do Departamento de Justiça, algo ao qual não podemos nos acostumar". Reportagem sobre vigilância de e-mails está no centro do caso
A investigação está relacionada a uma reportagem do The New York Times publicada em 5 de outubro de 2016, que revelou o uso de um método inédito de vigilância envolvendo e-mails do Yahoo. Segundo o jornal, o Departamento de Justiça havia obtido uma ordem específica de um juiz da Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira.
A determinação exigia que o Yahoo procurasse mensagens com uma "assinatura" digital associada às comunicações de uma organização terrorista patrocinada por um Estado. A empresa estava proibida de divulgar a existência da ordem.
A reportagem também informou que o Yahoo recorreu a um sistema originalmente destinado a identificar e-mails com pornografia infantil e spam para cumprir a determinação judicial secreta. O jornal citou várias pessoas familiarizadas com o assunto.
Nos documentos judiciais, os promotores afirmam que Comey “procurou corrigir informações equivocadas que haviam aparecido na imprensa por meio da Reuters no dia anterior”. Segundo os investigadores, a apuração "descobriu evidências de que o sr.
Comey orientou funcionários a conversar com o The New York Times sobre preocupações específicas quanto à precisão da reportagem da Reuters e, assim, transferiu ilegalmente informações sigilosas". O documento foi assinado por dois altos funcionários da sede do Departamento de Justiça e por promotores temporariamente designados para o caso, provenientes de outros órgãos, entre eles o Departamento de Segurança Interna e procuradorias federais do Texas e da Flórida.
Defesa pede arquivamento e questiona prazo legal Os advogados de Comey argumentam que o caso já foi investigado duas vezes, inclusive durante o primeiro governo Trump, sem que as apurações resultassem em acusações.
A defesa também questiona a forma como os promotores apresentaram as novas acusações. Segundo os advogados, o governo não obteve uma acusação formal de um grande júri dentro do prazo de prescrição de dez anos.
O argumento é que o prazo se aplica a acusações formalizadas por um grande júri, e não a um documento criminal apresentado diretamente pelos promotores, como ocorreu neste caso. Esse tipo de documento costuma anteceder uma denúncia formal de um grande júri ou uma declaração de culpa.
Como o governo ainda não conseguiu obter a acusação formal e mais de dez anos se passaram desde os acontecimentos investigados, a defesa sustenta que o processo deve ser arquivado. Os advogados tentaram obter o encerramento do caso nas últimas semanas, mas os registros judiciais indicam que ainda não tiveram sucesso.
Grandes júris em Washington rejeitaram repetidamente alguns casos considerados aparentemente motivados por animosidade presidencial, o que representa um obstáculo para o governo Trump em processos politicamente sensíveis. Jornal critica possível efeito sobre a liberdade de imprensa
Charlie Stadtlander, porta-voz do The New York Times, afirmou que o jornal não comenta suas fontes, mas criticou o possível impacto do processo sobre a atividade jornalística. O representante declarou que o jornal “não comenta as fontes por trás de suas reportagens, mas sabemos por experiência própria que processos como este têm o objetivo de desencorajar fontes a fornecer aos jornalistas o tipo de informação valiosa e esclarecedora que o público precisa conhecer”.
A reportagem de 2016 sobre a vigilância de e-mails do Yahoo está no centro das novas acusações contra Comey. Em setembro de 2025, o governo conseguiu uma acusação formal contra Comey sob a alegação de que ele havia mentido em um depoimento prestado anos antes ao Congresso.
Um juiz posteriormente anulou as acusações. Outro processo, na Carolina do Norte, deverá ir a julgamento no próximo ano, depois que promotores da Virgínia se recusaram a levá-lo adiante.
O caso envolve uma fotografia publicada por Comey nas redes sociais no ano anterior, que mostrava conchas organizadas para formar a expressão “86 47”. Os promotores interpretaram a publicação como uma ameaça contra Trump.
As novas acusações contra o ex-diretor do FBI se tornaram públicas poucas horas depois de um juiz federal de Nova York decidir que o governo Trump demitiu ilegalmente Maurene Comey, filha de James Comey, do cargo de promotora naquela cidade. Segundo o magistrado, o governo violou a Constituição e a legislação federal ao alegar que o presidente tinha ampla liberdade para demitir servidores públicos.
O Globo