Em 1934, Antonieta de Barros foi eleita a primeira deputada negra do Brasil. Em um país que havia abolido a escravidão apenas 46 anos antes, sua presença já desafiava a ordem estabelecida.
Mas Antonieta fez do pioneirismo uma ferramenta de transformação: defendeu bolsas de estudo, concursos públicos para o magistério e a formação profissional. Foi também autora da lei que instituiu o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948.
Abrir as portas da educação era uma maneira de mudar quem poderia atravessar outras portas no futuro. Resgatar essa trajetória no Novembro Negro é lembrar que nossa história também é feita de mulheres que transformaram resistência em direitos.
Mulheres que enfrentaram uma estrutura política construída para mantê-las do lado de fora e que, quando conquistaram esses espaços, levaram consigo as necessidades de muitas outras pessoas. Jurema Batista, primeira deputada estadual negra do Rio de Janeiro, é parte dessa história.
Sua atuação passou pela defesa dos direitos humanos, pelo enfrentamento à discriminação e pela proteção da cultura popular, com iniciativas em defesa do charme de Madureira e da Feira de Tradições Nordestinas. Reconhecer essas manifestações como parte da cidade também significa reconhecer o direito de seus povos à memória, ao território e à existência.
Benedita da Silva levou à Constituinte a experiência de uma mulher negra, favelada e trabalhadora doméstica. Ajudou a construir uma Constituição que reconhecesse direitos historicamente negados à população negra e aos trabalhadores.
Anos depois, como relatora da PEC das Domésticas na Câmara, participou de uma conquista construída pela organização das trabalhadoras: ampliar a proteção de uma categoria marcada pelas heranças da escravidão. Esse caminho encontra continuidade em mulheres como eu.
Primeira mulher negra eleita vereadora em Niterói, sou autora do Estatuto Municipal de Igualdade Racial, que prevê cotas nos concursos públicos da cidade. Na Assembleia Legislativa, minha atuação também se traduz em medidas como a lei que institui a capacitação de profissionais da saúde e da assistência social para o acolhimento de vítimas de racismo.
A representação ganha sentido concreto quando se transforma em acesso ao trabalho, atendimento público e dignidade para a população. É nessa caminhada coletiva que reconheço minha própria trajetória e a de Anielle Franco, Tainá de Paula e tantas outras mulheres negras que disputam os rumos do país.
Antes de nós, outras abriram passagem. E cada caminho aberto precisa se alargar para quem vem depois.
Não há nada de automático nessa transformação. O compromisso com o povo precisa aparecer nas escolhas, nos projetos e nas prioridades.
É justamente esse compromisso que engrandece as trajetórias dessas mulheres: fazer do poder uma ferramenta para fortalecer a comunidade, os quilombos e a coletividade. Quando uma mulher negra se move, toda uma sociedade pode se mover com ela.
Porque enfrentar as desigualdades que atingem as mulheres negras é mexer nas estruturas que organizam o Brasil. Mulheres negras no poder dão sentido à democracia quando transformam nossa presença em direitos, nossa memória em caminhos e nossa luta em possibilidades de futuro.
Brasil 247