Familiares e sobreviventes do naufrágio da lancha Dona Lourdes II se reuniram nesta terça-feira (8), em Belém, para lembrar as 23 pessoas que morreram na tragédia e cobrar o andamento do processo que apura as responsabilidades pelo acidente. A mobilização ocorreu na escadinha da Estação das Docas, onde os participantes levaram faixas e cartazes em memória das vítimas. A embarcação afundou próximo a Ilha de Cotijuba, em 2022, após sair de um porto clandestino no Marajó.
A manifestação marca quatro anos desde o naufrágio da embarcação e ocorre em meio à espera pela realização do júri popular do piloto da lancha. Para as famílias, a demora na definição do julgamento prolonga a espera por respostas sobre o que provocou a tragédia.
Nas redes sociais, o perfil oficial que pede justiça sobre o caso se manifestou. “Há feridas que o tempo não apaga. Há famílias que seguem vivendo com a ausência, com perguntas sem respostas e com uma dor que permanece. Hoje, lembramos as vidas que foram interrompidas no naufrágio de Cotijuba. Pessoas que tinham sonhos, famílias e histórias que jamais serão esquecidas. O tempo passou, mas a nossa voz continua: não esqueceremos. Não nos calaremos. Queremos justiça e respostas. Que a memória das vítimas permaneça viva e que a luta de suas famílias seja respeitada”, destacou no Instagram.
O naufrágio
A Dona Lourdes II afundou na manhã de 8 de setembro de 2022, na Baía do Marajó, nas proximidades da Ilha de Cotijuba, em Belém. A embarcação havia partido de um porto clandestino localizado em Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó.
Na época, informações divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública do Pará (Segup) apontaram que mais de 80 pessoas estavam a bordo. Como não havia uma lista oficial de passageiros, o número exato de ocupantes não pôde ser confirmado.
O naufrágio deixou 23 mortos. Sobreviventes foram resgatados com auxílio de moradores e pescadores da região de Cotijuba.
As circunstâncias da viagem passaram a ser investigadas após relatos de sobreviventes apontarem possíveis irregularidades. Entre as situações relatadas estavam a superlotação da embarcação, problemas relacionados aos equipamentos de segurança, incluindo coletes salva-vidas, e questionamentos sobre o tempo levado para o acionamento do socorro após o início da emergência.
Investigações e processo
O condutor da embarcação, Marcos de Souza Oliveira, que sobreviveu ao naufrágio, foi o único indiciado no caso. Ele chegou a ser preso por homicídio doloso e risco à navegação, mas deixou a prisão meses depois e passou a cumprir medidas cautelares, entre elas a suspensão da habilitação para conduzir embarcações e o monitoramento eletrônico.
Em abril de 2025, a Justiça determinou que Marcos fosse submetido a júri popular. Até esta terça-feira (8), porém, a data do julgamento ainda não havia sido definida.
Enquanto aguardam o desfecho do processo, familiares e sobreviventes continuam cobrando respostas sobre a tragédia. O caso também reacendeu discussões sobre as condições do transporte de passageiros entre o continente e o arquipélago do Marajó, especialmente diante de relatos sobre embarcações clandestinas, superlotação e dificuldades de acesso ao transporte regular.
Após o naufrágio, foram registradas mudanças no transporte regular entre Belém e Salvaterra, município que concentra um dos principais pontos de ligação do arquipélago com o continente. As famílias, entretanto, também passaram a enfrentar aumento nas tarifas, que, segundo moradores, pesa no orçamento de quem depende diariamente do transporte fluvial.
O Liberal