Na primeira reunião após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem, por unanimidade, interromper o ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic, mantendo-a em 13,75% ao ano. O ciclo, iniciado em março deste ano, teve cinco cortes de 0,25 ponto percentual, mas não teve fôlego suficiente para tirar o país de um período prolongado de juros básicos em dois dígitos.
Para especialistas, essa dificuldade de cortar juros cobra um preço alto de toda a economia. Em comunicado, o BC apontou o cenário macroeconômico desafiador para justificar sua “cautela” e não antecipou qualquer sinal sobre o que deve fazer na próxima reunião do Copom, em dezembro.
Para o superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Fernando Gonçalves, o cenário é tão desafiador que o Copom preferiu deixar em aberto o que fará na próxima reunião: — O BC não quis sinalizar nada pra frente, ficou um pouco em aberto.
Mas, ao mesmo tempo, a gente entende que ele botou uma barra alta, por exemplo, para elevar a taxa, quando diz no comunicado que os juros estão substancialmente contracionistas. Estão num patamar que desacelera a atividade econômica e promove uma queda da inflação.
A taxa básica de juros serve de referência mínima para o custo de todas as operações financeiras da economia e é o principal instrumento do BC para controlar a inflação. Quando está elevada, esfria a demanda e, portanto, a atividade econômica.
Quando é mais baixa, aquece consumo e investimentos, impulsionando o crescimento econômico, mas também alimentando a inflação. Para economistas e analistas do mercado financeiro, ao gastar mais do que arrecada, o governo contribui para a inflação e dificulta um corte de juros pelo BC, que tem a obrigação de buscar o cumprimento da meta de inflação.
A meta contínua de inflação no Brasil é de 3% no acumulado em 12 meses, com margem de 1,5 ponto para cima ou para baixo. O IPCA, índice oficial do país, registrou alta de 4,58% em 12 meses até setembro, no dado mais recente divulgado pelo IBGE.
Para Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, a liderança do país no ranking global de juros reais reflete o patamar elevado da dívida pública na comparação com tudo o que a economia produz. Esta relação alcançou 82,9% do PIB em setembro e saltou onze pontos percentuais desde o início do atual governo, em 2023.
— Estamos vivendo com uma distorção louca, com uma faixa de juro real de 10% há quase três anos. Não há país que aguente, como não está aguentando.
A inadimplência de pessoas físicas é recorde, a de empresas em recuperação judicial também. Qual é a solução? Fazer um programa de ajuste fiscal que funcione, para colocar em trajetória claramente cadente a relação dívida/PIB — disse.
A parada no ciclo de queda da Selic era esperada pela maior parte dos analistas de mercado, diante de incertezas em relação à condução da política fiscal do presidente Lula. Antes do segundo turno, o mercado financeiro previa a maior probabilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, tido como mais propenso a controlar as despesas públicas.
Surpreendente em relação às pesquisas, o resultado eleitoral provocou alta do dólar, que alimenta a inflação e limita a continuidade dos cortes da Selic pelo BC. A trajetória de queda começou com a taxa em 15% ao ano, patamar que vinha desde junho de 2025.
Em todo o ciclo, o Copom adotou postura cautelosa e gradualista. “O Copom decidiu manter a taxa Selic em 13,75% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”, diz o comunicado do BC.
O Copom elevou suas projeções de inflação em todo o horizonte de atuação da política monetária. O movimento segue o que está acontecendo no mercado — analistas e investidores revisaram para cima suas estimativas para o IPCA, que baliza a meta.
A alta mais significativa ocorreu na projeção do BC para 2027, que passou de 3,9% para 4,7%, acima do teto da meta —mesmo assim, as decisões de agora já não deverão afetar a inflação do ano que vem, pois os movimentos na taxa básica levam meses para esfriar ou aquecer a demanda. O Copom mira agora na inflação do segundo trimestre de 2028, e a projeção do BC para essa data já aponta para IPCA de 3,5% em 12 meses, acima do centro da meta.
