No último domingo de outubro, 739 mil eleitores do Distrito Federal confiaram em nós. Não vencemos.
Respeito o resultado e a decisão de cada eleitor. Mas uma eleição também deixa perguntas e responsabilidades.
E há uma frase que ouvi muitas vezes na campanha. “Gosto de você.
Acho que você seria um bom governador. Mas não voto no PT.”
Ouvi isso de pessoas insatisfeitas com a saúde, preocupadas com a segurança, cansadas do transporte e críticas ao governo do Distrito Federal. Ainda assim, para algumas delas, a rejeição à sigla pesou mais que a realidade que elas próprias criticavam.
Não digo isso para condenar ninguém. O voto é livre.
Mas precisamos conversar sobre a régua que usamos para julgar a política. Partidos são feitos por pessoas.
Ao longo da história do PT, houve lideranças que erraram, assim como milhares de pessoas dedicadas à democracia e aos direitos sociais. O que me parece difícil de justificar é transformar os erros de determinadas pessoas numa condenação permanente de todos que integram uma legenda.
Se esse é o critério, ele precisa valer para todos. Por que episódios envolvendo dirigentes ou governantes de outras siglas não produzem a mesma rejeição automática? Por que, em alguns casos, analisamos uma candidatura por sua trajetória e suas propostas, enquanto em outros a sigla encerra a conversa?
Não quero que ninguém passe a aceitar nos outros aquilo que rejeita no PT. Quero justamente o contrário.
Que deixe de aceitar do seu lado aquilo que condena quando acontece no PT. A ética só tem valor quando a régua é a mesma.
Também ouvi que a divergência era de “valores”. É legítimo divergir por razões econômicas, religiosas ou sobre costumes.
Mas uma coisa é divergência. Outra é medo fabricado.
Nesta eleição, fantasmas como o “kit gay” e o suposto fechamento de igrejas renasceram e foram usados para deslocar o debate sobre saúde, educação, segurança e transporte. Talvez seja necessário recuperar o sentido concreto da palavra valor.
Valor é uma criança ter escola de qualidade, uma mãe conseguir atendimento médico, uma mulher encontrar proteção, um trabalhador voltar para casa em segurança e o dinheiro público ser tratado com honestidade. Foi justamente na campanha que encontrei uma das maiores razões para ter esperança.
Entre o primeiro e o segundo turno, conquistamos quase 170 mil votos a mais. Mas o que mais me marcou apareceu nas ruas, nas escolas, nas casas e nas redes.
Vi gente jovem querendo participar. Adolescentes discutindo transporte, educação, cultura e oportunidades.
Filhos conversando com pais e avós. Uma geração que pergunta por que falta médico, por que o ônibus demora e por que uma região tem tantas oportunidades e outra tão poucas.
O antipetismo não será superado por uma campanha publicitária nem pela repetição dos mesmos argumentos. Tampouco será vencido reclamando do eleitor.
Essa rejeição só pode ser enfrentada com presença, confiança, coerência, renovação e tempo. Esse é também um desafio para o próprio PT.
Seria confortável demais atribuir qualquer derrota apenas ao antipetismo. Precisamos perguntar por que ele existe e como reconstruir pontes com quem hoje não quer sequer nos ouvir.
O PT nasceu de baixo para cima, entre trabalhadores, comunidades de fé, movimentos populares, estudantes, professores, mulheres e gente que lutava por moradia, democracia e direitos. Em muitos lugares, essa relação se enfraqueceu.
O problema começa quando a estrutura substitui a presença e quando a comunicação fala mais para os convertidos do que para a sociedade. O desafio agora é voltar a ser mais presente, mais aberto e mais capaz de conversar com quem pensa diferente.
Isso exige novos métodos. Exige estar presente entre uma eleição e outra, criar espaços permanentes de escuta e participação, formar novas lideranças e usar uma linguagem que faça sentido para quem não vive a política partidária.
E exige algo ainda mais importante. Dar às novas gerações não apenas espaço, mas voz e poder de decisão.
Os jovens precisam formular propostas, definir prioridades, ocupar posições de direção e criar novas formas de mobilização. Esse é o compromisso que tiro desta eleição.
Quero continuar percorrendo o Distrito Federal, ouvindo pessoas, formando lideranças e construindo uma rede de participação que não dependa do calendário eleitoral. Quero conversar também com quem não votou em nós.
O futuro do partido dependerá menos de defender sua história e mais da capacidade de escrever uma nova. Uma história construída nas ruas, com novas gerações, novos métodos, mais escuta e mais presença.
Talvez o melhor caminho para enfrentar o antipetismo não seja falar mais sobre o PT. Talvez seja estar mais perto das pessoas.
Brasil 247