Quando quem conhecemos nos desaponta: há inovação para o impasse?

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Vivemos um tempo em que o medo influencia comportamentos coletivos: exclusão, perda de posição, exposição pública, ameaça de pertencimento e banimento. E sob pressão social, surge silenciamento, omissão, descompromisso e deslealdade. Isso ajuda a compreender escolhas, mas não elimina a responsabilidade. Se o desapontamento de um estranho surpreende, o de alguém com quem dividimos mesa, projeto e confiança, abala o vínculo e a imagem que construímos do outro e de nós mesmos. E nos fere. Desapontar e ser desapontado são experiências constitutivas da vida em comum e não anomalias. Como indica sua etimologia latina— dis, à parte e puncta, ponta, ponto num jogo —, deixamos de cumprir um apontamento, um combinado. Todo vínculo contém expectativas e alguma aposta no outro. O problema é apostar esquecendo-se de que medo, pressão e custos alteram o compromisso das pessoas. Descompromisso, omissão e traição podem surgir quando a lealdade se torna custosa, o silêncio é recompensado, falta responsabilização ou o compromisso nunca foi realmente assumido. Isso não desculpa o dano; ajuda a diagnosticá-lo e a buscar respostas, reparação e cura. E como lidar com o desapontamento? Seis questões ajudam a refletir. 1. Tolerar a deslealdade é possível? Tenho proposto o conceito de imunologia social para pensar como reconhecemos o que ameaça ou preserva a vida coletiva. Na biologia, o sistema imune distingue o tolerável do que exige resposta para preservação da vida, o intolerável. E vacinas nos preparam para determinados agentes, induzindo memória imunológica e defesas, os anticorpos. Mas existe vacina contra a deslealdade? Polly Matzinger propôs o danger model: a resposta imune não depende apenas do que é estranho, mas de sinais de perigo e dano. Por analogia, o aprendizado está em distinguir o que é apenas diferente ou assimétrico daquilo que, de fato, adoece uma relação. Karl Popper oferece um paralelo com o paradoxo da tolerância: tolerar sem limites pode destruir as condições da convivência. Errar, hesitar ou mudar de posição não é, por si, deslealdade. Um líder que tolera descompromisso crônico em nome da harmonia não protege a convivência – é omisso. 2. De quem é a responsabilidade pelo desapontamento? "Como cidadãos, devemos impedir o erro porque o mundo em que todos vivemos — quem erra, quem sofre o erro e o espectador — está em jogo." Hannah Arendt nos lembra que permanecemos responsáveis pelo que fazemos, mesmo sob pressão de grupos, instituições ou maiorias. “Apenas obedeci” ou “não posso fazer diferença” não encerram o julgamento moral. Compreender a deslealdade não transfere a responsabilidade para quem foi ferido. É preciso reconhecer o dano, avaliar se o vínculo pode ser reparado e preservar a capacidade de julgar sem deixar que o ressentimento a obscureça. 3. Como comunicar a deslealdade? Os gregos chamavam de parresía a coragem de falar o que precisa ser dito. Para Michel Foucault, essa fala envolve risco: pode custar rejeição, afastamento ou posição. Nomear uma falha abre espaço para responsabilização; o silêncio também tem consequências.

Na liderança, conversas francas favorecem aprendizado e em casos graves, podem levar ao rompimento profissional. Na parentalidade, comunicar nossa compreensão da verdade sobre comportamentos e limites exige evitar tanto ferir desnecessariamente quanto proteger em excesso. A boa intenção é um anteparo, não um salvo-conduto. Parresía não é dureza nem condescendência: é presença honesta a serviço do amadurecimento. 4. O outro tem escuta? A andragogia lembra que adultos aprendem a partir de experiências, convicções e narrativas já formadas; o novo precisa dialogar com essa experiência e não apenas receber respostas prontas ou autoridade imposta. Responsabilizar-se exige examinar a própria conduta e rever escolhas. E mudanças não devem esperar sem limites. Quem exerce parentalidade reconhece essa transição quando a adolescência traz autonomia e “outras verdades possíveis”. Parresía e andragogia se encontram aqui: dizer com clareza e criar condições para que a reflexão alcance o comportamento. Isso exige método, paciência e interesse na evolução do outro — e disposição do outro para rever-se. 5. Resolver ou transformar o conflito? John Paul Lederach distingue resolução de transformação de conflitos. Resolver responde ao problema imediato; transformar examina relações, padrões e estruturas que o produzem, revelando tensões e necessidades ocultas. Transformar não é reconciliar-se a qualquer custo. É compreender o ocorrido e decidir o que pode ser reparado, renegociado ou encerrado. O desapontamento também informa: revela algo sobre a pessoa, o vínculo e o que precisa mudar desta relação.

Mas quando há reincidência, dano, recusa ao diálogo, negação ou minimização, a questão deixa de ser apenas aprendizagem e passa a ser limite. A tentação costuma ser escalar: explicar mais, insistir, tentar provar. Muitas vezes, apenas endurecemos as defesas, agravando o conflito.

6. Até onde permitir o que destrói a convivência continue operando? A pergunta da imunologia social reaparece e chegamos à questão mais difícil: o impasse. Em suas raízes, in- indica negação e passus, em latim, remete ao passo: uma situação sem passagem, sem saída — o limite da flexibilidade. E aqui que uma estratégia antiga pode se tornar inovação: distanciar-se; do latim dis, separação e stantia, estar firme, significando permanecer em outra posição. Distância não é desistência: interrompe a escalada, favorece a regulação emocional, recupera discernimento e criatividade antes de decidir como prosseguir. Para pais, líderes e relações entre adultos, evita dois extremos: punição que fecha o diálogo e tolerância que perpetua o dano. Entre ambos existem franqueza, responsabilização, pausa, renegociação e reparação — e a capacidade de reconhecer quando insistir ou encerrar um vínculo. Liderar diante do desapontamento exige firmeza e compreensão: discordar, reparar danos e legitimar o outro sem transformar diferença em inimizade. Não é concordância, mas uma regra mínima de equidade. Nem toda falha exige rompimento, nem todo vínculo merece continuidade. Quando diálogo, reparação e renegociação se esgotam, distanciar-se também é ser responsável, um luto reverso, uma quarentena sem data.

Transformar o desapontamento não garante reconciliação, mas pacifica: compreender melhor a nós mesmos, o outro e os limites da relação; preservar o que foi bom sem tolerar o dano; legitimar o outro sem exigir proximidade. Quando cessa a exigência de resolver o conflito, reaparecem espaço, criatividade e uma outra forma possível de relação. Uma esperança. O mundo que compartilhamos — como escreveu Arendt — pertence a quem erra, a quem sofre o erro e a quem assiste. Nenhum de nós escapa dessa pertença. Em uma época de medo, assimetrias e intolerância, a pergunta é: diante do desapontamento, vamos apenas suportar os outros ou ainda escolher construir um mundo comum? *Rubens Harb Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde e counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão) Mais Lidas

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