O presidente Luiz Inácio Lula da Silva melhorou tanto na intenção de voto como na avaliação de governo, mas a subida pode ser considerada relativamente modesta, dado o tanto de decisões que o governo tomou nas últimas duas semanas e uma safra de notícias negativas para a campanha de seu principal adversário.
Os dados da pesquisa Quaest, encomendada pelo GLOBO, evidenciam que Lula parece conseguir se reconectar com um eleitorado mais cativo, como a população com renda de até dois salários mínimo e o feminino, com aumento da distância para Flávio acima da margem de erro. Vale uma recapitulação para tentar entender porque a melhora, apesar de fática e importante, ainda pode ser considerada relativamente pequena.
Lula jogou mais duro na disputa interna do Supremo Tribunal Federal (STF), com os ministros mais próximos do Planalto, especialmente Flavio Dino, atuando mais diretamente para bloquear a atuação dos ministros mais próximos do bolsonarismo, como André Mendonça. Isso travou a discussão na corte, diminuindo naturalmente a temperatura do noticiário de crise institucional, o que beneficia o incumbente. De outro lado, abriu a caixa de ferramentas do Executivo e também o petismo passou a se engajar mais, sobretudo, nas redes. Os anúncios do reajuste de 15% do Bolsa Família, da proibição de bets e da publicação de um novo Desenrola (dessa vez com o governo comprando as dívidas das pessoas, embora só em novembro), ajudaram o governo a retomar o controle da pauta e diminuir a exposição negativa (ou pelo menos mudar o foco das polêmicas). Além disso, nesse período a campanha à reeleição foi beneficiada por dois reveses importantes de Flávio. O primeiro, a volta do senador ao noticiário policial com a questão do Dark Horse, sua investigação pelo STF e sua dificuldade de trazer explicações verdadeiras e críveis sobre o caso. O segundo, mais recente, foi a notícia falsa (fake news) sobre a Nossa Senhora, que obrigou Flávio Bolsonaro a ir para a defensiva, redirecionar sua campanha para conter danos e negar qualquer intenção de retirar o título de Padroeira do Brasil.
Nesse período, a Quaest mostra uma subida de Lula entre os católicos, mas também entre os evangélicos, mostrando que analisar esse último grupo está longe de ser trivial como algumas pessoas sugerem.
Seja como for, o ganho de terreno de Lula ainda não parece substancial para o tanto de medidas e eventos ocorridos mais recentemente. Se os dados dessa manhã, somado a outras pesquisas, como a Datafolha mais recente e a BTG Nexus também dessa segunda-feira, reforçam um discreto favoritismo do presidente. Mas ele é pequeno e a eleição segue em aberto. Aliás, a Quaest mostra que caiu de 55% para 52% o total de respondentes que acredita na vitória de Lula, enquanto subiu de 30% para 32% os que veem Flávio vencedor.
Para além das pesquisas, conversas com pessoas ligadas às campanhas reforçam essa leitura. No petismo, há um misto de alívio e maior otimismo, embora com continuidade de preocupação e ciência do risco. No bolsonarismo, a despeito de uma parcela ter descido do salto alto, outra parte vê na pouca dianteira de Lula na Quaest no primeiro turno e empate no segundo, mesmo depois de tudo o que foi feito pelo governo, um reforço na aposta de vitória. Especialmente por acreditarem que o voto bolsonarista seria subestimado pela Quaest e outros institutos.
O Globo