O BC não detalhou os motivos para a forte escalada em suas projeções, mas ela ocorre em um ambiente no qual há uma combinação de choques sobre a economia, como a alta do petróleo — as cotações internacionais caíram ontem, mas seguem em patamar elevado —, o El Niño e a alta do dólar após as eleições.
Segundo o comunicado do Copom, o cenário ficou mais complexo: enquanto a inflação corrente e as expectativas para o IPCA estão acelerando, “o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião aponta para uma moderação mais acentuada da atividade econômica, principalmente em setores mais cíclicos” — em condições normais, o arrefecimento da atividade deveria tirar pressão da inflação, ao esfriar a demanda.
Segundo o time liderado por Gabriel Galípolo, com a Selic “substancialmente contracionista” e com o aumento das incertezas, o cenário para a política de juros é “desafiador” e requer “serenidade e cautela na sua condução”. O economista da gestora Polo Capital Arnaldo Lima destacou dois fatores citados pelo BC para manter a Selic: a atividade econômica menos aquecida e a pressão inflacionária:
— Eles deixaram bem claro que os efeitos sobre a desaceleração da atividade econômica estão bem mais substanciais do que na reunião passada. Mas o que sobrepôs mesmo foi a questão da inflação.
Luiz Otavio Leal, economista-chefe da gestora e assessoria financeira G5 Partners, também destacou os conflitos no Oriente Médio e o aumento dos juros nas economias desenvolvidas. No cenário interno, Leal avaliou que o comunicado trouxe “certa ambiguidade”: o texto chamou a atenção para a desaceleração econômica, incluindo agora o mercado de trabalho — antes visto como “resiliente” e “aquecido” —, ao mesmo tempo em que a inflação corrente e as expectativas aceleraram:
— Por um lado, a deterioração do cenário e as incertezas sobre os próximos passos da política econômica do governo ensejavam a manutenção dos juros. Por outro, a piora das condições de crédito, tanto para os consumidores, quanto para empresas, indicava a necessidade de reduzir os juros dos patamares atuais.
No fim, venceu o bom senso de não fazer marola em um momento de muita volatilidade nos mercados brasileiros. O economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, destacou que embora haja uma reacomodação do mercado de trabalho e uma desaceleração da economia de modo geral, o BC citou no começo do comunicado a alta dos preços de matérias-primas — não só o preço do petróleo, mas também de produtos agropecuários, refletindo algum impacto pela expectativa do El nino sobre as lavouras.
— O BC está dizendo, olha, a atividade está desacelerando, mercado de trabalho está perdendo força, mas estamos muito preocupados com o comportamento da inflação. Não é uma leitura de 15 dias, de 30 dias, é uma leitura de agora.
Esse comportamento dos preços sugere inflação mais resiliente lá na frente — disse Galhardo. Solange Srour, diretora de Macroeconomia para Brasil do braço de gestão de fortunas do UBS, vê a condução dos gastos do governo como determinantes para a dificuldade do país de sair da liderança dos juros reais no mundo.
Outros dois fatores, no entanto, são adicionados por ela para o Brasil figurar neste patamar: a potência limitada da política monetária para combater a inflação e instituições fragilizadas. — Cerca de 44% do saldo de crédito do sistema financeiro é direcionado, e essa fatia responde pouco à Selic.
Quando quase metade do mercado não sente o aperto, a outra metade precisa senti-lo em dobro. Insegurança jurídica, dificuldade de recuperar garantias e decisões judiciais que reescrevem contratos elevam o risco de emprestar e o spread bancário — ela diz, acrescentando que medidas de reversão desses pontos são necessárias para que o Brasil se descole do topo do ranking de juros.
— (É preciso) desvincular as despesas obrigatórias do salário mínimo e da receita e rever os pisos constitucionais, encolher o crédito direcionado e devolver potência à política monetária, dar previsibilidade a contratos e garantias e reduzir a insegurança jurídica.
O Globo