Qual foi a última coisa que você fez pela primeira vez?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A vida de Mônica Dutra Mello andava sem grandes novidades quando o marido apareceu especialmente animado, contando que havia entrado para um coral na Lapa, no Rio. A enfermeira aposentada de 59 anos decidiu acompanhá-lo a um ensaio.

Queria entender o motivo de tanta alegria. Ali, deparou-se com um universo inteiramente novo.

Pronta para soltar a voz, percebeu que cantar em conjunto exigia preparação, atenção ao maestro e sintonia com as outras vozes. Gostou tanto que resolveu estudar técnica vocal e leitura de partituras para acompanhar melhor o grupo.

O entusiasmo acabou se estendendo a outros interesses. Ela retomou as aulas de inglês, prepara-se para aprender a nadar e já pensa em experimentar um instrumento musical.

— Nunca fui muito de me aventurar. Mas o coral me deu vontade de fazer coisas diferentes.

A convivência com pessoas de várias idades e profissões é estimulante. Alguém conta que está fazendo alguma coisa nova e você pensa: por que não tentar?

A história de Mônica mostra que sair da rotina não exige uma mudança radical de vida. Preparar uma receita inédita, conhecer um bairro, experimentar uma atividade artística ou conversar com alguém fora do círculo habitual são pequenas atitudes que podem fazer a diferença na qualidade de vida.

Segundo o especialista em psicologia positiva Henrique Bueno, o contato com o desconhecido desperta a atenção e mobiliza mecanismos cerebrais ligados à aprendizagem, à motivação e ao prazer. Diante de uma situação nova, precisamos observar mais, interpretar informações e encontrar maneiras de agir.

É uma forma de sair do chamado piloto automático. — A rotina e os hábitos são ótimos para economizar energia.

O cérebro prefere o caminho que já conhece. Com o tempo, a vida adulta pode virar uma sequência de caminhos conhecidos — explica.

Medo de errar limita experiências O que muitas vezes não percebemos é que esse processo pode se intensificar.

Depois de anos fazendo aquilo que já dominam, muitas pessoas passam a evitar situações em que possam errar ou demonstrar falta de habilidade. — Quanto mais competentes nos tornamos no trabalho, mais difícil fica aceitar o papel de iniciante.

Isso significa errar na frente dos outros, e muita gente passa a evitar qualquer situação em que não seja boa. A psicologia positiva identifica a curiosidade entre as forças de caráter associadas à satisfação com a vida.

Pesquisas também relacionam essa característica à disposição para explorar possibilidades, estabelecer conexões e encontrar significado no cotidiano. Um estudo publicado na revista científica Psychology and Aging que acompanhou idosos durante cinco anos encontrou uma associação entre curiosidade e probabilidade de sobrevivência.

Isso não significa que a curiosidade, por si só, prolongue a vida, mas sugere uma relação entre o interesse pelo mundo e a longevidade. No coral em que atua como soprano, Mônica encontrou espaço para exercitar essa curiosidade.

Há concentração e estudo, mas também conversas, risadas e amizades. Sai cobrança, entra curiosidade

Para quem deseja se aventurar em algo desconhecido, o psicólogo recomenda trocar a preocupação com o desempenho pela curiosidade sobre o processo. Em vez de perguntar se será bom naquilo, vale pensar no que poderá descobrir pelo caminho.

Ele próprio encontrou uma maneira de incorporar a novidade aos dias quando passou a fotografar o nascer do sol em diferentes pontos de Antonina, no litoral do Paraná. A cada manhã, escolhia um lugar diferente para registrar a paisagem e enviava a fotografia para um grupo de amigos.

Sem a obrigação de se exercitar, a caminhada acabou se tornando um hábito prazeroso. — Cultivar a curiosidade tem menos a ver com fazer cada vez mais, e mais com prestar atenção ao que desperta interesse — diz Henrique.

Mônica parece ter entendido o recado. Fora dos ensaios, o grupo também organiza noites de karaokê, com direito a comes e bebes, conversas e muitas risadas.

Para quem nunca havia cantado em conjunto, a música trouxe novas amizades e uma vida social mais movimentada e feliz. — As apresentações são o ápice, mas os ensaios são a maior riqueza.

6 maneiras de sair do piloto automático Nem sempre é preciso fazer grandes mudanças para trazer novidades ao cotidiano.

Pequenas experiências ajudam a exercitar a curiosidade e ampliar os horizontes. Experimente algo novo: faça uma aula de dança, cerâmica ou música.

Explore a cidade: conheça um bairro ou visite um lugar onde nunca esteve. Aprenda sem cobrar resultados: permita-se ser iniciante e errar durante o processo.

Amplie seu círculo social: converse com pessoas de diferentes idades e trajetórias. Preste atenção ao que desperta seu interesse: em vez de acumular atividades, descubra o que realmente dá prazer.

Troque a cobrança pela curiosidade: em vez de se preocupar em ser bom, pense no que pode descobrir com a experiência. Quanto mais competentes nos tornamos no trabalho, mais difícil fica aceitar o papel de iniciante.

Isso significa errar na frente dos outros, e muita gente passa a evitar qualquer situação em que não seja boa

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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