Para plantar uma lavoura, é preciso pensar meses à frente. Para recuperar um solo, são necessários anos.
Para desenvolver uma nova tecnologia, muitas vezes décadas. E para formar uma geração de profissionais, mais ainda.
Mas, quando pensamos no futuro do Brasil, frequentemente trabalhamos com horizontes muito mais curtos. As grandes transformações de um país não acontecem em um único ciclo.
Infraestrutura, ciência, educação, energia, indústria e agricultura são construídas ao longo do tempo. Por isso, precisamos fazer uma pergunta que ultrapasse o presente: qual Brasil queremos construir até 2050?
Esse questionamento não é abstrato. As escolhas feitas hoje definirão nossa capacidade de produzir alimentos, gerar energia, desenvolver bioprodutos, criar empregos, incorporar tecnologia e competir no mundo nas próximas décadas.
O agro mostra bem a importância dessa visão. A agricultura brasileira que conhecemos hoje é resultado de muita pesquisa, empreendedorismo e inovação.
Transformamos solos e condições tropicais que pareciam limitantes em uma das atividades mais competitivas do mundo. Desenvolvemos genética, manejo, máquinas, biotecnologia, bioinsumos e agricultura digital.
O próximo passo é converter essa competência produtiva em uma plataforma ainda maior. O Brasil tem grandes vocações que podem se complementar: alimentar, mover e tornar o mundo mais sustentável por meio de bioprodutos.
Produzimos alimentos em escala, biocombustíveis, produtos de origem agroindustrial e ainda temos uma matriz energética com forte participação de renováveis. É nesse ponto que a agroindústria assume papel estratégico.
Ela conecta a produção rural à indústria, transforma matérias-primas em produtos de maior valor e cria cadeias econômicas que chegam ao consumidor a preços acessíveis. Um grão pode virar comida, combustível, ingrediente, óleo, proteína animal ou insumo industrial.
Quanto mais avançamos, maior é o valor que permanece no país. Essa integração também impulsiona nossa aptidão em inovar.
Ciência, agricultura, indústria e tecnologia deixam de atuar como mundos separados e passam a formar um sistema capaz de gerar soluções para mercados mais sofisticados. Nossa agroindústria opera em uma lógica de just in time e requer investimentos contínuos em digitalização, gestão e logística, além de financiamentos, seguros e garantias de longo prazo.
Mas potencial não é destino. Globo Rural
Para tornar nossas vantagens em desenvolvimento, precisamos de uma visão de longo prazo para infraestrutura, logística, ciência, conectividade, educação, energia, finanças e inovação. Temos que estabelecer condições para que empresas invistam, pesquisem, concebam tecnologias e transformem conhecimento em negócios.
O desafio é ainda maior porque muitas das decisões mais importantes de hoje só produzirão resultados daqui a muitos anos. Quem desenvolve uma nova tecnologia talvez não seja quem verá seu impacto em escala.
Quem investe em infraestrutura pode não colher diretamente seus benefícios. Quem forma uma nova geração de profissionais dificilmente verá todo o resultado desse trabalho.
Isso não reduz a importância das escolhas presentes. Ao contrário: aumenta nossa responsabilidade sobre elas.
Pensar em 2050 significa imaginar um futuro possível e desejável e preparar o país para ter alternativas, criando oportunidades e esperança para todas as pessoas. O mundo das próximas décadas será marcado por mudanças profundas.
Segurança alimentar, energia renovável e produtos e processos sustentáveis estarão cada vez mais interligados. Poucos países reúnem tantas condições para participar dessa transformação quanto o Brasil, como o farol da agroindústria tropical.
Temos território, biodiversidade, recursos naturais e, em especial, gente motivada a empreender. Uma agricultura tropical altamente evoluída, uma agroindústria diversificada, capacidade logística e industrial e conhecimento científico.
O desafio está em conectar esses ativos e transformá-los em estratégia de desenvolvimento. Leia mais opiniões de especialistas e lideranças do agro
Isso exige também mudar a forma como enxergamos nossas cadeias produtivas e entender que elas não são compartimentos isolados. São partes de um mesmo sistema, no qual a competitividade de um elo pode ampliar a dos demais.
O verdadeiro protagonismo de uma nação não está apenas naquilo que ela produz hoje, mas na habilidade de construir aquilo que será necessário amanhã. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja onde o Brasil estará em 2050.
É qual Brasil podemos e queremos construir até lá? Um país de oportunidades, capaz de responder aos seus próprios desafios e ajudar a construir o futuro do mundo, liderando pelo exemplo.
Que exporte principalmente produtos ou que amplie sua participação internacional pela qualidade de suas soluções em conhecimento, tecnologia e inovação, tornando-se um protagonista reconhecido e respeitado? Que utilize suas vantagens naturais ou que as transforme em inovação, valor e desenvolvimento?
As respostas não serão dadas em 2050. Elas começam a ser construídas agora.
E o agronegócio, conectado à agroindústria, à indústria, aos serviços, à ciência e à tecnologia, pode ser uma das plataformas dessa construção. Pensar o futuro do agronegócio é, cada vez mais, pensar o futuro de um Brasil próspero.
*Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural
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