Quase 90 pessoas detidas durante os protestos contra a reeleição de Maduro em 2024 são libertadas na Venezuela, segundo ONGs
Pelo menos 87 pessoas presas durante as manifestações após a reeleição de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais de 2024 — denunciadas pela oposição como fraudulentas — foram libertadas nesta quinta-feira na Venezuela, segundo informaram duas organizações não governamentais.
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“Na manhã deste 1º de janeiro, mães e familiares relataram novas libertações de presos políticos da prisão de Tocorón, no estado de Aragua (norte)”, publicou nas redes sociais o Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos (Clippve).
Este é o segundo grupo de libertados na última semana. No Natal, as autoridades venezuelanas anunciaram a soltura de 99 pessoas, embora ONGs como o Foro Penal tenham conseguido verificar apenas 61 casos. Estima-se que ainda haja mais de 700 pessoas detidas por motivos políticos no país.
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As eleições presidenciais de 2024 desencadearam protestos que deixaram 28 mortos e cerca de 2.400 presos, em meio ao recrudescimento da repressão policial, depois que a oposição venezuelana denunciou fraude e ratificou a vitória de Edmundo González, candidato apoiado pela líder opositora María Corina Machado. Desde então, a Justiça venezuelana libertou mais de 2.000 detidos, segundo registros oficiais.
Essas libertações coincidem com um aumento da pressão contra o governo Maduro por parte dos Estados Unidos, que desde agosto mobilizaram tropas no Caribe, determinaram um fechamento informal do espaço aéreo venezuelano e agora passaram a apreender petroleiros sancionados nas proximidades da Venezuela.
Em paralelo, um funcionário americano, sob condição de anonimato, revelou que as forças de segurança venezuelanas detiveram vários americanos nos meses subsequentes ao início da campanha de pressão militar e econômica do governo de Donald Trump contra o país. Alguns enfrentam acusações criminais legítimas, enquanto Washington considera declarar ao menos dois como detidos injustamente. Entre os presos estão três pessoas com dupla cidadania venezuelana e americana e dois americanos sem vínculos conhecidos com o país, disse.
Maduro há muito tempo usa americanos detidos, culpados ou inocentes de crimes graves, como moeda de troca em negociações com Washington, seu maior adversário. Em seus dois mandatos, Trump priorizou a libertação de americanos detidos no exterior e mandou seu enviado, Richard Grenell, à Venezuela para negociar um acordo sobre prisioneiros dias após o início de seu segundo mandato. O período de negociações resultou na libertação de 17 cidadãos americanos e residentes permanentes detidos na Venezuela.
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Mas a decisão do governo Trump de suspender essas negociações em favor de uma campanha de pressão militar e econômica pôs fim às libertações. O número de americanos detidos na Venezuela começou a aumentar novamente nos últimos meses, segundo o funcionário americano.
Esse aumento coincidiu com o envio de uma frota naval americana para o Caribe e o início de ataques aéreos contra embarcações que, segundo Washington, transportam drogas a mando de Maduro. Os EUA intensificaram ainda mais sua pressão neste mês, visando embarcações que transportam petróleo venezuelano e paralisando a maior fonte de exportações do país.
Paradeiros desconhecidos
As identidades da maioria dos detidos nos últimos meses são desconhecidas. A família de um turista chamado James Luckey-Lange, de Staten Island, em Nova York, relatou seu desaparecimento logo após ele cruzar a instável fronteira sul da Venezuela no início de dezembro. Segundo o funcionário americano, Luckey-Lange, de 28 anos, está entre os presos recentemente e é um dos dois que podem ser considerados detidos injustamente.
Luckey-Lange é filho da musicista Diane Luckey, que se apresentava sob o nome artístico de Q Lazzarus e é mais conhecida pelo seu single de 1988, “Goodbye Horses”. Entusiasta de viagens e praticante amador de artes marciais, o jovem trabalhou na pesca comercial no Alasca após se formar na faculdade, de acordo com amigos e familiares. Ele embarcou em uma longa viagem pela América Latina em 2022, após a morte de sua mãe. Seu pai faleceu este ano.
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— Ele tem viajado bastante, tentando descobrir o que fazer da vida — disse Eva Aridjis Fuentes, cineasta que trabalhou com Luckey-Lange em um documentário sobre Q Lazzarus. — Ele sofreu muitas perdas.
No início de dezembro, o jovem escreveu em seu blog que estava pesquisando mineração de ouro na região amazônica da Guiana, que faz fronteira com a Venezuela. Em 7 de dezembro, disse por mensagem a um amigo que estava em um local não especificado na Venezuela e, no dia seguinte, falou com sua família pela última vez. Ele disse que estava indo para Caracas, onde planejava pegar um voo em 12 de dezembro para Nova York.
Não está claro se Luckey-Lange tinha visto para entrar na Venezuela, como exige a lei do país para cidadãos americanos. Sua tia e parente mais próxima, Abbie Luckey, disse em entrevista por telefone que não foi contatada por autoridades americanas e está buscando informações sobre seu paradeiro.
Alguns cidadãos americanos que foram libertados da prisão na Venezuela no início deste ano descreveram condições abusivas e falta de devido processo legal. Muitos não foram acusados de nenhum crime e poucos foram condenados.
O peruano-americano Renzo Huamanchumo Castillo, de 48 anos, relatou que, após ter sido detido no ano passado ao viajar para a Venezuela para encontrar a família de sua esposa, foi acusado de terrorismo e conspiração para matar Maduro. Afirmando que as acusações não faziam sentido, ele relatou ter sido frequentemente espancado e ter recebido um litro de água barrenta por dia.
— Percebemos depois que eu era apenas um símbolo — relatou.
Huamanchumo, de 48 anos, disse que era frequentemente espancado e recebia um litro de água barrenta por dia enquanto estava detido em uma notória prisão venezuelana chamada Rodeo I. Ele foi libertado em uma troca de prisioneiros em julho.
— Foi a pior coisa que se pode imaginar — disse ele.
Pelo menos outras duas pessoas com ligações aos EUA permanecem presas na Venezuela, de acordo com suas famílias: Aidel Suarez, residente permanente nos EUA nascido em Cuba, e Jonathan Torres Duque, venezuelano-americano.
