Que Jogo É Esse: O outro lado da crise do Fluminense; a noite em que o Rivadavia viveu o que nunca teve

 

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A principal história que se contou no Brasil sobre a rodada da Libertadores esta semana começa com um placar: 2 a 1, de virada, para o Independiente Rivadavia sobre o Fluminense, no Maracanã. Antes de chegar a este ponto, o roteiro é bem conhecido. Começou numa decisão que parecia, mas não era, pequena — aceitar o adiamento de um clássico —, passou por um cálculo logístico de calendário errado e desembocou no que o futebol tem de mais reeptido: quando se espera que algo vá dar errado, aí é que dá mesmo.

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Derrota no clássico, revés com cara de zebra na Libertadores e um gol meio bizarro daqueles que viram símbolo. No fim, crise. Torcida do Fluminense contra diretoria, ruído, explicações que já nascem gastas. O roteiro clássico de quando o planejamento erra e encontra o imponderável.

Mas toda boa história no futebol tem pelo menos dois lados. E, desta vez, o lado vencedor é mais difícil de ignorar, e talvez mais interessante de contar, se ignorarmos as nacionalidades.

Do outro lado do campo estava o Independiente Rivadavia, um clube que, até pouco tempo atrás, era praticamente invisível para o olhar brasileiro. Fundado em 1913, em Mendoza, longe do eixo que organiza o futebol argentino, passou 42 anos fora da primeira divisão. Quase meio século à margem. Sem estrutura, sem protagonismo, sem noites como aquela no Maracanã sequer como possibilidade concreta. A Libertadores, para o Rivadavia, nunca foi um cenário: era uma ideia distante, dessas que pertencem sempre aos outros. Até deixar de ser.

Porque o que se viu no Maracanã não foi só um time competitivo. Foi um clube vivendo pela primeira vez algo que, para tantos outros, já virou rotina. E aí vira história.

Copacabana deu alguns sinais disso ao longo da semana. Não foi impressão: havia mais camisas azuis do que o habitual, mais grupos falando alto nas esquinas, mais gente ocupando bares e calçadas como quem estica uma viagem que já valeu antes mesmo de começar.

E não era uma viagem simples. Para muitos deles, era um evento de vida. Meses juntando dinheiro, organizando grupos, montando roteiros improvisados — um ônibus até Buenos Aires, um voo low cost, um Airbnb dividido. Mendoza não é logo ali. A distância é longa, o custo pesa para o padrão local. Ainda assim, vieram em massa. Como quem entende que certas oportunidades não se repetem. Ou, pelo menos, não tão cedo.

Os argentinos mendocinos estavam por toda parte: nos hotéis, nos mercados, andando sem muita pressa, como se aquele pedaço do Rio tivesse sido temporariamente incorporado a Mendoza.

No dia seguinte ao jogo, no aeroporto, a cena se completava. Não eram poucos. Famílias, grupos de amigos, gente mais velha, gente muito nova. Todos voltando com a mesma expressão: um cansaço leve, quase satisfeito, e um sorriso que não precisava de muita explicação. Para muitos deles, estar ali já era o suficiente.

Entre os que viajaram, havia duas senhoras, dessas que, no futebol argentino, são tão comuns quanto invisíveis para quem olha de fora. Mónica, 66 anos, e Sabina, 60. Viajam sempre que podem. Tratam a torcida como uma família organizada, dessas em que alguém sempre ocupa o lugar de quem não conseguiu ir. Não estavam ali por acaso, nem por exceção. Estavam ali porque, para elas, acompanhar o time também é isso: estrada, deslocamento, insistência.

Também estava ali Claudia Ibarra, 62 anos, mãe de um jogador do elenco. Primeira vez no Maracanã. E uma frase que diz mais sobre o futebol do que qualquer análise: podem ganhar ou perder, não interessa. Há um tipo de relação com o jogo que não passa pelo resultado. E, naquele momento, naquele setor visitante lotado de gente de longe, numa quarta qualquer de segunda rodada de fase de grupos, era exatamente isso que estava em campo.

Pode ser por isso que tenham cantado o tempo inteiro. Pode ser por isso que tenham ocupado o espaço como quem não sabe quando, ou se, aquilo vai se repetir. Para um clube que passou tanto tempo longe de tudo, cada minuto ali carrega um peso diferente.

O Fluminense, claro, vai continuar sendo assunto. A crise é real, as decisões serão discutidas, os desdobramentos ainda estão por vir. É o lado da história que nos é mais familiar. O da análise, da responsabilidade, do erro.

Mas, às vezes, vale a pena ajustar um pouco o foco.

Porque, do outro lado, havia um clube que esperou décadas por uma noite como essa. E uma torcida que atravessou um continente para vivê-la como se fosse única.

Porque, para eles, era.

O futebol costuma ser contado a partir de quem perde. Mas, de vez em quando, ele pede que a gente olhe para quem está descobrindo, pela primeira vez, o que significa ganhar.

Sonhos não se adiam. Clássicos, pelo visto, também não.