Menores publicam termos que podem remeter ao tráfico; veja riscos para seu filho - QTU Questões do Universo

Menores publicam termos que podem remeter ao tráfico; veja riscos para seu filho

Fonte: Bandeira da fonte

Um vídeo que viralizou nas redes sociais mostra um pai repreendendo o filho após o adolescente publicar uma foto usando a expressão “Menor do Ódio”.
O caso chamou atenção para uma situação que pode passar despercebida pelos pais: termos usados por crianças e adolescentes em nomes de perfis, legendas e publicações podem esconder perigos e estar associados a conteúdos ou comportamentos de risco.
Expressões como “Meno do Ódio”, “Trem Bala”, “bonde do”, “tropa da” e “cria do”, por exemplo, podem aparecer em músicas, vídeos e conversas entre amigos, mas também assumir outras conotações dependendo do contexto e da região.
Para entender os significados dessas expressões, os riscos envolvidos e o que os pais devem observar, o TechTudo conversou com o especialista em cibersegurança Flávio Cruz, a advogada especializada em proteção de dados Maria Cecília Oliveira Gomes e o advogado criminalista Alan Deodoro.
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Menores publicam termos que podem remeter ao tráfico; veja riscos para seu filho
Foto: Reprodução/Instagram
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Índice
O que são esses termos e por que crianças e adolescentes usam?
Quais termos podem chamar a atenção dos pais?
Usar um desses termos significa envolvimento com o tráfico?
Quais riscos isso pode trazer para o menor?
O que os pais devem observar no perfil?
O que fazer se o conteúdo realmente preocupar os pais?
O que são esses termos e por que crianças e adolescentes usam?
Crianças e adolescentes podem incorporar à própria linguagem expressões que encontram no conteúdo que consomem e nas conversas com outras pessoas.
"Crianças absorvem a linguagem dos ambientes que fazem parte.
Pode ser uma música, um vídeo que um amigo compartilhou, um influenciador, um jogo ou o próprio grupo de amigos.
Muitas vezes, elas começam a usar uma expressão porque ela está popular naquele momento sem necessariamente conhecer todos os significados que ela pode ter", explica Flávio Cruz.
O alcance das redes acrescenta outro fator: uma palavra usada entre amigos não fica necessariamente restrita às pessoas que compartilham as mesmas referências, já que uma publicação pode chegar a outros usuários por compartilhamentos e capturas de tela.
Cruz ressalta que algo compreendido de uma maneira dentro de um grupo pode receber outra interpretação quando circula fora daquele ambiente.
"O que considero importante é lembrar que, na internet, aquilo que é entendido de uma forma entre amigos pode ser interpretado de maneira completamente diferente por quem está de fora.
E, depois que esse conteúdo é publicado, ele pode circular muito além do contexto original", completa Cruz.

Quais termos podem chamar a atenção dos pais?
"Meno do Ódio", "Trem Bala", "bonde do", "tropa da" e "cria do" estão entre as expressões que podem despertar dúvidas quando aparecem em perfis de crianças e adolescentes.
Não há, porém, um significado único que possa ser atribuído a essas palavras em qualquer publicação.
O ambiente em que aparecem e a maneira como são empregadas fazem diferença na interpretação.
"Expressões como 'tropa', 'bonde' e 'cria', por exemplo, também aparecem em músicas, no futebol, entre grupos de amigos e em diferentes contextos culturais, sem necessariamente terem qualquer relação com criminalidade", explica Cruz.

Tratar determinadas palavras como sinais automáticos de perigo pode levar justamente à interpretação equivocada que os pais devem evitar.
"A linguagem da internet muda muito rápido e uma mesma expressão pode assumir significados diferentes dependendo de quem usa e de onde ela aparece.", complementa o especialista.

