Quem decide o que é inovação? - QTU Questões do Universo

Quem decide o que é inovação?

Fonte: Bandeira da fonte

“Quem engana há de sempre encontrar os que permitem ser enganados.”
A frase é de Nicolau Maquiavel, diplomata e pensador florentino considerado um dos fundadores do pensamento político moderno e aparece em O Príncipe, onde ele discute uma tensão ainda atual: a distância entre algo que parece ser e aquilo que efetivamente é.
Maquiavel escrevia sobre poder, e ao admitir engano, quebra da palavra e até violência quando a necessidade política o exigisse, deixou também um legado controverso, simplificado no adjetivo maquiavélico que dentre outros significados, quer dizer que os fins justificam os meios.
Essa distância entre conceito e aparência ocorre também com outra palavra celebrada em nosso tempo: inovação.
Afinal, o que é inovação? Quem decide o que merece ser chamado de inovador? E a partir de quais critérios?
O Manual de Oslo da OCDE, criteriza: inovação é um produto ou processo novo ou significativamente diferente do anterior e efetivamente implementado.
Sem implementação, permanecemos no campo da ideia ou da invenção.
Ideia nova, apresentação diferente ou sucesso comercial, por si só, não definem inovação.
Sem critérios, inovação transforma-se em adjetivo.
E adjetivos são fáceis de contratar.
Avaliar inovação exige abertura à novidade e conhecimento para julgar sua contribuição — e parte do potencial criativo pode se perder nessa seleção se o avaliador é despreparado.

Em congressos, empresas, universidades e encontros de negócios, algumas credenciais funcionam como atalhos: cargo, empresa de origem, seguidores, presença na imprensa, sucesso financeiro ou a frequência com que um nome aparece nos mesmos circuitos.
Esses sinais são relevantes.
Experiência, trajetória e resultados ajudam a reconhecer competência.
O problema começa quando passam a ser usados como substitutos da própria competência e inovação.

A evolução cultural ajuda a entender o porquê: parte do sucesso humano depende e nossa capacidade de aprender seletivamente com os outros e acumular conhecimento ao longo das gerações.
Uma estratégia eficiente é observar quem obteve bons resultados e aprender com ele — o chamado viés de sucesso.
Sucesso, visibilidade e liderança não significam, por si só, inovação ou criação de algo novo.
Quando é difícil avaliar diretamente a competência de alguém, recorremos a sinais indiretos, atalhos cognitivos e generalizações de julgamento.
No viés de prestígio, damos mais atenção a quem já é reconhecido pelos outros.
Diferente do viés de sucesso, baseado na observação de resultados, aqui usamos o reconhecimento social como pista.
A frequência com que alguém é citado, seguido ou convidado aumenta nossa atenção e percepção de relevância e alimenta o hype.

A isso pode se somar o efeito halo, ou auréola: uma impressão positiva em determinada dimensão influencia o julgamento de outras ainda não comprovadas.
Um executivo brilhante em gestão passa a ser percebido automaticamente como autoridade também em inovação.
Há ainda o efeito de verdade ilusória: afirmações repetidas tendem a parecer mais verdadeiras do que afirmações novas.
Repetir não transforma algo em verdade; aumenta sua familiaridade e influencia o julgamento — como ocorre quando alegações sobre produtos “milagrosos”, repetidas continuamente, passam a soar mais plausíveis sem que novas evidências tenham surgido.
Assim, prestígio, halo e repetição podem atuar juntos: alguém ganha atenção porque já recebe atenção, sua competência em uma área pode ser estendida a outras; e suas ideias, ao serem repetidas, tornam-se mais familiares.
Quando os mesmos nomes e ideias circulam repetidamente, estamos selecionando o que é mais inovador ou apenas o que nos é mais familiar?
Quer testar um evento de inovação? Faça três perguntas: os temas trazem algo realmente novo? Os palestrantes ampliam o repertório ou repetem os mesmos circuitos? Há mais experimentação e implementação ou mais visibilidade?
Nenhuma resposta, isoladamente, define inovação.
Mas, se tudo é familiar — temas, nomes e respostas — vale perguntar: onde está o pulso da inovação?
A literatura descreve esse fenômeno como innovation theater: práticas visíveis e associadas à inovação, mas com pouco impacto substantivo sobre o processo inovador.
A aparência da inovação passa, então, a disputar espaço com a inovação propriamente dita.
É aqui que Maquiavel retorna.
E não porque exista necessariamente engano deliberado.
Reputação não é fraude, prestígio não é mentira e sucesso profissional não exige inovação.
O problema é de critério.
Quando prestígio substitui competência específica, deixamos de perguntar o essencial: o que essa pessoa criou, modificou ou resolveu? Sua autoridade pertence ao domínio sobre o qual fala?
A inteligência artificial (IA) já participa e atua na inovação da geração de hipóteses, análise de dados e descobertas científicas.
Mas um estudo com 41,3 milhões de artigos mostra paradoxo: seu uso aumenta produtividade e impacto, mas concentra os temas investigados, o que é grave.
Em tempos de IA, podemos confundir apresentar o conhecido de maneira nova com produzir o novo? A questão não é rejeitar a tecnologia, mas definir critérios claros para avaliá-la.
Algo é inovador porque parece novo, “viralizou”, usa IA, recebeu investimentos ou foi apresentado por alguém famoso? Ou por que produziu uma mudança substantiva identificável?
A pergunta interessa especialmente a quem faz curadoria do conhecimento: jornalistas, executivos, universidades, conselhos, profissionais de recursos humanos e organizadores de eventos.
Curadoria também é exercício de poder.
Ao escolher pessoas e ideias, ampliamos algumas vozes e ensinamos implicitamente o que merece ser reconhecido como relevante.
Proponho que a pergunta contemporânea inspirada por Maquiavel seja outra: quando chamamos algo de inovação, avaliamos sua substância ou apenas reconhecemos seus sinais?
Porque confundir reputação com contribuição, novidade estética com novidade real e visibilidade com competência pode criar uma ilusão perigosa: acreditar que avançamos quando apenas aprendemos a apresentar o conhecido como novo.
Rubens Harb Bollos é médico, mentor e presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão) e o projeto de Literacia em Saúde @Informação Cura.
Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela UNIFESP e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento pela USP/ICB.
Escreve e divulga sobre imunologia, epigenética, neurociência, saúde mental, tomadas de decisões e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde
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