Por isso, Cruz não recomenda criar uma lista de palavras perigosas e orienta considerar também imagens, símbolos, gestos, emojis, outras mensagens associadas, interações e a recorrência daquele conteúdo no perfil.
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Getty Images
Usar um desses termos significa envolvimento com o tráfico?
Não.
Uma palavra, gíria ou apelido isolado não permite concluir que uma criança ou adolescente tenha relação com tráfico ou facção.
A interpretação exige outros elementos da publicação e do comportamento daquele perfil, justamente porque uma mesma linguagem pode ser empregada de formas distintas por diferentes grupos.
"A linguagem é contextual: uma mesma expressão pode ter significados completamente diferentes dependendo de quem a usa, com quem, em qual plataforma e em que combinação com outros elementos", afirma Maria Cecília Oliveira Gomes.
A cautela com interpretações precipitadas também encontra respaldo jurídico.
Crianças não cometem crimes e estão sujeitas às medidas de proteção previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), enquanto adolescentes podem responder por ato infracional caso pratiquem uma conduta descrita como crime ou contravenção.

Ainda assim, uma publicação com determinada gíria ou apelido não fornece, sozinha, os elementos necessários para demonstrar envolvimento com uma atividade criminosa.
"Uma expressão isolada pode justificar a atenção dos responsáveis, mas não permite, por si só, concluir nem mesmo que há indícios concretos de envolvimento com o crime", afirma Alan Deodoro.

O advogado acrescenta que a caracterização jurídica de associação ao tráfico exige comprovação de estabilidade e permanência no grupo, algo que não se revela por um gesto, gíria ou apelido.
Para especialistas, uso de termos não significa envolvimento
Reprodução/Pexels
Quais riscos isso pode trazer para o menor?
Mesmo quando não existe qualquer intenção relacionada à criminalidade, uma publicação pode produzir consequências que o jovem não antecipou.
Uma foto, legenda ou brincadeira feita para um grupo conhecido pode chegar a outras pessoas, ser compartilhada novamente e passar a ser interpretada sem as referências que existiam no momento da publicação.
"Depois que algo é publicado, você não controla mais quem vai ver, fazer uma captura de tela, compartilhar ou interpretar aquela mensagem", alerta Cruz.

Uma brincadeira entre amigos, segundo ele, pode ganhar outro sentido fora daquele grupo, principalmente quando aparece acompanhada de gestos, imagens, hashtags ou informações de localização.
A exposição pode levar a constrangimentos, conflitos, assédio e ameaças e, em situações mais graves, facilitar a aproximação de pessoas mal-intencionadas.
A possibilidade de contato indesejado é apenas uma parte do risco.
Mesmo que nenhuma pessoa mal-intencionada se aproxime, uma interpretação equivocada pode fazer com que o próprio jovem seja associado a um grupo do qual não faz parte.
Com isso, além da exposição a terceiros, surge a possibilidade de ele ser rotulado a partir do que publicou.
"Os riscos operam em duas direções.
A primeira é o risco para o próprio adolescente, que pode sem intenção sinalizar pertencimento a grupos que não conhece, atraindo interações indesejadas.
A segunda é o risco de estigmatização, quando uma expressão usada de forma inocente é interpretada fora de contexto por adultos ou autoridades", explica Maria Cecília.
Uma associação equivocada também pode ultrapassar o ambiente digital e afetar outras relações do jovem.
Deodoro cita exposição indevida da imagem, constrangimentos, conflitos escolares e familiares e até situações de violência ou retaliação.
Para o advogado, reconhecer riscos concretos não significa tratar uma suspeita como fato consumado.
"É necessário levar sinais de risco a sério, mas também é necessário evitar transformar uma interpretação pessoal em uma certeza sem elementos suficientes", alerta Deodoro.
Entenda os riscos que isso pode trazer para o menor
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O que os pais devem observar no perfil?
Encontrar uma expressão desconhecida pode servir como ponto de partida para uma conversa, mas não como prova de que algo está errado.
Uma análise mais ampla permite verificar se aquela publicação foi pontual ou se aparece junto a mudanças nas interações, no conteúdo compartilhado e na própria maneira como o jovem utiliza as redes.
"Eu recomendo que os pais olhem menos para uma palavra específica e mais para o comportamento digital como um todo", afirma Cruz.

Mudanças repentinas no tipo de conteúdo publicado, contato frequente com desconhecidos, exposição excessiva de informações pessoais ou da localização, entrada em novos grupos e alterações na maneira como o jovem reage depois de usar as redes estão entre os aspectos apontados pelo especialista.
Algumas situações podem justificar atenção maior quando começam a se repetir ou aparecem combinadas.
Conversas privadas com conteúdo suspeito, pressão para manter determinadas relações em segredo, recebimento ou envio de valores sem explicação e ameaças, por exemplo, acrescentam informações que uma palavra encontrada em uma legenda não oferece.
"O que deve chamar a atenção é o conjunto de circunstâncias, e não uma palavra específica", afirma Deodoro.

O advogado também menciona mudanças abruptas de comportamento e participação recorrente em grupos nos quais existam indícios concretos de práticas criminosas.
Mesmo nesses casos, ressalta, nenhum elemento isolado significa necessariamente que o adolescente esteja envolvido em crime.
Os sinais justificam diálogo e acompanhamento e, dependendo da situação, orientação especializada.
A própria publicação e outros elementos do perfil podem fornecer parte desse contexto.
Nome de usuário, apelidos, legendas, imagens, vídeos, músicas, emojis, hashtags, comentários, grupos e perfis que interagem com a conta, além da frequência com que conteúdos semelhantes aparecem, ajudam a entender como determinada expressão está sendo usada.
Cruz recomenda considerar esse conjunto antes de chegar a uma conclusão sobre o que foi encontrado no perfil.
Para especialistas, pais devem prestar atenção no comportamento digital do menor como um todo
Reprodução/The Parents Web Site
O que fazer se o conteúdo realmente preocupar os pais?
Se os responsáveis encontrarem uma expressão ou publicação que não entendem, a conversa com o filho pode esclarecer o significado atribuído por ele àquele conteúdo e como a referência chegou até seu perfil.
Começar pela acusação, por outro lado, pode fechar justamente o espaço necessário para entender se existe uma situação de risco.
"Antes de interpretar ou acusar, perguntar 'o que isso significa para você?' pode esclarecer muito mais do que tentar chegar sozinho a uma conclusão a partir do que foi publicado", orienta Cruz.

O especialista também defende que manter um espaço de diálogo facilita que crianças e adolescentes procurem os responsáveis quando alguma situação estranha acontecer ou sair do controle.
A conversa também pode revelar um cenário diferente daquele imaginado inicialmente pelos responsáveis.
O jovem pode ter reproduzido algo sem conhecer determinada associação ou pode estar sofrendo pressão de outras pessoas.
Ouvi-lo ajuda a compreender melhor o que está acontecendo e a identificar se há algum risco que exija outras providências.
"Os responsáveis devem procurar ouvir antes de concluir, inclusive porque o jovem pode ter reproduzido determinada expressão sem saber seu significado ou pode estar, ele próprio, sendo vítima de pressão, ameaça ou aliciamento", explica Deodoro.
Quando surgem indícios concretos de risco, a prioridade passa a ser preservar informações e proteger o menor.
Fotos, capturas de tela, conversas e outros registros que possam ajudar a identificar os envolvidos e reconstruir os fatos devem ser guardados.
Deodoro desaconselha, porém, confrontar possíveis criminosos ou aliciadores e tentar conduzir uma investigação por conta própria.
Conteúdos que violem as regras das redes sociais podem ser denunciados às próprias plataformas.
Dependendo da gravidade, essa medida não substitui a procura pelas autoridades.
Deodoro cita Ministério Público, Polícia e Conselho Tutelar entre os órgãos que podem ser acionados e ressalta que, diante de ameaça concreta ou perigo imediato, a prioridade deve ser proteger a integridade física e psicológica da criança ou adolescente.
Especialistas orientam que pais busquem o diálogo caso vejam algo preocupante
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